Obrigado, Moody's

por André Abrantes Amaral, Publicado em 16 de Julho de 2011   
Ao confundirmos Portugal com o Estado caímos no truque dos que querem mais Estado e não percebendo a diferença tornamo-nos irracionais na defesa do que nem sabemos o que é
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Nas últimas semanas, devido à decisão da Moody''s de descer o rating da República, ou, dito de outra forma, a capacidade do Estado português de pagar a dívida que contraiu, voltou à baila uma confusão que nos tem prejudicado bastante. Aquela que fazemos entre país e Estado. Das páginas dos jornais às televisões, do Facebook às conversas de rua, todos falam de Portugal ser "lixo". No entanto, não há nada mais errado que esta afirmação, e, se percebermos o erro, compreenderemos porque ficamos tão indignados quando uma agência internacional nos diz que o Estado, que nos cobra cada vez mais impostos e nos presta cada vez piores serviços, foi classificado como lixo.

A crise que vivemos em Portugal deve-se essencialmente à acumulação sucessiva de défices. Devido a uma gestão que nas últimas décadas podemos classificar de péssima e nos últimos cinco anos de danosa, o Estado gastou mais do que recebeu, sustentou clientelas, grupos de pressão, lóbis, fez obras que satisfaziam certos sectores e algumas empresas, patrocinou iniciativas e meteu-se em projectos que iam muito além das funções, já de si alargadas, do Estado social. Pôs-se em xeque e fez--se mate. Faliu. E agora, o país que não é o Estado, mas Portugal, está a pagar a conta. Os seus habitantes, que não são o Estado, mas portugueses, estão a sofrer as consequências. Com quem é que nos devemos indignar? Com quem fez a asneira ou com quem nos diz a verdade?

Portugal não faliu. São muitos os portugueses que sempre tiveram cuidado e controlaram a despesa para que não fosse maior que a receita. Atreveram--se até a poupar. Precaveram-se e também estão a pagar a factura. Há empresas que têm liquidez, apesar de sofrerem as dificuldades inerentes a uma crise estatal desta dimensão. Estas pessoas, estas empresas, também são Portugal. O nosso país não se reduz ao Estado. Essa ideia é uma invenção socialista que procura tirar proveito do amor que temos pelo nosso país. Pretende roubá-lo e usá-lo para outros fins que não são ajudar Portugal, mas o Estado. Portugal é o passado que foi vivido e nos foi transmitido de geração em geração. É a nossa língua, as nossas comunidades, as nossas ideias, a nossa culinária, poemas, glórias e misérias, a nossa forma de ser e de estar, a desmedida capacidade de adaptação que temos. Somo nós e os nossos filhos, mais os filhos dos filhos deles que hão--de vir. Isto é Portugal: um incontável número de pessoas que vivem e labutam todos os dias por uma vida melhor. Não são os gabinetes no Terreiro do Paço, nem o sonho de homens que preferiram seguir a política a ser empresários e, dessa forma, governam o dinheiro dos outros.

É esta distinção que nos deve fazer ter cuidado com a forma como reagimos a quem dá má nota ao Estado. Se pensarmos bem, que nota damos nós? Positiva? Creio que não. Portugal é muito mais que o Estado, e o amor à nossa terra deve tornar-nos receptivos ao que nos dizem do exterior. O patriotismo é, aliás, o outro ponto relativamente ao qual também devemos ter algum cuidado. Este não se reduz a uma mera reacção negativa ao que vem de fora, partindo do pressuposto que "os estrangeiros" nos querem enganar. Essa fórmula já foi utilizada e sabemos bem que frutos deu. O amor ao nosso país deve ser o de quem ama o local onde nasceu e cresceu, onde vive a sua família e os que lhe são próximos. O local onde se fala a nossa língua, que nos faz sentir parte de um grupo e, apesar de não nos conhecermos, nos torna capazes de viver em democracia, ter lei comuns que garantem o Estado de direito, a propriedade privada, a liberdade de expressão e o funcionamento das lei de mercado.

É esta realidade que devemos prezar, até porque são poucos no mundo que dela beneficiam. Distinguir Portugal do Estado, para sermos patriotas, mas nunca irracionais na defesa de algo que nos impingem. Para que as dificuldades de hoje não se repitam e nunca mais nos usem em nome de um bem maior. Se o conseguirmos, podemos agradecer à Moody''s.

Advogado

Escreve quinzenalmente ao sábado


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