Copa América

Kodak e Viggo Mortensen. A dupla perfeita do San Lorenzo

por Rui Miguel Tovar, em Buenos Aires, Argentina, Publicado em 07 de Julho de 2011   
Queríamos Romagnoli mas esbarrámos no porteiro do clube. Que nos explica como é o actor a vibrar com os golos dos Cuervos. Lindo!
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O pior campeão de todos os tempos é do Panamá, com o Plaza Amador a somar mais derrotas (15) que vitórias (13) em 38 jogos na época 2001/02. Na Suécia, o AIK Estocolmo sagrou-se campeão em 1998 com a equipa menos goleadora da liga (25 golos em 26 jornadas). Em Marrocos, o MAS Fés foi campeão em 1985 com apenas oito pontos de diferença sobre o último. Isto é incrível? Não, não e não. O incrível é o que se passa no bairro de Boedo, em Buenos Aires, onde joga o San Lorenzo, que hoje começa a pré-época para o Torneio de Apertura 2011. Acabaram-se as férias e reina a boa disposição entre os jogadores, nos testes médicos. Romagnoli, o Pipi do Sporting, é um dos presentes. Veste a camisola 10 mas não é a figura. Nem ele nem nenhum outro do plantel. A estrela da companhia nasceu em Nova Iorque mas tem sangue argentino. É actor de Hollywood mas quer acabar a carreira a filmar na Argentina. É um dos actores de cinema mais emblemáticos mas sonha em fazer-se um homem do campo. Onde? Na Argentina, por supuesto!

Mas quem é ele? Isso agora... O Aragorn de "O Senhor dos Anéis" (2001, 2002 e 2003), o Nikolai de "Promessas Perigosas" (2007), o Tom Stall e o Joey Cusack de "Uma História de Violência" (2005), o The Man de "A Estrada" (2009). Ou simplesmente, Viggo Mortensen. Só o nome já cria um certo impacto. Vê-lo em Buenos Aires dá outro ar. Dos bons, claro. Há posters dele espalhados pela sede do San Lorenzo. Posters desses filmes e de outros, como o primeiro de todos, "A Testemunha" (1985), em que Viggo entra meio incógnito em duas cenas ao lado de Harrison Ford e Kelly McGillis. E até há um poster XXL em que Mortensen está com uma gravata azul e vermelha (cores do San Lorenzo), com meias azuis e vermelhas (los colores di San Lorenzo) e com o pin do San Lorenzo na lapela do casaco. "Sabes onde é que essa fotografia foi tirada?" pergunta-me o que julgo ser o porteiro da sede. Ni idea. "No teatro k****". Não percebo nada. Onde? Ele tenta mais uma vez mas continuo sem o entender. Pede uma caneta ao ajudante e escreve Kodak. Depois abre os braços e diz Hollywood. Faço duas caretas. Primeiro de espanto "Ahhhh", a seguir incrédulo "nooooo". Aquele que ainda julgo ser o porteiro agarra-nos no braço e mete-nos dentro da sua casa. Ok, talvez seja mesmo o porteiro. Entretanto, os jogadores estão a sair pela porta principal e não me importava nada de falar com Romagnoli (ele talvez se importasse, mas eu...). Mas o senhor, sim, o porteiro, dos seus 50 anos, não desiste, continua de braço dado comigo como se quisesse mostrar a Arca de Noé. Abre a tampa do telemóvel e mostra-me imagens e até vídeos de Viggo Mortensen naquele sítio, no estádio (Nuevo Gasómetro), aos saltos como outro "hincha", a beber mate, a festejar um golo, com os dentes cerrados numa qualquer jogada de perigo, com o cachecol do San Lorenzo, com a bandeira do San Lorenzo e vestido à San Lorenzo na tal festa dos Óscares em 2009. "Foi depois dos prémios, naquela festa que organizam para todos, vencedores, vencidos e convidados", argumenta.

aquela espécie de barcelona Pronto, já entendi: este senhor é o porteiro da sede do San Lorenzo. Ah sim, é verdade, e o Viggo Mortensen é do San Lorenzo. E o que é o San Lorenzo? É a terceira potência do futebol argentino, em massa popular e em títulos, atrás de Boca Juniors e River Plate. Nos anos 40, a equipa conhecida como os Cuervos recebeu um convite de clubes portugueses e espanhóis para fazer um tour na Península Ibérica em Dezembro, perto do Natal. Os argentinos saíram daqui como campeões argentinos e chegaram laureados como campeões do mundo. Bem, nem tanto... Os sucessivos recitais de bola a Sporting, Benfica, Barcelona e Real Madrid garantiram-lhes o título de melhor equipa do mundo. Quem os viu, dizia que monopolizavam a bola como ninguém, que a trocavam entre si da defesa até ao ataque e depois marcavam (deve ser um costume das equipas que jogam de vermelho e azul).

O porteiro não os viu, Viggo Mortensen também não. Mas os dois são do San Lorenzo. E o porteiro - vamos chamá-lo Kodak porque perguntei-lhe o nome e não entendi a resposta embora tenha aberto a boca e abanado afirmativamente a cabeça como se se tivesse feito luz - conta-me a história toda de Viggo. "Ele viveu ''acá'' dos três aos 12 anos. O pai dele cuidava de algumas fazendas lá para os lados de Chaco. Depois mudou-se para Nova Iorque, mas continua a vir cá muitas vezes ao ano. Quando pode, julgo eu. Um dia, disse-me que queria viver no campo, na Argentina, depois dos filmes, depois da aventura nos ''Etados Unidos'' [os argentinos dizem assim, economizam letras]. Ele gosta do campo. ''Mira'', até comprou três cavalos do "Senhor dos Anéis". Ele gosta mesmo do campo. Em 2005, deu-me um autógrafo." Tira a carteira do bolso direito e toma lá um papel plastificado com uma dedicatória imperceptível e a assinatura do actor, essa, sim, decifrável. "Ele fala baixo, sabias? Baixo, mas baixo. Eu tenho de me encostar a ele para o ouvir. E não te olha nos olhos, isso não. Mas responde-te a tudo, de forma directa, sem rodeios. E em espanhol." G''anda filme. O Kodak está felicíssimo. Vê-se no brilho dos seus olhos.

isto não era para contar "Nunca mais me esqueço daquele 13 de Novembro de 2005. Veio promover uma ''peli'' ["Uma História de Violência", de David Cronenberg]. Era para aterrar em Buenos Aires na segunda-feira mas pediu que o seu voo fosse antecipado para domingo, 13. Era dia de jogo aqui no Gasómetro, com o Tiro Federal, último classificado. Ele chegou de manhãzinha, deve ter descansado no hotel e à tarde veio ver o jogo com ''la gente''. Ganhámos 5-3, com dois golos do Lavezzi, ''ese loco que juega en la selección''. Sabes o que ele disse no final?" Estou em crer que não quero adivinhar o formato da resposta: vídeo, SMS, sinais de fumo? Kodak aponta-me para a parede e lá está, de facto, Viggo a comentar a partida. "Nós jogámos como uma equipa. Sofremos e desfrutámos juntos. Prefiro ver uma equipa que trabalha como uma equipa do que ver uma equipa em que se destaca um jogador." É de homem. Kodak não pára. "Os jogadores entregaram-lhe uma camisola autografada e ele acabou o dia a jantar na Recoleta. E sabes que mais? Ele queria ver o jogo dessa quinta-feira, com o River. ''El clásico''. Mas não podia, já não estava cá. Seguia-se o México, outra vez para promover o filme. Para os adeptos do San Lorenzo, o que interessa é o que ele disse ao seu agente de imprensa: ''E se eu interromper a conferência de imprensa para ver o jogo?'' Claro que foi meio a brincar mas isso significou tanto para ''nosotros''. Isso e os donativos que ele nos dá de vez em quando. Mas não digas a ninguém, é segredo. Ele não quer que se saiba, quer manter-se incógnito." Ok.


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