O governo possível de Passos Coelho

por Liliana Valente com Filipa Martins, Publicado em 18 de Junho de 2011   
Passos aposta em gestores e juristas com mais experiência técnica do que política
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Passos Coelho demorou 48 horas, desde que foi nomeado primeiro-ministro, a constituir o novo governo, que é mais técnico do que político. Nas pastas principais, como Finanças, Saúde e Economia, o primeiro--ministro apostou em nomes ligados à gestão e administração. O onze da coligação PSD/CDS-PP foi conseguido depois de negas de nomes relevantes como Vítor Bento ou Eduardo Catroga.

O novo executivo ficou fechado logo de manhã, com o chefe de governo a fazer os últimos contactos. À hora de almoço Passos informou por telefone o Presidente da República para, à tarde, lhe entregar a carta formal com os nomes. Mas antes de ir a Belém, ainda parou em São Bento para uma conversa relâmpago com José Sócrates, sobre a transição.

A composição do governo foi complicada, começou com alguns "nãos" de personagens relevantes. Para primeira escolha para as Finanças, Passos tinha pensado no economista e conselheiro de Estado Vítor Bento. Também Eduardo Catroga não aceitou o cargo da Economia, depois de não ter ficado nas Finanças, como chegou a ser avançado logo a seguir às negociações com a troika, onde representou o PSD. Questionado sobre o assunto, o economista recusou comentar. No rol das negas, Sevinate Pinto, conselheiro da Presidência, recusou a Portas a pasta da Agricultura.

O governo instantâneo ou que foi constituído "em tempo recorde", como disse ontem Passos Coelho em Belém, vai tomar posse na terça-feira, depois de a Assembleia da República ficar constituída no dia anterior. Passos vai estar no Conselho Europeu do dia 23 e 24, já como primeiro-ministro em funções, tal como era objectivo do Presidente da República.

Ainda sem se conhecerem todos os secretários de Estado e a orgânica final do executivo, certo é o plano que o governo de coligação PSD/CDS tem pela frente: pôr em prática o acordo entre o Estado português e a troika. Passos encontra-se com o chefe da equipa Juergen Kroeger "pouco depois" de tomar posse". E terá sido a pensar no cumprimento do plano da troika que Passos escolheu economistas e gestores, para as pastas essenciais. Na Saúde, Paulo Macedo (ver texto da página 22), antigo director-geral dos impostos e administrador do BCP, vai assumir o superministério que terá ainda a cargo parte que antes estava na tutela da Segurança Social. No grupo dos economistas e dos gestores do governo, fazem ainda parte dois nomes menos conhecidos para pastas fulcrais. Vítor Gaspar vai assumir o Ministério de Estado e das Finanças (ver texto da página 18). O gestor da equipa de conselheiros de Durão Barroso vai ficar à frente do ministério mais importante nos próximos anos e vai ter de fazer a ponte com as instâncias europeias, entre elas a Comissão Europeia - foi de lá que veio. Para a Economia, a aposta recaiu em mais um técnico que vivia também fora de Portugal. Álvaro Santos Pereira, economista, ficará a cargo da Economia e do Emprego (ver texto da página 19). O superministério vai ainda ter Obras Públicas, Transportes e Comunicações.

Na parte mais política do governo, Paulo Portas conseguiu o lugar que há muito queria: os Negócios Estrangeiros. O líder do CDS, que passou pela Defesa no anterior governo de coligação, vai ficar com uma das pastas mais relevantes do executivo. Não ficou como vice-primeiro-ministro, como chegou a estar pensado, mas sim como ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros. Nas negociações, Paulo Portas conseguiu ainda os seus objectivos na orgânica do governo: três ministros com pastas relevantes. O Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, o Ministério dos Negócios Estrangeiros e o Ministério da Segurança Social. Foram três das bandeiras do CDS na campanha e serão os três baluartes no governo.

Governo instantâneo Miguel Relvas e Miguel Macedo serão os dois peões políticos de Passos no executivo. O secretário geral do partido e o antigo líder parlamentar foram "obrigados" a ir para o executivo depois de várias negas. Miguel Macedo foi apenas chamado a tutelar a Administração Interna depois de fechado o acordo político entre PSD e CDS. Já Miguel Relvas era dado como certo no PSD, para assegurar o funcionamento do partido, e acabou por ir para os Assuntos Parlamentares.

Para engrossar o núcleo duro de Passos Coelho no governo vai ainda para o executivo a vice-presidente do PSD, Paula Teixeira da Cruz. A jurista assume o ministério da Justiça (ver páginas 20-21). A primeira intenção do novo chefe do governo era juntar Justiça e Administração Interna superministro. Depois das negociações com o CDS a ideia caiu por terra, tal como caiu o nome de Fernando Negrão que acabou por não reunir a confiança política necessária. A Administração Interna vai, assim, ficar a cargo de mais um peso político de Passos Coelho, José Pedro Aguiar-Branco.


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