Crise da dívida soberana
É o pânico. Itália faz tremer Europa e Bolsa de Lisboa perde 2,5 mil milhões
por Carlos Ferreira Madeira, Publicado em 12 de Julho de 2011
Onda de pânico varre os mercados. Contágio da crise da dívida chega a Roma e a Madrid
Não se via nada assim desde a falência do banco Lehman Brothers, em 2008. Uma onda de pânico varreu ontem os mercados e só a bolsa de Lisboa perdeu 2,5 mil milhões de euros.
A estratégia de contenção da crise na periferia da zona euro parece estar a falhar e o silêncio dos líderes políticos ontem reunidos em Bruxelas só piorou o cenário. Os investidores temem que Espanha e Itália sejam arrastados para o furacão financeiro que engoliu a Grécia, a Irlanda e Portugal.
O motor do pânico é a Itália que, pela sua dimensão - a terceira maior economia da zona euro com a segunda maior dívida pública do clube -, não poderá ser resgatada pelos 440 mil milhões de euros do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. Os juros da dívida italiana a dez anos bateram ontem nos 5,71%, um valor inédito desde 2001.
Em Madrid bateram-se novos recordes, com as obrigações do Tesouro a ultrapassar os 6% nas maturidades a dez anos - o que já não sucedia desde 1997. Por arrasto, os juros da dívida portuguesa, grega e irlandesa também dispararam para novos máximos: Lisboa já paga 13,38% a dez anos.
A generalidade das bolsas europeias fechou ontem no vermelho. Em Lisboa, O PSI 20 caiu 4,28%, com os quatro bancos cotados a perder cerca de 400 milhões de euros do seu valor: BCP caiu 7,12%, o BES afundou 6,19%, o BPI teve perdas de 4,51% e Banif recuou 4,83%. Na última semana, a banca já perdeu quase mil milhões em bolsa. O cenário de Lisboa, o pior desde Abril de 2010, repetiu-se em toda a Europa, com os analistas a falar de um "eurocrash". "Itália e Espanha parecem mais vulneráveis. O medo é que isto continue enquanto os mercados começam a focar-se nas maiores economias da zona euro", avisa Niels From, do Nordea Bank AB em Copenhaga.
As bolsas espanhola e francesa perderam 2% e a alemã ficou próxima desse valor. A banca da periferia europeia foi fortemente penalizada, sobretudo a italiana. O regulador em Roma foi obrigado a intervir para travar o short-selling (agentes do mercado pedem acções emprestadas e vendem-nas para depois as recomprar a um preço inferior) forçando os investidores a revelar as suas posições. O Unicredit perdeu 6,3%, o Itesa Sanpaolo 7,7% e o Mediobanca caiu 4,6%. No centro da Europa, o belga Dexia perdeu 8%, o germânico Commerzbank recuou 8,6% e o holandês ING caiu 7,3%.
Uma reunião de emergência convocada pelo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, juntou ontem em Bruxelas os ministros das finanças da zona euro, o presidente da Comissão, Durão Barroso, o líder do BCE, Jean-Claude Trichet, o comissário Olli Rehn e o líder do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker. A reunião acabou sem tivesse "saído fumo branco" e os investidores mantiveram-se nervosos até ao fecho das sessões da bolsa. O líder do governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, pediu ontem uma "resposta europeia" clara que esclareça a participação dos privados no segundo resgate financeiro de Atenas, advertindo que "o processo de desconfiança estende-se a cada vez mais países".
Da Grécia surgiram ontem outras más notícias: o défice orçamental aumentou para 12,8 mil milhões de euros (28%), fruto da recessão económica que retira receitas de impostos ao Estado.
Mas é Roma que concentra todas as atenções: a dívida pública italiana está em 120% do PIB e o governo de Berlusconi anunciou um plano de redução do défice (47 mil milhões de euros) até 2014. Sucede que as divisões políticas no governo deixaram os investidores assustados. O primeiro-ministro Berlusconi chegou a sugerir a demissão do ministro das Finanças, Giulio Tremonti. Entretanto, um tribunal condenou a Fininvest, empresa de Berlusconi, a pagar 560 milhões d euros à rival CIR, de Carlo de Benedetti.
As más notícias têm um efeito devastador nos mercados e Itália está, com Espanha, na linha da frente do incêndio europeu: ainda ninguém conseguiu apagar o fogo.
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