Eleições no PS. Homem de confiança de Sócrates ao lado de Seguro
por Rita Tavares, Publicado em 24 de Junho de 2011
O maior especialista de spin do gabinete de Sócrates vai apoiar António José Seguro, o velho inimigo do ex-chefe
Luís Bernardo vai apoiar António José Seguro. Mas quem é Luís Bernardo? É o homem que foi praticamente uma sombra de José Sócrates nos últimos seis anos. Foi, mais que um assessor de imprensa do primeiro- -ministro, o especialista no spin que se fazia a partir do gabinete de São Bento. Luís, que entrou para a história do You Tube na noite em que Sócrates anunciou o pedido de ajuda externa ("Ó Luís, fico melhor assim ou assim?", perguntou o primeiro-ministro ao assessor), vai estar do lado do eterno inimigo do ex-primeiro-ministro dentro do PS, que agora se candidata sob o signo de "um novo ciclo". Ao contrário da esmagadora maioria dos fiéis de Sócrates, Luís Bernardo defende que Seguro seja o próximo secretário-geral do PS.
O apoio foi confirmado ao i pelo próprio Luís Bernardo, que sublinha estar com Seguro enquanto militante de base do PS - Bernardo faz parte da secção de Queluz. Fica por saber até onde vai o seu envolvimento na candidatura de António José Seguro, seu amigo de longa data. Luís Bernardo chegou mesmo a fazer parte de uma direcção da JS liderada por António José Seguro, no início dos anos 90.
Os créditos de Luís Bernardo na mobilização socialista são hoje reconhecidos dentro do PS. Mais que mero assessor de imprensa do primeiro-ministro, Luís Bernardo tornou-se um especialista na máquina do partido. Esteve com Sócrates logo na campanha das legislativas de 2005, quando percorria o país incluído no círculo mais próximo do então candidato a primeiro-ministro, sempre com um dossiê debaixo do braço: um guião para os discursos de Sócrates e também documentação e recortes de imprensa úteis para apanhar os adversários políticos em contradições.
A intervenção política de Luís Bernardo tem sido sobretudo feita a partir dos bastidores. Entre 1999 e 2002 esteve no gabinete de António Guterres no governo e, dois anos antes, tinha sido o assessor de imprensa do ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho - ironicamente, mais uma das figuras socialistas que Sócrates menos aprecia. Aliás, Luís Bernardo haveria de voltar a trabalhar com Carrilho, em 2005, quando foi chamado para acudir a uma campanha autárquica em Lisboa que a meio do jogo já estava condenada ao fracasso. Bernardo não evitou esse destino.
O "Luís" conta com cerca de oito anos de experiência no gabinete de São Bento. Nos anos em que o PS não esteve no poder, trabalhou no grupo empresarial SAG (Soluções Automóvel Globais), de João Pereira Coutinho. Antes de fazer da política o seu meio natural, foi jornalista da TVI, ao lado de Pedro Silva Pereira, o ex-ministro da Presidência que foi jornalista antes de se passar para um gabinete do governo Guterres.
Socráticos resistem a Seguro Nestes seis anos, Seguro e Sócrates nunca chegaram a entrar em confronto directo, apesar de o afastamento entre os dois ser claro.
Logo depois das eleições de 2005, o antigo líder da Juventude Socialista (JS) preferiu fazer um caminho longo e solitário na oposição discreta a Sócrates a alinhar com o seu líder parlamentar. Agora, sem José Sócrates no caminho, António José Seguro avançou e os mais próximos do ex-primeiro-ministro logo se afastaram. Foi este círculo que insistiu com uma candidatura de António Costa - a única que julgavam poder derrotar Seguro nas directas do PS -, mas o recuo do autarca de Lisboa acabou por levá-los para junto de Francisco Assis. Foi o caso de André Figueiredo, membro da direcção do partido que chegou a ser chefe de gabinete de Sócrates enquanto secretário-geral do PS, mas também de Renato Sampaio e Marcos Perestrello, os homens que estão à frente das maiores distritais socialistas do país: Porto e Lisboa. António Costa fez o mesmo e apoia Assis.
Entre os mais próximos de Sócrates, Luís Bernardo é o único, para já, a passar para o lado de lá da barricada. Dada a sua experiência, não é de estranhar que um destes dias ouçamos António José Seguro perguntar: "Ó Luís, fico melhor assim ou assim?"
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