O cantor e actor Angélico Vieira morreu esta noite na sequência das "graves lesões provocadas pelo acidente de viação de que foi vítima", anunciou fonte hospitalar.
Segundo a fonte do Hospital de Santo António, no Porto, onde Angélico se encontrava internado, "o óbito foi declarado após a confirmação do estado de morte cerebral".
O estado de saúde do cantor e actor, de 28 anos, havia piorado nas últimas horas, na sequência do grave acidente de viação que sofreu no sábado.
Angélico encontrava-se ligado, há três dias, a um suporte básico de vida, depois de ter sido submetido a uma intervenção cirúrgica de cinco horas. O cantor deu entrada no Hospital de Santo António, no Porto, na madrugada de sábado (25 de Junho), com um traumatismo crânio-encefálico muito grave, na sequência de um aparatoso acidente de viação na auto-estrada A1, junto à saída para Estarreja.
O cantor, que se dirigia para Lisboa para se juntar aos antigos colegas dos D'Zrt e apresentar o seu segundo álbum, conduzia um BMW, que levava mais três ocupantes, quando se despistou.
Do acidente resultou um morto e mais um ferido grave, uma jovem de 17 anos que se encontra com prognóstico muito reservado. Segundo a GNR, tanto o ex-membro dos D’ZRT como outros dois ocupantes não usavam o cinto de segurança no momento do despiste, à excepção do jovem que viajava no lugar do pendura e que sofreu apenas ferimentos ligeiros.
No domingo, o ventilador chegou a ser desligado e o cantor conseguiu, por momentos, respirar sozinho. Porém, ao início da tarde desta terça-feira o seu estado de saúde agravou-se e foi declarada morte cerebral.
Angélico, nome artístico de Sandro Milton Vieira Angélico, tornou-se conhecido ao participar na série “Morangos com Açúcar”, onde interpretava a personagem “David”. Foi nesse programa juvenil, transmitido pela TVI, que, com mais três actores (Edmundo Vieira, Paulo Vintém e Vítor Fonseca, também conhecido como Cifrão), integrou a banda D’ZRT. O grupo teve uma carreira curta mas com bastante sucesso, sobretudo junto do público adolescente.
Em 2008, os elementos da banda decidiram pôr um fim ao colectivo e prosseguir com projectos a solo. Angélico lançou, ainda esse ano, o seu álbum de estreia em nome próprio, de título homónimo. Às carreiras de cantor e actor somou também a de modelo, tendo sido embaixador da marca Calvin Klein em 2009.
Angélico encaixa no perfil da vítima de acidente de viação
São os jovens condutores, quase sempre do sexo masculino e em acidentes ao sábado, que mais morrem nas estradas portuguesas. Manuel João Ramos, presidente da Associação dos Cidadão Automobilizados que lançou uma campanha de outdoors com imagens da morte a acenar aos condutores noctívagos, acredita que este caso, pelo mediatismo que está a ter, deve fazer o país abrir os olhos para o seu principal grupo de risco nas estradas.
Até ao início do ano passado, as vítimas de acidentes de viação passadas 24 horas da ocorrência não eram contabilizadas pela Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária. Apesar de já estarem disponíveis os dados até Novembro de 2010, os mesmos não foram incluídos no relatório final referente ao ano passado, que contabilizou 741 mortos na estrada. Significariam mais 22% de mortes, para um total de 910 mortos onde não entram ainda eventuais vítimas do último mês do ano. Para Manuel João Ramos esta é uma das imagens da "propaganda" do último governo em matéria de sinistralidade rodoviária. "Desde 2001 que a Direcção-Geral da Saúde tinha acesso às vítimas a 30 dias, mas nunca as revelou. Em 2007 aceitou mesmo receber um prémio europeu para a redução da sinistralidade que não corresponde à realidade", acusa. Outro problema que nunca foi resolvido, alerta Manuel João Ramos, foi o papel dos jovens como principais protagonistas mas também vítimas dos acidentes de viação.
Traumatismo cranioencefálico
Angélico Vieira sofreu um traumatismo cranioencefálico (TCE). Em Portugal, e na Europa em geral, é difícil ter acesso a dados sobre esta lesão, que em 50% dos casos resulta de acidentes de viação, mas pode também ocorrer em quedas ou agressões. O único estudo nacional que existe sobre TCE foi publicado em 2003 na "Acta Médica Portuguesa".
Analisava dados nacionais tratados a partir de informações do Instituto Nacional de Estatística e da Direcção-Geral da Saúde, que ainda hoje não são de acesso imediato, e concluía que em 1994, 1996 e 1997 este tipo de traumatismo fez cerca de 1700 vítimas mortais/ano. A faixa etária dos 20 aos 29 é a que regista mais casos, mais de 300 mortos/ano. Além de as vítimas serem na maioria jovens, os autores notavam que a percentagem de homens é muito maior: apenas 36% dos internamentos e 22% dos casos mortais diziam respeito a vítimas do sexo feminino. Em conclusão alertavam que de acordo com a literatura internacional um terço das pessoas hospitalizadas com TCE fica com algum tipo de incapacidade e 20% com incapacidades graves. Estimavam assim que estes traumatismos provocassem 4450 casos novos casos de incapacidade por ano, destes 750 situações de deficiência grave.
A imprensa avançou nos últimos dias que Angélico perdeu massa cerebral e teria partido a cervical em mais de um ponto, o que o deixaria paraplégico. Maria Emília Santos, autora do trabalho, lembrou ontem ao i que desde os anos 80 esta é considerada uma epidemia silenciosa. "Antes estes traumatismos eram muito associados às guerras. Hoje a guerra é nas estradas", diz a especialista portuguesa, que trabalhou durante anos no Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão.
"A pergunta neste momento é o que vai fazer o novo governo em relação a isto. Os consumos de álcool estão a aumentar entre os mais jovens e mesmo em questões de segurança como o uso do cinto atrás nunca houve uma campanha séria de esclarecimento", diz Manuel João Ramos.




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