Especial Lua - 40 anos
Houston, we have a problem: a bandeira é tuga - vídeo
Publicado em 18 de Julho de 2009
Só há uma rua comprida em Sosa, concelho de Vagos, e Maria Isilda Ribeiro passa despercebida. Voltou há cinco anos dos Estados Unidos. Tem 63 e cresceu ali, numa casa antiga com azulejos cinzentos e azuis. A bandeira que Neil Armstrong deixou na Lua, foi ela que coseu
Só há uma rua comprida em Sosa, concelho de Vagos, e Maria Isilda Ribeiro passa despercebida. Voltou há cinco anos dos Estados Unidos. Tem 63 e cresceu ali, numa casa antiga com azulejos cinzentos e azuis. Saiu com 20, casada com Armando, um arranjo ao gosto das avós. Tinha acabado o curso na Escola Agrícola, ia ser professora regente nos Açores. A filha ficou na América, com o genro e a neta Adriana, nove anos. Os olhos nublam-se com facilidade. É uma tarde quente e não há ninguém na rua. Vimos à procura da portuguesa que bordou a primeira bandeira deixada na Lua. Ri-se. “Outra vez, são teimosos. A bandeira não foi bordada, foi estampada”.
A fama persegue-a. Casada os mesmos anos que faz a Apollo 11, divorciou-se e leva uma vida feliz entre a pequena vila e um lugar ainda mais pequeno, Boco. Ajudamo-la a arrastar uma cómoda do quarto. O passado está guardado nas últimas gavetas, onde alguns recortes de jornais são provas escassas. “Nomes que marcaram a história”, lê-se num. “Isilda, a bandeira e a Lua”, diz outro. Fotografias não há. Havia uma, do dia em que o “The New York Times” foi à fábrica e ficou a saber que uma das suas bandeiras ia para a Lua. Tinha tratado de todos os remates, as bainhas e a costura para a haste.
“Por acaso também foi um português que a estampou, mais velho”. Não se recorda do nome. A bandeira que Neil Armstrong cravou na Lua, passavam quatro dias, 14 horas e nove minutos do início da missão, no dia 20 de Julho de 1969, olha-nos no papel amarelado.
MADE BY PORTUGUESE. O toque português no grande salto da humanidade aconteceu na Annin & Company, em Roseland, Nova Jersey, a fábrica de bandeiras mais antiga do mundo. Dois meses depois de emigrar para os Estados Unidos, em 1966, Isilda sentou-se pela primeira vez às Singer que cosiam para o governo americano. “As bandeiras mais sofisticadas eram feitas ali”, conta.
Na Annin trabalhavam mais cinco portugueses. “Começou tudo no final de 1968. Começámos a fazer bandeiras especiais, só sabíamos que eram para experiências”. A história é velha e já não tem interesse, atira de vez em quando. Mas faz 40 anos esta segunda-feira. “Quarenta anos é muito tempo. As coisas desaparecem”, diz. Logo em 1969, de férias em Portugal, chamaram-na à RTP. “Era um estúdio pequeno. Acho que cá houve mais alarido do que lá. As pessoas estavam habituadas a ouvir falar da Lua. Daquela vez aterraram”. Prefere lembrar a bandeira de 50 metros que bordou para o centenário da ponte George Washington, em Nova Iorque.
MISSÃO: BANDEIRA. Levar uma bandeira para a Lua não foi uma tarefa menor no programa da Apollo 11. O pano custou 5,50 dólares na Annin. Isilda dedicou-lhe meia hora, ganhou pouco mais de 40 cêntimos. O tecido, uma mistura de nylon com fibra de vidro, já vinha com os “picotados” para costurar. O dispositivo para assegurar o primeiro marco histórico fora da Terra levou meses a conceber. O tubo, a enterrar na superfície lunar, custou 75 dólares. Tinha uma risca vermelha a assinalar os 45,7 centímetros – só conseguiram perfurar 22. Uma vara adicional foi colocada na horizontal para levantar o pano.
O gesto, de quem marca território, foi só simbólico. Um tratado das Nações Unidas, adoptado em 1967, declarava que o “espaço, a Lua e outros corpos celestes, não podiam ser apropriados por nenhuma nação através da reivindicação de soberania, ocupação ou qualquer outro meio”. O pano não suportaria mais de 180 graus centígrados e teve de ser protegido por uma mortalha de fibra de aço. Foram precisas 12 pessoas para instalar a bandeira a bordo do Eagle. Os dez minutos do gesto, em directo na televisão, tornaram-se épicos. Buzz Aldrin disse à revista “Life” que sentiu uma “união mística com todos povos da Terra”.
“Nem sei se ela ainda lá está”, confessa Isilda. No ano passado, um vizinho de Sosa pôs na varanda duas bandeiras que trouxe dos Estados Unidos. Pela rapidez com que ficaram desfeitas, a da Lua não estará em melhores condições, testemunha. O museu do Espaço do Instituto Smithsonian, em Washington, fez a experiência. Em 1976, inaugurou uma cápsula com as condições atmosféricas da Lua e deixou lá dentro uma bandeira igual à da Annin. Vinte anos depois, estava bastante danificada. Quando o módulo lunar descolou de volta à Columbia, onde aguardava Michael Collins, Aldrin e Armstrong dizem ter visto a bandeira tombar com a força do exaustor. A desfeita não chegou a ser oficializada.
Outras cinco bandeiras foram deixadas da Lua. A última durante a Apollo 17, a última missão tripulada em 1972. Nenhuma ficou de pé. O regresso é esperado em 2020, garante a NASA. Dez anos é tempo demais para esperar. “Duvido que cá esteja”, diz Isilda. Com 71 mil milhões de dólares já aprovados para o projecto, Barack Obama talvez possa acelerar as coisas. Certo que, em tempo de crise – nota pela diferença que lhe faz na reforma americana a quebra do dólar – “o presidente tem muito com que se preocupar”. Mas gostava de voltar a ver a bandeira.
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