Clima. Teoria do jogo chumba negociações mundiais
por Marta F. Reis, Publicado em 14 de Junho de 2011
Investigadores portugueses testaram o modelo da ONU e dizem que não favorece a cooperação
E se o pára-arranca das negociações do clima for também um problema de forma? Dois investigadores portugueses aplicaram a teoria dos jogos às discussões climáticas e dizem que as grandes cimeiras mundiais, onde assentam as esperanças mundiais para mitigar a fragilidade do planeta, não funcionam. Em vez de grandes negociações, como a que decorre neste momento em Bona com representantes de 180 países, Jorge Pacheco, da Universidade do Minho, e Francisco Santos, da Universidade Nova de Lisboa, sugerem que os acordos deviam passar a ser sectoriais, com base em redes de países (quanto mais pequenas melhor) que partilhem preocupações e potenciais comuns, além de uma percepção elevada do risco que correm. Portugal, por exemplo, podia associar-se ao Reino Unido e reforçar a aposta na energia das ondas, ou ligar-se aos países do Sul e Norte de África para potenciar a aposta na energia solar.
São ideias das ciências que cada vez mais tendem a entrar na discussão sobre as políticas internacionais, explica ao i Jorge Pacheco. A ideia do trabalho, que no início do mês foi publicado na revista "Proceedings of National Academy of Sciences", era perceber o que acontece quando se pede a uma grande população - como é o caso dos 194 países que já ratificaram a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - que coopere. Para responder, usaram um ramo da teoria dos jogos, que permite discutir processos onde há decisões estratégicas e onde pesa também a evolução das opiniões das diferentes partes ao longo do tempo. "Há uma mudança de opiniões que resulta do facto de uns indivíduos olharem para os outros e replicarem os que têm mais sucesso."
O que fizeram foi criar 200 indivíduos, caricaturas muito simples dos países que debatem o clima, e confrontá-los nas suas decisões e interacções, algo que só com alguma especulação consegue traduzir- -se em pistas concretas para o debate mundial. Ainda assim, a ideia de que a matemática pode espelhar o desfecho das negociações não é inédita. Sobre o clima, o cientista político Bruce Bueno de Mesquita (também praticante da teoria do jogo) vaticinou o falhanço da muito aguardada cimeira de Copenhaga, em 2009. "Os tratados universais são geralmente acordos para as pessoas se sentirem bem. Veja--se Quioto: dos 175 países que assinaram, 137 estão em cumprimento só por dizerem o que fizeram no ano passado, mesmo que não tenham feito nada."
No modelo português, a lição não é muito diferente. Depois de testarem diferentes níveis de percepção de risco, ainda que comuns aos 200 indivíduos, perceberam que num grupo tão grande este sentimento não tem qualquer peso. "Sem ter em conta todos os condicionalismos, isto é, só vendo a tendência natural para a cooperação, o que domina é o interesse individual. Acontece aquilo a que chamamos tragédia dos comuns: tenho cinco lavradores que devem repartir a água de um lago mas, no interesse de todos, só deviam usar uma parte. É evidente que se eu usar mais, vou vender mais. Se todos fizerem o mesmo, vão vender mais durante um ou dois anos e depois acabou-se, a área ficou desertificada."
Fazendo a ponte para as negociações do clima, com a ajuda da vida selvagem, Jorge Pacheco sublinha que a percepção elevada do risco é fundamental para que haja cooperação, mas isso só funciona em grupos pequenos. "Se houver muita comida, as leoas de uma comunidade não vão caçar. Mas quando falta todas cooperam voluntariosamente."
No modelo não entram factores que entre países (não nos leões) podem levar à cooperação, sejam mecanismos de acompanhamento ou pressões. Mas o que parece ficar claro é que as negociações regionais seriam um modelo "naturalmente mais favorável ao sucesso". Como seria então se o matemático fizesse parte do comité climático? "Advogaria a ineficácia destas cimeiras mundiais e trataria de estabelecer uma rede de contactos entre regiões que identificassem problemas comuns."
Sobre o futuro de Quioto, que em Bona vai ficando cada vez mais incerto, o investigador é peremptório: "Um protocolo que envolva toda a gente, em que todos os países se sentam a uma mesa e tentam tomar uma decisão, parece-me não ter grandes probabilidades de sucesso. Quioto demorou quase 10 anos a começar a ser posto em prática e não foi ratificado por todos os países. A cimeira de Copenhaga também não produziu os resultados que se esperava quando era apontada como sucessora por excelência. E a verdade é que em 2010 a humanidade bateu o recorde de emissões de CO2, já pós Quioto e pôs Copenhaga. Portanto o problema não está a diminuir."
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