Bloco. Em Setembro, a direcção decide se convoca a Convenção
por Sónia Cerdeira com Agência Lusa, Publicado em 23 de Junho de 2011
Militantes querem primeiro debate intenso e evitam sacrificar Louçã. Mudança de bancada de Rui Tavares com versões contraditórias
Desde a derrota inequívoca nas eleições legislativas que o Bloco de Esquerda iniciou um processo de debate interno, com várias reuniões abertas a simpatizantes dentro das estruturas de organização do partido. Começam a juntar-se vozes a apelar a uma renovação, mas com reservas em pedir a cabeça de Louçã. O debate primeiro, pedem os militantes. Agora com mais clareza, depois de Miguel Portas ter defendido mudanças na liderança do Bloco, em entrevista ao i.
"A necessidade de renovação é consensual", afirma ao i José Gusmão, um dos ex-deputados do Bloco que não voltou a ser eleito nestas legislativas. O partido sente a necessidade de se renovar, mas não quer que seja associada aos resultados de 5 de Junho. "Não queremos a renovação do dia para a noite como se fosse por causa dos resultados mas que aconteça pela renovação de gerações", afirma Gusmão.
Em entrevista ao i, Miguel Portas defendeu que "a renovação do Bloco tem de passar pela saída dos quatro fundadores". E ontem, em Bruxelas, reafirmou-o, juntamente com a eurodeputada eleita pelo Bloco, Marisa Matias. Fernando Rosas, um dos fundadores do partido, recusou comentar ao i estas declarações e Luís Fazenda, outro fundador, afirmou não ter "comentários a fazer". Francisco Louçã também se tem mantido em silêncio sobre este assunto.
Apesar de deputados e militantes pedirem renovação, a saída do coordenador do BE não é consensual. "Se Francisco Louçã se tivesse demitido na noite eleitoral teria prestado um mau serviço ao BE. Não temos a cultura de decapitar líderes após resultados negativos, Louçã foi o mesmo que teve resultados brilhantes e não pode ser o bode expiatório", diz Gusmão. Opinião partilhada pela deputada Ana Drago: "Preocupo-me que os partidos confrontados com uma derrota achem que, demitindo o líder, o processo de debate sobre os erros está feito. Culpar uma pessoa é desresponsabilizar e conto com Louçã para o debate interno". Também a deputada Helena Pinto afirma que a renovação deve ser "natural": "Respeito a opinião de Miguel Portas, mas ter a renovação com questões muito concretas e concluídas pode não ajudar ao processo".
O BE decidiu iniciar um conjunto de debates internos que também incluem simpatizantes e pessoas fora do partido. Além da renovação, o partido pretende discutir as "dificuldades que sentiu, a recomposição da esquerda e o novo mapa político com uma maioria de direita", explica Ana Drago. As conclusões destes debates serão apresentadas na Mesa Nacional do partido em Setembro. "Em função das conclusões haverá consequências", assume a deputada.
Contradições O eurodeputado eleito pelas listas do BE, Rui Tavares, cortou relações com o partido e pediu para mudar de bancada no Parlamento Europeu por considerar quebrada a "confiança pessoal e política" em Louçã, depois de desentendimentos nos últimos dias. O eurodeputado passou a integrar a bancada dos Verdes, no Parlamento Europeu. Mas ontem, sucederam-se declarações contraditórias. Primeiro o líder parlamentar desta família política, Daniel Cohn-Bendit, disse que Rui Tavares tinha pedido a mudança "há meses", o que foi prontamente desmentido pelo eurodeputado. À tarde, Cohn-Bendit emendava a mão para dizer que havia "conversas", mas não negociações. No entanto, a decisão de sair de Rui Tavares foi comunicada na semana passada. "Há meses que discutimos política. Em certo momento ele disse que já bastava, que depois das eleições houve dificuldades dentro do seu grupo e, na semana passada, falou com o nosso grupo, falou comigo antes, dizendo que havia problemas. Disse-lhe que a decisão era dele, e foi na semana passada que ele disse que houve um aumento da tensão que o levou a decidir", afirmou Cohn-Bendit.
A mudança do eurodeputado para o Grupo dos Verdes surge na sequência da polémica entre Francisco Louçã e Rui Tavares a propósito de um texto publicado pelo coordenador do BE, na passada sexta-feira, no qual sugeria que o eurodeputado tinha passado informações falsas aos jornalistas sobre os fundadores do partido.
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