Perguntam muitas vezes o que motivou esta crise - e logo a seguir como se sai dela. A forma mais simples e transparente de explicar é pedir que se imagine que num mundo primitivo todos descobrem que podem usar conchas como moeda de troca - numa grande revolução tecnológica. Alguém decide então empilhar essas conchas em circulação à porta de uma cabana, chama-lhe banco central e distribui papéis que valem conchas. Pouco depois surgem mais cabanas emprestando papel em troca de conchas. O valor do dinheiro em circulação torna-se então muito superior às conchas que estão na pilha, sustentado nessas novas instituições. Todos confiam. E vão criando produtos que multiplicam esse valor por muitos zeros - sem que ninguém se dê ao trabalho de contar as conchas na pilha. A riqueza cresce, o conforto aumenta, os negócios florescem.
Um dia alguém decide trocar papéis por conchas - e depois dele outros surgem para exigir o mesmo. São tantos que as conchas na pilha não chegam para pagar todo aquele "dinheiro". Ele circulava mas, na verdade, não existia. E uma grave crise financeira instala- -se no mundo. E o que acontece depois? Essa é a pergunta do milhão de dólares.
Quem ler a entrevista publicada hoje no i descobre a economista do momento, Carlota Pérez. Esta venezuelana foi referida nestes editoriais há dois meses, falando-se no livro que a celebrizou, e tem a resposta: ciclos económicos começam com evoluções tecnológicas e emergência de novas infra-estruturas. Isso, as conchas, os bancos, etc. Com essas instituições a funcionar sobre a evolução tecnológica, iniciam-se poderosas acumulações de riqueza e políticas de laissez faire sem limite - o sistema só trava quando bate contra a parede, explica Pérez. E aí, ou surgem novas instituições capazes de cavalgar essas novas ondas de inovação (a tecnologia que gerou aquelas impossíveis alavancagens financeiras e que todos os dias dinamiza mais globalização) ou o mundo vai de crash em crash.
Depois da crise de 1929, por exemplo, a economia trocou a indústria pesada (aço, grandes obras) pela indústria do consumo de massas - mas isso só conduziu a um novo ciclo de crescimento económico quando surgiram instituições novas e emergiu um modelo de Estado diferente, regulador e atento. A reforma do sistema bancário americano, a criação do modelo de segurança social nórdico ou a criação do sistema nacional de saúde no Reino Unido são essa evolução institucional. Pérez já tem uma ideia de que novas instituições podem liderar o próximo ciclo de crescimento: um regulador global e um choque fiscal que penalize quem ganha dinheiro no curto prazo. Boas ideias?
Por cá, conhecem-se as novas instituições capazes de acomodar novo ciclo de crescimento: uma que conceda apoios dirigidos às empresas que põem os bens e serviços a circular na economia (choque fiscal para as PME) e, claro, políticas públicas que resgatem Portugal à sua periferia (investimentos em boas infra-estruturas). Chegou a hora.




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