Aldina Duarte. O fado canta-se a contar
por Maria Ramos Silva, Publicado em 04 de Junho de 2011
E conta-se a cantar. Ao quarto álbum, “Contos de Fados”, desafiou poetas a escreverem a partir de obras clássicas da literatura para melodias tradicionais de fado
Passa a vida a escrevinhar ideias mas o compromisso maior é com a interpretação, pela qual reuniu os amigos para celebrar a maturidade com 12 faixas cheias de folhas. Nasceu "Contos de Fados", todo ele um livro musicado com os ingredientes primordiais da vida. Histórias de amor e desamor que casaram o talento para as letras e o ouvido curioso pela música de Maria do Rosário Pedreira, José Mário Branco, Manuela de Freitas, José Luís Gordo, Pedro Mexia e Aldina Duarte. O resultado está à vista, que se deixa desarmar no primeiro encontro com o rosto do álbum. É o seu nome, em tamanho generoso, que dá cara a uma identidade crescida. "Acho que há uma Aldina antes dos ''Contos de Fados'' e vai haver outra Aldina, adulta, que ainda não sei bem quem é. Fadista não hei-de deixar de ser, se Deus quiser. Para ser tão natural como este disco é, tinha de ser eu a fazê-lo. Podia ser uma grande pretensão, mas não é." Deixemo-la contar as outras histórias que as histórias guardam.
01. Fado com Dono
A partir do mito de "Orfeu e Eurídice" - letra de Maria do Rosário Pedreira
"Cheguei à Maria do Rosário porque vi duas letras maravilhosas no álbum "À Noite" do Carlos do Carmo. Fiquei maravilhada. Quis conhecê-la e acabei por fazer parte das quintas-feiras de leitura, onde numa noite a parte da poesia era da sua responsabilidade. Foi a Maria João Seixas que a entrevistou e que nos apresentou e aí ofereci-lhe o meu disco anterior e pedi-lhe duas letras. Já era admiradora da sua poesia mas fiquei surpreendida por fazer duas letras espantosas, e logo as duas primeiras letras da vida dela. Parecem antiquíssimas e de sempre, mas até hoje deve ter feito umas dez letras, se tanto. Só que é alguém que gosta muito de fado e é uma profunda conhecedora de literatura. Não havia ninguém mais apto para corresponder a este desafio."
02. De Costas Voltadas
A partir do conto "A Bela e o Monstro, de Jeanne-Marie Leprince de Beaumont - letra de Maria do Rosário Pedreira
"Conhecia a história mas não tinha o livro. Fui comprá-lo de propósito. Quando recebi as letras achei que eram todas grandes letras e não tenho modéstia nenhuma nisso. Consegui 12 letras ao mesmo nível como dificilmente se consegue. A tradução para inglês foi feita por uma senhora extraordinária, a Maria Antónia Amarante, da Gulbenkian, muito sensível à poesia e ao meu trabalho. Eu fiz o trabalho de que mais gosto, ir à procura das melodias que serviam estas histórias. Perco-me com muito prazer."
03. À Espera de Redenção
A partir da peça "Medeia", de Eurípides - letra de Manuela de Freitas
"A Manuela é quem escreve mais temas no disco. Na altura ainda era assessora da direcção da Cinemateca, e foi através dela que conheci o Pedro Mexia, que era vice-director. Escrevia as letras e dizia-me para ir lá à tarde ver se gostava. Lá ia cantarolar as letras no gabinete dela na Cinemateca. Via se rolava bem o som das palavras na música e vinha-me embora. Era engraçado porque era ao lado do gabinete do Pedro Mexia. Às vezes ele e as secretárias também me ouviam. Acabei por abordá-lo porque admiro muito a poesia dele. Não está habituado a escrever para estruturas musicais tão fixas e com rimas. Não escreveu, para grande pena minha, mas escolheu um poema que serviu de epígrafe ao livro do disco, que é maravilhoso."
04. Branca, Branca
A partir da peça "Um Eléctrico Chamado Desejo", de Tennessee Williams - letra de Manuela de Freitas
"Confesso que não gosto de ler teatro, só se for Shakespeare. Conhecia a história através do filme com o Marlon Brando e a Vivien Leigh, que achei maravilhoso. São tudo referências, desde a leitura, ao cinema, passando pelas peças de teatro. Tudo foi muito importante para a interpretação. Tive a sorte de ter a Manuela comigo em estúdio."
05. No Pó que Ficou
A partir de uma história real - letra de José Luís Gordo
"O José Luís Gordo, dono do Senhor Vinho e grande poeta de fado, escreveu a partir da história real de uma senhora que passados muitos anos conta a um sobrinho-neto adolescente a história de amor da sua vida, um homem casado. Todos sabiam na aldeia mas nunca ninguém tocou no assunto. Ela viveu o amor da vida dela como se não existisse. A ideia é maravilhosa e o ambiente passa-se no quarto onde eles se encontravam, que ficou abandonado desde que o homem morreu. É dos fados mais bonitos para mim, que canto com o Paulo Parreira, o Miguel Ramos e o Rogério Ferreira, três músicos com quem faço concertos e com quem trabalho de terça a sábado no Senhor Vinho. Achei que era justo ao fim destes anos todos eles fazerem parte de um registo meu."
06. Gato Escaldado
A partir da fábula "O Pastor e o Lobo", de Esopo - letra de Maria do Rosário Pedreira
"Tornou-se uma escolha nossa ser o single do disco, que é baseado numa fábula. E como em todas as fábulas, por trás desta ficção está um conceito moral, que a mentira não compensa. Que quem muito mente acaba por ser descoberto e por se prejudicar por isso. A Maria do Rosário teve uma ideia brilhante; fazer um caminho pelos bairros de Lisboa e atribuir a cada um deles aquilo que ela entende que é a sua essência. O Bairro Alto com o fado, a Mouraria com os bailes, Alfama e os passeios por aquelas ruas que nos convidam a descobrir a sua estreiteza e recantos, e a Madragoa para a paixão, o amor e o casamento. Do ponto de vista do fado é um tema um bocadinho inverso. Normalmente canta-se a traição e a dor da traição, mas cantar um mentiroso que vai acabar mal não é comum."
07. Que Amor é Este?
A partir do romance "O Eterno Marido", de Fiódor Dostoiévski - letra de Aldina Duarte
"Trata a ilusão. Rara é a pessoa que não passou pela situação de se ver numa relação terminada sem aviso. Mais tarde percebe-se que quando houve a ruptura amorosa, se calhar já estava acabado há muito tempo, mas quando se está lá dentro não se quer ver isso. O "Eterno Marido" é um bom exemplo. Quando a realidade é mais forte, quando morreu realmente a mulher dele, é obrigado a sair daquela negação. Se calhar a mulher de quem ele quis ser o eterno marido não o amava. Dostoiévski é o primeiro autor estrangeiro que conheço. Como a maior parte dos temas, tem inspiração estrangeira, faltava o meu escritor eleito. E o tema recorrente de todos os meus discos é o amor."
08. Fogo Sem Fumo
A partir do conto "A Serração do Mármore", de Herman Hesse - letra e música de José Mário Branco
"Este disco tem uma marca muito comovente do José Mário Branco. É o primeiro grande intérprete de referência ao longo de toda a minha vida, que me vai formando na educação musical, e acaba por ser o meu primeiro original, o "Fogo sem Fumo". Ele escreve e compõe a música. Temos uma relação de amizade muito antiga mas o trabalho nunca foi um ponto comum. Agora achei que tinha os mínimos necessários para ligar o talento dele ao meu. Tudo o que canto, nem que seja indirectamente, tem o José Mário por trás, faz parte de mim. Esta era a única obra que não conhecia. Por acaso é um livro que emprestei ao José Mário e à Manuela para levarem de férias. Já devolveram!"
09. Ainda Mais Triste
A partir da peça "Longa Jornada para a Noite", de Eugene O''Neill - letra de Manuela de Freitas
"Das três peças que a Manuela escreveu, a partir da "Longa Jornada para a Noite" e da "Medeia", eu vi-as interpretadas pela própria personagem, ou seja, a personagem que estou a cantar era a própria Manuela de Freitas que as representava nessas peças. Como memória emocional foi muito importante."
10. Uma outra Nuvem
A partir do conto "Bela Adormecida", dos irmãos Grimm - letra de José Mário Branco
"Enterneceu-me muito que tenha sido a primeira letra do José Mário Branco para um fado tradicional, que no fundo tem dois versos que resumem a ponte do desamor para o amor: em que eu, à força de aprender a amar/Aprenda tudo sobre toda a gente. É o amor do ponto de vista mais profundo. Já não interessa se é pelo nosso companheiro, amigo, irmão. É aquilo que tem de mais esplêndido, mais forte. A novidade enquanto intérprete neste disco é o desamor. Foi um desafio brutal. O deslumbre da felicidade, do amor, a convicção no sentido da vida enquanto caminho para o amor universal. É verdade que a felicidade é passageira mas também regressa. Há que estar atenta a ela. Há que saber esperá-la. Este disco é muito violento porque mostra tudo o que podemos ter de mau. Depois, em tudo o que nos podemos tornar se não tivermos cuidado, se não alimentarmos bem a cabeça, a alma e o coração. Como não sabemos se somos santos, é melhor não arriscar."
11. Apenas o Vento
Biografia - letra de Manuela de Freitas
"Quando já tinha um conceito para o disco, queria utilizar o máximo dos clichés dos livros. O facto de abrir com um poema em epígrafe, ter um prefácio, uma introdução, uma biografia, uma história a partir da vida real... são ideias ligadas ao meio literário. Tentei fazer corresponder."
12. Contos de Fados
A partir do poema "Nada Fica de Nada", de Ricardo Reis - letra de Manuela de Freitas
"Estava a ler "O Retrato" do Gogol, um dos maiores contistas do mundo, e veio--me este nome, "Contos de Fados". Achei o título tão bom que fui à procura de uma substância que lhe equivalesse e cheguei a esta ideia de convidar um naipe de letristas, que além de gostarem muito de literatura gostam muito de fados tradicionais. Só lhes pedi que escrevessem a partir da obra que quisessem, do género e da nacionalidade que quisessem. E o Ricardo Reis é o meu heterónimo preferido de Pessoa."
Leia a crítica a "Contos de Fados" na pág. 44
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Artigo: Aldina Duarte. O fado canta-se a contar
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