Com o desenrolar de um ou dois eventos históricos, o cosmonauta soviético Alexei Leonov podia ter passado as décadas de 60 e 70 a tentar suprimir o astronauta norte-americano David Scott e vice-versa. Leonov no seu MiG e Scott no seu Super Saber podiam ter combatido um contra o outro nos céus, numa luta entre as duas nações mais fortes do planeta para obter os domínios político, militar e sociológico.
Leonov e Scott eram pilotos com experiência e conhecimentos elevados, munidos com as mais avançadas armas de combate aéreo. Cada um deles acreditava que o seu país natal possuía a melhor qualidade de vida e a melhor estrutura social possível. Cada um era um militar de carreira, motivado, temerário e com orgulho em ser o primeiro, o melhor ou, pelo menos, o mais multifacetado. Felizmente para eles - e para o resto da humanidade -, a sucessão de acontecimentos nunca deu origem a um embate que seria (seguramente) mortífero para um dos lados.
Em vez disso, os russos e os americanos levantaram voo para pontos separados, bastante mais elevados. Com um coração de artista, Leonov tornou-se num verdadeiro cosmonauta; o primeiro ser humano a flutuar no espaço – o único homem, na altura, capaz de ver o seu amado planeta e a Mãe Rússia através da fina viseira do seu fato pressurizado. Scott, o engenheiro/sonhador, comandou a primeira missão lunar onde a exploração obrigou a algo mais do que alunar, caminhar e recolher rochas. Ele conduziu um veículo na superfície da Lua, dia após dia, à procura de um tesouro geológico que fosse tão valioso para a ciência como a arca da aliança seria para os teólogos.
Estes dois homens enganaram a morte centenas de vezes durante toda a vida. Desde a sua infância, durante o período mais frio da história soviética, passando pelo início da sua carreira como piloto, até ao treino rigoroso e extremo para se tornar num cosmonauta, Leonov poderia ter desaparecido pelos motivos mais diversos. Um perfil aerodinâmico mal construído, uma válvula avariada, um cálculo incorrecto na pressão do seu fato espacial ou até um momento de hesitação podiam ter ditado o seu fim. David Scott, com milhares de horas em aviões com ou sem a segurança testada, por pouco não escapava da morte quando a Gemini 8 ficou instável após o lançamento. Uma alunagem precisa podia ter se tornado na receita para o desastre – na verdade, assim o é -, mas Scott sobreviveu de forma colorida. Ambos podiam ter desaparecido em enormes bolas de fogo, resultado da explosão dos foguetes na plataforma de lançamento, quer no Cosmódromo de Baikonur, na URSS, ou no Cabo Kennedy, EUA, sem que nenhum tivesse tido ainda a oportunidade de ganhar o título de cosmo- ou astronauta.
Mas, uma vez mais, nenhum destes cenários se concretizou e ambos fizeram o que os pilotos têm vindo a fazer desde que Montgolfier subiu aos céus num balão. Enganaram a morte. Aceitaram entrar voluntariamente num jogo, concentrados na missão e em dar por concluído o trabalho. Às vezes, conseguiam o primeiro lugar. Muitas das vezes, eram os melhores. Foram sempre brilhantes.
Uma das crenças mais comuns sobre os indivíduos que partem para o espaço, particularmente aqueles homens que participaram na grande corrida espacial entre EUA e URSS, era que não passavam de autómatos – um jockey com um corte à escovinha, cérebros como uma régua de cálculo e um vocabulário de superlativos ininteligíveis e afirmativos “A-OK”. Como todas as generalizações, isto estava longe de ser verdade. É verdade que para voar aviões, deve partilhar-se certos interesses com outros pilotos, mas ganhar o direito e a responsabilidade de caminhar no espaço e sobre a superfície da Lua requer uma determinação individual espectacular. Não basta apenas querer fazê-lo por motivos inexplicáveis – as coisas devem ser feitas com uma perícia inexplicável.
Leonov e Scott tiveram de ir mais além para explicar o inexplicável em “Os Dois Lados da Lua”. E ainda bem que o fizeram. Os segredos do programa especial soviético são finalmente descritos por Leonov, e adivinhem… O homem do espaço comunista que deveríamos todos temer levou lápis de cor para o espaço – apenas para captar melhor as cores de um nascer do sol orbital. E quanto aos americanos que saltavam na lua com tamanha facilidade? Duas horas para vestir os respectivos factos e por pouco não conseguiram pôr os pés em solo lunar.
No espaço, nada é rotineiro e nada do que se passou nas missões de Alexei Leonov e David Scott pode ser considerado rotineiro. Cada segundo de cada uma das cinco missões foi único, belo, recompensador e perigosamente volátil. E, no entanto, sempre que regressavam, nenhum dos dois afirmou ter voltado como um homem mudado que fora para o espaço e vira…o espírito do universo.
Não. Foi ainda melhor. Voltaram das suas missões espaciais, viram o seu próprio espírito enquanto seres humanos que eram antes de deixar o nosso mundo de ar, terra e água para ver a Terra ou um “nascer da Terra” nos “céus” da Lua. Nunca deixaram de ser assim: Leonov, o artista; Scott, o engenheiro/sonhador; os dois: os Ilusionistas da Morte.
Tom Hanks, 2004




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