A maioria dos ginásios tem uma banda sonora característica - música rock com batida - e um barulho de fundo de conversas e gemidos. Na SuperSlow Zone é tudo muito diferente. "É quase como fazer exercício numa biblioteca", diz Ken Hutchins, fundador do franchising Super-Slow Zone, em Nova Iorque.
Não há música. Não há ninguém a falar ao telemóvel. Apenas o suave murmúrio das instruções que guiam os clientes na utilização das máquinas de pesos Nautilus. Essa concentração calma é essencial para o SuperSlow, uma forma de treino de força de grande intensidade que passa por levantar e baixar pesos a passo de caracol - mais exactamente 10 segundos na subida e outros 10 na descida. Bem, é capaz de haver alguns gemidos guturais. Isso acontece porque o treino é intenso.
Em vez de estipularem um número de repetições como nos exercícios de musculação tradicionais, os clientes fazem as possíveis, em séries que duram de 90 segundos a três minutos, até que o músculo esteja cansado. Por outras palavras, até deixarem de poder levantar os pesos. Muitas vezes, isso acontece depois de apenas quatro a oito repetições. "É surpreendente a rapidez com que os músculos se cansam", diz Jonathan Herring, de 33 anos, a treinar-se ao estilo Super-Slow desde Janeiro. "Os braços começam a tremer. É completamente impossível continuar porque se sente uma sensação de queimadura. Uma queimadura agradável."
Vinte minutos por semana Um treino a todo o corpo dura apenas 20 minutos e uma ou duas sessões por semana é quanto basta. O baixo investimento em tempo é o principal atractivo para a maioria dos clientes. "Posso reservar 30 minutos do meu intervalo de almoço para me deslocar até aqui, fazer o treino e ir para casa ou voltar para o trabalho", disse Marisol Lin, de 53 anos. "Não tenho de suar e não tenho de mudar de roupa." O SuperSlow foi criado num programa contra a osteoporose da Universidade da Florida, financiado pela Nautilus, explica Hutchins.
Trabalhar os músculos até que eles falhem é a melhor maneira de os fortalecer, declara Charles Christian, proprietário e director clínico do Inside Outside Wellness Center and Medical Spa, onde tem vindo a treinar clientes com exercícios de grande intensidade e baixa velocidade, desde 2004. "A única coisa a que os músculos reagem é à intensidade. É preciso usar um peso ambicioso", afirma. "Deve haver, de preferência, muito pouco descanso entre máquinas. Isso aumenta mais a intensidade."
Treino mais seguro Reduzir o ritmo traduz-se em falta de balanço para a fase de elevação. Um ritmo lento e controlado também faz com que o treino seja seguro, diz Christian. "Frequentei outros programas de pesos, mas não obtive os mesmos resultados. Levam muito mais tempo e fica-se mais sujeito a danos corporais", como disse Ralph C. Bender, de 84 anos, fundador da Fundação San Antonio Sports, e que treina com Christian há três ou quatro anos.
"Tenho esta idade e consegui conservar a minha força, o que sempre foi muito importante para mim." Embora tenha muitos adeptos, este tipo de treino - a que o website SuperSlow chama "o treino perfeito" - tem alimentado bastante controvérsia. "Não provou ser mais eficaz do que qualquer outro tipo de treino", defende o fisiatra Joseph M. Warpeha. "O treino de pesos tradicional com pesos tem por trás de si décadas de sólidas investigações." Terri Boggess, professora associada de Exercício e Ciência do Desporto da Universidade de St. Mary's, refere que o treino SuperSlow é mais útil para desenvolver a resistência muscular do que a força. "Se alguém quiser aumentar a força e a resistência, é provável que se dê melhor com um programa de treino mais tradicional."
E as provas? Outro aspecto controverso: os defensores dizem que a musculação de grande intensidade é melhor para o coração do que os exercícios cardiovasculares, ou aeróbicos, como a caminhada ou o ciclismo. "Não existem dados que permitam fazer uma comparação directa entre as duas abordagens", diz V. Seenu Reddy, membro da admnistração da Associação Americana do Coração e cirurgião cardiotorácico do Centro de Saúde e Ciência da Universidade do Texas, em San Antonio.
A Associação Americana do Coração recomenda que os adultos saudáveis entre os 18 e os 65 anos tenham uma actividade física aeróbica moderada a intensa pelo menos durante 30 minutos, cinco dias por semana, ou uma actividade vigorosa durante pelo menos 20 minutos três dias por semana, além dos exercícios de musculação. Segundo Doug McGuff, co-autor de "Body by Science: A Research-Based Program for Strength Training, Body Building, and Complete Fitness in 12 Minutes a Week", há uma grande quantidade de dados científicos que revelam que o treino de grande intensidade é a chave para a saúde geral, desde a do coração até à perda de peso.
A luta continua "Tenho esta luta há décadas, mas já acumulámos testes suficientes", afirma. Warpeha não concorda. "É um esforço excessivo para o corpo? É. Vai produzir resultados? Claro que sim. Mas nem por sombras acredito que seja a única maneira de treinar toda a gente, para sempre", declara. "Esta técnica existe há mais de 30 anos. Se fosse tão bom como dizem, teria havido pelo menos um atleta ou um treinador a tropeçar nele, e não teria conseguido guardar esse segredo. A única coisa a que os músculos reagem é à intensidade."
Sim ou não?
A favor
• Apenas 30 minutos semanais
• Resultados visíveis em seis semanas
• Menor risco de sofrer lesões
• Não há suor
Contra
• Não provou ser mais eficaz do que qualquer outro tipo de treino
• Quem quer aumentar força _e resistência é provável _que se dê melhor com _um programa de treino tradicional
• Não possui resultados comprovados por estudos
Em Portugal, treinos são rápidos e suados
Nos EUA treina-se a passo de caracol, mas em Portugal não há tempo para grandes ginásticas. Muito menos em câmara lenta. Quem trabalha quer manter a linha, mas tem pouco tempo para ir correr no jardim próximo de casa, para uma aula de ioga ou para dar umas braçadas na piscina à hora de almoço. A pensar na vida stressante das portuguesas, principalmente nas que têm preguiça de se exercitar, os ginásios começaram a reduzir os programas de treino. E são cada vez mais frequentes os exercícios intensivos que duram só 30 minutos. Mas nunca lentos. Todos de forma rápida e com esforço. E meia hora por dia é o suficiente para manter a forma.
“As mulheres nunca têm tempo para vir ao ginásio, por isso é muito útil que existam planos mais curtos”, explica Stefanni Bernardo, de 40 anos, dona do ginásio para mulheres Viva Fit, na Avenida dos Estados Unidos da América, Lisboa. A cadeia de franchising Viva Fit, com 97 pequenos ginásios espalhados pelo país, aposta em treinos curtos e rápidos. “Temos um circuito de dez máquinas hidráulicas, adaptadas à força de cada pessoa.” O tempo máximo de exercício em cada uma é de 30 segundos e trabalham todas as partes do corpo. Tudo isto ao som de uma música estonteante. Porquê só para mulheres? “Para que se sintam mais à vontade. Muitas não querem treinar à frente de homens e por isso só temos as máquinas e instrutoras”, diz Steffani.
Mulheres Esta não é a única cadeia de ginásios rápidos. A internacional Curves também existe em Portugal desde 2002. Pedro Moreira, sócio-gerente do ginásio Curves em Paço de Arcos, defende um treino semelhante e exclusivo para mulheres: “Um circuito que trabalha a resistência muscular. Quanto mais rápido , melhor”, garante. Trinta minutos parece ser o suficiente para ficar com um corpo de fazer inveja. Isto se treinarmos mais de três vezes por semana. “Um treino frequente é o ideal para perder peso e tonificar. Temos alunas que tinham 100 kg e ao fim de um ano ficaram magras”, conta Steffani. Resta saber como perdem peso os homens com pouco tempo. Clara Silva




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