Plano Nacional de Saúde

"Médicos e farmácias abusam na receita de antidepressivos"

Publicado em 15 de Julho de 2009   
Vendas voltam a aumentar em 2008 e são já quatro vezes mais que a média europeia
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Os números já eram maus, mas em 2008 o consumo de calmantes e antidepressivos voltou a subir, afastando-se mais da meta definida no Plano Nacional de Saúde. Em vez das 92 doses diárias por mil habitantes, Portugal já regista 151, quatro vezes mais que a média na Europa. Num quadro geral de melhoria dos indicadores de saúde - em que até o consumo de antibióticos desceu -, a toma excessiva destes medicamentos é hoje "um problema grave de saúde pública", admite a alta comissária da Saúde, Maria do Céu Machado. "Estamos a falar de medicamentos vendidos nas farmácias. Ou os farmacêuticos os dispensam ou os médicos os receitam. O facto é que estão a subir. E é preciso saber porquê. Acho que esta questão merecia um estudo", refere, acrescentando também "que as pessoas pressionam cada vez mais" os profissionais de saúde para os obter.

Para Maria do Céu Machado, nem sempre os remédios são a solução. "Tem de se ter a noção do que é depressão, ansiedade, como os diagnósticos são feitos, ter protocolos terapêuticos e saber quando é adequado fazer medicação. Muita da depressão e ansiedade deve ser controlada com terapêutica ocupacional."

Para a responsável, a solução passa por guias terapêuticos para que os médicos receitem melhor. "Temos de olhar para isto de uma forma completamente diferente. Com a crise, o médico de família vai ver muita gente que se vai queixar de ansiedade, de depressão. Tem de estar preparado, saber quando receitar anti-depressivos ou não. Temos de apostar na formação dos clínicos gerais em saúde mental", afirma a responsável pela aplicação do Plano Nacional de Saúde. Até porque apenas uma minoria chega aos psiquiatras.

Os números de 2008, a que o i teve acesso, mostram que nos últimos seis anos o recurso a ansiolíticos, hipnóticos, sedativos e antidepressivos aumentou 32%. Quando o Plano Nacional de Saúde foi criado, em 2004, o objectivo era reduzir 20% até 2010. Muito longe dos números actuais. A crise económica e o desemprego não ajudam.

A aposta deve ser ainda na informação da população - "explicar ao cidadão as contra-indicações de fazer de forma continuada e prolongada antidepressivos, dizer-lhe que até podem provocar uma necrose fulminante do fígado, se houver associação com outros fármacos. E os nossos idosos tomam em média de sete medicamentos por dia."

O problema é admitido pelos médicos. "O abuso está generalizado: das pessoas que pressionam os médicos e os farmacêuticos para obter estes medicamentos, aos médicos que também têm uma cultura de prescrição excessiva", admite o psiquiatra Pedro Varandas. Ao contrário do resto da Europa, onde "há regras apertadas e um culto anticalmantes", Portugal "exagera". Para o especialista, o problema não é tanto o abuso de antidepressivos, mas mais dos calmantes. "Há uma cultura da prescrição. O doente vai ao consultório, diz que se sente triste e ansioso e leva uma receita para casa." E defende que a psiquiatria é uma das especialidades em que há mais divergência entre o que devia ser e o que é receitado na realidade.

"Se os médicos de clínica geral tiverem mais tempo para estar com os doentes, a prescrição diminui. Podem orientar, aconselhar sobre higiene dos ritmos de vida, alimentação, o que permite dormir melhor, com menos stresse. Se só têm tempo para ouvir duas ou três queixas, sai uma receita", afirma o psiquiatra. O especialista diz que, para muitos doentes o recurso a psicoterapia seria muito mais vantajoso. Contudo, estes tratamentos são "inexistente no sistema público" e as pessoas que recorrem a eles são apenas "as que têm capacidade económica e vontade". "Um culto da prescrição, fácil acesso, inexistência de alternativas e uma sociedade cada vez mais stressada e que lida pior com isso" é a mistura explosiva por detrás destes valores.

Amanhã leia a entrevista na íntegra


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