A direita do regime converge com a esquerda radical

por Bruno Faria Lopes, Publicado em 15 de Julho de 2011   
Agência de rating, reestruturação da dívida e Europa: o que antes era a coutada da esquerda radical está a entrar na opinião dominante do regime
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O episódio do corte do rating português pela Moody''s ofereceu uma oportunidade para confirmarmos uma tendência curiosa na intelligentsia económica portuguesa: a aproximação dos economistas e políticos à direita, defensores ferozes do "mercado", a algumas posições defendidas desde o início da crise pelos economistas e políticos da esquerda dita radical. Esta tendência significa que, independentemente de concordarmos ou não com as soluções propostas à esquerda do PS, devemos prestar mais atenção aos diagnósticos e soluções dessa esquerda - fora do "sistema", têm sido eles os mais capazes em antecipar os acontecimentos.

Há mais do que um exemplo desta aproximação. Aconteceu com as agências de rating, criticadas desde o início da crise pela esquerda, e defendidas pelos economistas da direita estabelecida. O problema, dizia-se há um ano, não estava nas agências, mas na nossa capacidade de resolver os problemas. Agora, com o corte para lixo, foram as personalidades da direita que reagiram com mais força - motivada por uma indisfarçável surpresa -, usando palavras como "terrorismo", "escândalo" ou "imoralidade". [O Presidente da República poderia ser um caso ilustrativo desta tendência, não se desse o facto de no economista habitar um político hábil - Cavaco Silva optou por saltar para o comboio da indignação colectiva do país, deixando as suas credenciais de economista à porta.]

Mas há mais. O tema da reestruturação da dívida - um eufemismo para "perdão de dívida" - é mesmo o melhor exemplo da migração dos liberais para terras mais à esquerda. Reestruturar era assunto tabu para muitos ainda há menos de um trimestre, um "erro trágico" com consequências colossais. Agora é uma possibilidade admitida em público por cada vez mais economistas ou comentadores no espaço da direita, como Medina Carreira ou João César das Neves. E a reestruturação remete para outro campo de aproximação: a "Europa". O problema que há um ano era aparentemente só nosso parece ser agora também um problema da Europa, como vem clamando essa esquerda desde o arranque da crise.

Esta aproximação à esquerda - que resulta da realidade dramática do ajustamento grego e do reconhecimento de que será difícil Portugal levantar a cabeça com este encargo de juros e dívida às costas - mostra duas coisas. Em primeiro lugar, como escreveu há uma semana o politólogo João Cardoso Rosas, mostra que quem está fora do sistema tem mais facilidade (e apetência) para diagnosticar os problemas desse sistema e pensar fora da caixa - no caso em apreço, pensar fora da caixa do liberalismo da economia de mercado à europeia. Em Portugal alguns exemplos de pessoas que pensam bem e fora da caixa são os economistas João Ferreira do Amaral, José Reis, Jorge Bateria (agora colunista do i) ou João Rodrigues (muitos escrevem no blogue Ladrões de Bicicletas). Em segundo lugar, esta reacção ilustra também a inconsistência intelectual de uma certa direita (não toda), que perante as dificuldades do sistema - inerentes a aquilo que defendem - não tardam em clamar contra as agências de rating ou culpar a senhora Merkel. Ficamos ainda com a sensação de que alguns defensores do mercado só o são até que as armas do mercado se voltem contra os seus interesses.

Não está aqui em causa avaliar das soluções de uns e de outros - ou de dizer que as posições da esquerda são em absoluto as melhores. Não são (ou porque ignoram o problema de incentivos que existe na economia portuguesa ou porque fingem que é possível corrigir contas sem mexer na despesa social). O que esta aproximação mostra é que numa altura em que a Europa cede e abre a porta a uma reestruturação grega, vale a pena continuar a seguir a economia à esquerda. Como escreve Cardoso Rosas - e se vê pelas afirmações de Ferreira do Amaral, por exemplo - a esquerda está agora a abordar a viabilidade do euro e a sobrevivência de Portugal na moeda única. Estaremos nós a discutir isso dentro de algum tempo?

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