Todos contra Nobre. Nem no PSD conseguiu o pleno
por Liliana Valente e Sónia Cerdeira, Publicado em 21 de Junho de 2011
Matos Correia, Guilherme Silva e Mota Amaral são possíveis candidatos à presidência da Assembleia
Após duas tentativas frustradas Fernando Nobre sai derrotado. E com ele Pedro Passos Coelho, que viu alguns deputados do PSD associarem-se à oposição no "não" ao independente. Pela primeira vez na história da democracia um nome candidato à presidência da Assembleia da República não reuniu a maioria necessária nem à segunda volta.
"Entendo não reunir condição para me submeter a uma terceira votação", afirmou Nobre à saída do plenário da Assembleia da República, retirando a sua candidatura. Foi o primeiro incidente parlamentar da era Pedro Passos Coelho.
O primeiro-ministro nomeado anuncia hoje a alternativa ao nome falhado. Em cima da mesa estão os nomes de José Matos Correia, ex-secretário-geral adjunto do PSD, que negociou com o CDS o acordo político, e por isso homem de confiança de Passos Coelho, Guilherme Silva, que foi proposto ontem para vice-presidente da Assembleia da República e Mota Amaral, que reuniu nas últimas semanas opiniões favoráveis como alternativa, apurou o i, ontem, no parlamento. Não passou ao lado um gesto velado do histórico deputado eleito pelos Açores, que, na última fila do parlamento, se levantou em último lugar na ovação que os sociais-democratas fizeram a Fernando Nobre depois da derrota.
Na nova votação, que vai acontecer hoje às 16h00, nem PS nem CDS se vão opor ao nome apresentado pelos sociais-democratas - como fizeram com Fernando Nobre. "Os socialistas votaram contra o nome apresentado. É da praxe que seja o partido mais votado a apresentar o candidato. Qualquer que seja não merecerá oposição", disse ao i fonte da bancada do PS. "Claro que não haverá oposição", assegura ao i fonte centrista.
Para já, tanto Guilherme Silva como Mota Amaral estão disponíveis para suceder a Jaime Gama na presidência da Assembleia da República, apesar de saberem que são uma segunda escolha do partido para o cargo. Junto dos deputados sociais-democratas, os candidatos das ilhas recolhem alguma simpatia. Mas o apoio também vem de fora do parlamento. O presidente da Região Autónoma da Madeira, Alberto João Jardim, que, apesar de eleito deputado, se fez substituir, veio dizer de imediato que a eleição de Guilherme Silva seria um "prémio" que a Madeira "merecia".
Ascensão e queda O primeiro compromisso de Passos Coelho falhou. O líder do PSD tinha prometido levar o nome de Nobre a votos e levou, mas perdeu a batalha. Na primeira votação, o médico independente teve 106 votos a favor (são 108 os deputados do PSD) e na segunda volta obteve menos um, ficando apenas nos 105 votos. Com dois deputados socialistas a faltarem à primeira sessão plenária - Mário Ruivo, eleito por Coimbra, e Sandra Galguinho, eleita pela Guarda -, pelo menos dois deputados social-democratas (e três na segunda volta) votaram contra o nome proposto pelo próprio partido. "Não tive condições de insistir para [Nobre] ir a uma terceira volta", disse Passos à saída do plenário. "Tenho pena que o parlamento não tenha aproveitado esta oportunidade de ter um independente na presidência da Assembleia da República", acrescentou.
Depois de numa primeira fase ter dito que não ficaria como deputado caso não fosse eleito presidente da Assembleia da República, Fernando Nobre garantiu ontem que continuará "a exercer funções de deputado enquanto entender" que poderá "ser útil ao país". E que parte para o exercício das novas funções "com a noção do dever cumprido".
Premonição? À chegada ao parlamento, logo às 10h00, o líder parlamentar cessante do PSD, Miguel Macedo, dizia: "Hoje é um dia histórico. É a primeira vez que não me vou dirigir ao presidente. Porque não há." Às 19h00 o caso Nobre estava encerrado, mas a Assembleia da República continuava sem presidente.
À saída do plenário, o deputado independente Francisco José Viegas afirmava que a escolha de Nobre foi "arriscada": "As escolhas são sempre arriscadas e [Passos Coelho] sabia que esta escolha tinha os seus riscos. Mas há situações em que vale a pena arriscar." Para o independente que assumirá a Secretaria de Estado da Cultura, na dependência directa do primeiro-ministro, "está provado que Passos Coelho insiste e cumpre a sua palavra".
Hoje Passos Coelho tem mais um dia de emoções. Logo pela manhã reúne-se a comissão permanente do PSD para decidir o nome do novo candidato à presidência da Assembleia da República, ao meio-dia é empossado primeiro-ministro por Cavaco Silva e às 16h00 encontra-se com o novo executivo pela primeira vez, num Conselho de Ministros extraordinário (ver páginas 22-23).
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