Pedro Passos Coelho
A vitória deve saber-lhe melhor por ter sido, para muitos, quase inacreditável até ao último momento. É o novo primeiro-ministro, sem o conforto da maioria absoluta mas suficientemente forte perante um CDS quase na mesma.
Pedro Passos Coelho conseguiu chegar onde sonhava (provavelmente desde o ano remoto de 1995, quando Cavaco Silva abandonou o poder). O facto de, tirando um núcleo fidelíssimo, ninguém dar nada por ele só lhe deve, neste momento, aumentar o prazer – de certa maneira, foi o que aconteceu com José Sócrates durante os longos anos em que se manteve à sombra do aparelhismo partidário.
A parte má é que o regresso da direita ao poder acontece num dos piores momentos da história nacional, com uma carga de trabalhos que pode reconduzir rapidamente o PSD à impopularidade. O risco de disparo dos conflitos sociais, à semelhança do que aconteceu na Grécia, e com o PS ao lado dos manifestantes, não é um quadro alegre para um primeiro-ministro em início de carreira. Pode ser que Passos Coelho acabe por ter “sorte” na roleta europeia e Angela Merkel venha a suavizar a sua relação (e a do Banco Central Europeu) com os países acossados do euro.
Passos Coelho estava certo quando decidiu chumbar o PEC IV por razões de sobrevivência política – a verdade é que mais uma aliança com o PS tê-lo-ia destruído totalmente dentro do partido. Ou era agora ou nunca. Curiosamente, coube a Passos Coelho cumprir o sonho de Sá Carneiro – uma maioria, um governo e um Presidente. Mas esse sonho é cumprido numa altura em que o primeiro-ministro é o último social-democrata que o Presidente gostaria de ver à frente do governo (exceptuando Pedro Santana Lopes). Será muito curioso assistir de bancada às relações Belém-São Bento, a partir de agora.
Quanto ao programa de governo, Pedro Passos Coelho não terá muito espaço de manobra para além do que foi acordado com a troika. Seria mais agradável ter uma maioria absoluta, mas contar com um Paulo Portas abaixo dos 14% serve perfeitamente. Amanhã, é o dia de Passos passar de besta a bestial.
José Sócrates
Um óptimo discurso de despedida e uma decisão avisada de sair do espaço público nos próximos tempos. Ai dos vencidos: no PS e no novo poder que ontem emergiu, ninguém lhe perdoará tão cedo. Chegou a hora de desaparecer
José Sócrates deu muito ao PS: uma maioria absoluta, uma segunda vitória consistente em 2009 e, agora, a possibilidade de ficar como bode expiatório de um ciclo desastroso. Isso vai permitir aos socialistas recuperarem o mais depressa possível no gosto do eleitorado, expiando as culpas na sua desagradável – agora, de facto, para a maioria do eleitorado – personalidade. A saída de cena do primeiro-ministro vai permitir agora ao PS entrar no “espírito da troika”, associando-se à nova maioria quando for preciso, o que seria impossível na presença de Sócrates. O tempo chegou, finalmente, para os candidatos à sucessão – que mais ou menos discretamente já se encontravam em rota de colisão implícita com as opções do secretário-geral. Os próximos tempos serão férteis em esqueletos retirados do armário, por muito que ainda há dois meses todos se tenham unido em torno de Sócrates por uma votação “kim-il-sunguiana”.
O mais espantoso de tudo é o mito da “fortaleza Sócrates” ter conseguido, por razões ainda por identificar cabalmente, que o PS se tivesse mantido à tona nos estudos de opinião, correndo o risco de vitória eleitoral em algumas sondagens. O “normal”, segundo as teorias básicas de movimentos eleitorais, seria Sócrates estar destroçado há muito tempo com os cortes nas políticas sociais e o desemprego galopante – mas isso não aconteceu. Mesmo já depois da entrada do FMI, uma derrota pessoal a todos os níveis, as sondagens identificavam a queda do Bloco de Esquerda, mas o centro manteve-se fiel a Sócrates durante muito tempo.
Para todos os efeitos, a saída de cena era a única opção. No caso em apreço, como disse Almeida Santos, “não há derrotas honrosas”. No país, ninguém lhe perdoará tão cedo, no PS também não. Começou agora uma caminhada na solidão, na qual Sócrates fingiu poder obter prazer. Mas passar de todo-poderoso a solitário cidadão normal é todo um programa de reabilitação.
Paulo Portas
Foi o penúltimo a falar ontem à noite, porque será o parceiro do governo do PSD. Fez uma declaração e não respondeu a perguntas, depois de uma noite em que esperou ter algo mais.
Aumentou em votos e em deputados, mas não tanto como chegou a pensar – desta vez, as sondagens deram mais ao CDS do que os eleitores, quando costuma ser ao contrário. Mas tornou-se essencial para a maioria absoluta com o PSD e isso para Paulo Portas é o essencial. Seis anos depois o CDS volta ao governo com o seu melhor resultado dos últimos 28 anos, em que aumentou a sua votação apesar de ter havido menos votantes (o CDS teve ontem mais cerca de 60 mil votos em relação aos 592 997 que tinha recebido há dois anos).
Fez a declaração em penúltimo lugar, mas nem respondeu a perguntas – ainda é preciso discutir muita coisa sobre o novo governo e Passos Coelho só falava a seguir. Com a gravitas do homem de Estado, com o sentido de um momento de grande responsabilidade, procura uma imagem de político que tem a consciência das dificuldades que o esperam no novo ciclo – não deixou, aliás, de referir que o país tinha rejeitado José Sócrates. Como não deixou de sublinhar que não houve maioria absoluta nem nunca se esteve em vias de um empate técnico entre os dois grandes partidos. E esperava ainda um triunfo que à hora em que foi ao púlpito não era certo - ter mais deputados que o PCP e o BE juntos, como tinha pedido na campanha.
Agora, entre o Governo e a Assembleia da República vai ter palco para mais gente e para consolidar mais o CDS. Mas o futuro é tão incerto, o governo tem uma tal tarefa pela frente, que a felicidade ficou quase em meio sorriso.
Jerónimo de sousa
“O PCP fez a sua parte” à esquerda, disse Jerónimo de Sousa. O PCP ganhou – pelo menos ganhou um deputado. Segue-se a luta nas ruas, “inevitável”
“A luta social vai dar-se mas não é por vontade ou decreto. Será inevitável”, dizia Jerónimo de Sousa ontem no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa, onde comentou os resultados eleitorais. Para a CDU foi uma vitória – ficou claramente à frente do Bloco de Esquerda, conseguiu mais um deputado (em Faro, onde não tinha representação há duas décadas), defendeu os que tinha a defender e agora está onde sempre gostou de estar: pronto para a luta social contra a direita e os interesses do grande capital. “É inevitável”, diz Jerónimo. “Quanto tentarem reduzir salários, alterar legislação laboral, congelar e desvalorizar pensões e reformas, quando tentarem liquidar serviços públicos”, lá estará a CDU, garantiu.
Numa noite de derrota da esquerda em geral, reduzida a pouco mais de 40% dos votos, o PCP perdeu meia dúzia de milhares de leitores ainda assim (para o PCTP-MRPP eventualmente, porque o partido de Garcia Pereira subiu 10 mil). Jerónimo conseguiu defender o castelo – “o PCP fez a sua parte”, sublinhou – e as hostes continuam unidas apesar de o PSD até ter metido um deputado por Beja, uma lança em África que não estaria no programa.
No PCP, assim, não deve haver grandes nem pequenas mudanças, mas uma continuidade que não surpreende ninguém. No início dos trabalhos parlamentares prometeu abrir a discussão sobre a imediata renegociação da dívida nacional, mas para já estará apenas acompanhado pelo Bloco. O futuro, quem sabe...
Francisco Louçã
Um dia negro para o Bloco de Esquerda, que não conseguiu capitalizar nada com a derrota do PS e com o combate ao programa da troika. O risco de extinção é imenso
Francisco Louçã assumiu a derrota fortíssima do seu partido, que perdeu metade dos deputados e quase metade dos votos. Como é que foi possível o Bloco de Esquerda não ter capitalizado um avo da derrota dos socialistas? Isto vai ser matéria obrigatória para reuniões intensas nos próximos tempos. Desde as presidenciais que as esperanças do Bloco de Esquerda na “esquerda grande” estavam a falhar.
O sucesso do Bloco de Esquerda residiu, durante muitos anos, no factor “novidade” – e ao fim de 13 anos todas as novidades deixam de o ser. Além desse factor em si ser da máxima relevância, o Bloco assentou boa parte da sua conquista de território eleitoral em causas como o aborto, a despenalização da droga e o casamento entre homossexuais. Com o andar da carruagem, esses assuntos saíram da agenda – foram legalizados, resolvidos, consumaram-se.
Sobrou a “esquerda” – mas a última experiência de associação à esquerda correu mal. O Bloco perdeu voz nas presidenciais, quase até à afonia. Capturado pelo discurso ambíguo de Manuel Alegre (ora com o governo PS, ora menos com o governo PS), o Bloco não encontrou o seu sítio.
Ou há uma revolução interna no Bloco de Esquerda – e não se está a ver bem como, neste momento, embora nestas páginas, o sociólogo Boaventura Sousa Santos dê algumas sugestões – ou o BE corre o risco de ficar acantonado na soma do PSR mais Política XXI mais UDP. Ou seja, condenado à extinção num prazo muito breve.




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