Universidades. Estudantes de mestrado triplicaram em três anos

por Margarida Videira da Costa , Publicado em 03 de Junho de 2011   
Efeito Bolonha fez crescer procura pelo segundo ciclo. As expectativas em relação a um mercado de trabalho em crise fizeram o resto
Opções
a- / a+
O número de alunos a frequentar um mestrado em Portugal duplica a cada ano que passa, culpa de Bolonha e do cenário de crise generalizada. Se adiar uns anos a entrada no mercado de trabalho pode ser uma solução para contornar a actual recessão, há também um risco associado: a concorrência por um emprego cresce a cada ano que passa.

Segundo dados agregados do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, entre 2006/07 e 2009/10 as inscrições no segundo ciclo de Bolonha aumentaram 286% - os estudantes em regime de mestrado passaram de 11,6 mil para quase 45 mil.

A tendência era esperada tendo em conta a entrada em vigor do Processo de Bolonha, em 2006. Só nesse ano a procura pelo segundo nível do ensino superior aumentou 134%. Mas a partir daí o ritmo manteve-se graças a novas variáveis a empurrar os jovens para a continuidade nos estudos: o mercado de trabalho está quase impermeável e o pensamento de muitos passa por adiar o fim dos estudos, na esperança de encontrar um cenário diferente dentro de alguns anos.

É o caso de José Araújo, 22 anos. Quando acabou o curso na área das Ciências Sociais percebeu pela tentativa frustrada de arranjar um estágio de Verão que nada ia ser fácil. "Não queria trabalho não remunerado, acho que não faz sentido num país civilizado. Vi-me desesperado." Por isso, e poucos meses depois, estava de novo sentado numa cadeira da faculdade, agora numa área distinta - a Gestão. "Quero abrir portas a outras coisas."

Como ele, grande parte da turma de que faz parte nunca teve experiência profissional para além da que acumulou em férias. E a maioria também não divide os estudos com um emprego, já que as aulas são em horário laboral e o plano de estudos exige dedicação a tempo inteiro. A premissa repete-se: "Não vale a pena começar a trabalhar com salários baixos, ou até mesmo nenhuns."

Mas há outras razões a justificar o crescimento dos mestrados. Mara Gonçalves, 21 anos, optou por continuar na faculdade "porque achava estranho deixar de estudar assim". Acabou a licenciatura com 20 anos e avançou para o mestrado pós-laboral na mesma área e faculdade. Durante o dia frequenta mais cursos de especialização e um estágio. Não é positiva quanto ao futuro no mercado de trabalho, mas admite: "Ainda não vivi o drama de procurar um emprego como alguns dos meus colegas que acabaram o curso comigo."

Nenhum destes jovens pensa em seguir para um doutoramento, ainda que também haja cada vez mais a fazê-lo. Nos anos em análise, o número de estudantes no terceiro ciclo de Bolonha em Portugal aumentou 76%, ultrapassando no ano lectivo de 2009/10 os 16 mil alunos.

Peter Pan doutor O adiamento da entrada no mercado de trabalho nem sempre é visto com bons olhos pelo empregador. Se, por um lado, a valorização académica é cada vez mais tida em conta, por outro soma-se mais tempo em que o jovem vive afastado da realidade do trabalho. José Araújo admite esse risco mas culpa a maneira como as coisas estão organizadas. "Em Portugal não se investe na ideia de estudo e empregabilidade simultânea, e agora é uma coisa que se está a transferir para os mestrados."

Isabel Salema, consultora na área dos recursos humanos, defende que o ideal é que a pós-graduação, o mestrado ou o doutoramento, seja feito após a entrada no mercado de trabalho. Quanto mais se adia a entrada, "mais se entra em concorrência directa com pessoas mais novas". Mas não aplica a regra ao momento actual. "Em momentos de crise como o que passamos, defendo o contrário. Pode ser uma maneira de gerir alguma frustração que o jovem sente após acabar o curso e ajuda a fazer contactos, o que é importante." Segundo a especialista, este fenómeno não é novo: "Sempre que há uma crise de emprego, há um aumento dos níveis intermédios de estudo."


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close