Joana Amaral Dias diz que Francisco Louçã é um líder à rasca
por Nuno Ramos de Almeida, Publicado em 03 de Junho de 2011
A antiga deputada do Bloco fala do livro e de uma esquerda à rasca, que não conseguiu alternativas à troika. E aponta os "erros estratégicos" do seu partido nos últimos dois anos
É psicóloga clínica e docente universitária. Foi deputada do Bloco de Esquerda. Francisco Louçã não lhe perdoa ter apoiado Mário Soares, em vez dele, nas presidenciais de 2006. Luís Fazenda minimizou recentemente o seu papel e o de Daniel Oliveira: "Felizmente há luar, mesmo quando passam cometas." Apesar dessa falta de autorização, Joana Amaral Dias continua a existir. Tem participado na campanha do Bloco de Esquerda por Coimbra e lançou um novo livro.
Portugal está a arder?
Corresponde à situação actual do país, primeiro ele arde todos os Verões de uma forma inexplicável. Depois traduz o estado da nossa economia, das finanças e da nossa sociedade. Estamos numa situação de emergência e é necessário fazer qualquer coisa.
O cronista deve ser um bombeiro ou um incendiário?
Às vezes é preciso ser incendiário, e em Portugal esse papel crítico é muitas vezes sobrestimado, por causas quase antropológicas. Outra vezes é importante apresentar perspectivas e até alternativas.
Sente a reacção do público às crónicas que escreve?
Sem dúvida. Sempre tive o meu endereço electrónico nas crónicas. Recebo muitas mensagens. A reacção do público, até porque escrevo num jornal popular ["Correio da Manhã"] é muito grande. De todo o tipo: dos insultos às cartas de denúncia. Acho interessante que as pessoas procurem na crónica coisas que lhes sirvam para o dia-a-dia, ou como argumentário contra situações injustas, ou mesmo como forma de denunciar directamente situações.
Veio da política para a crónica. Ela é para si um substituto da actividade política?
De certa forma é verdade, como estou afastada da actividade política... Estou no banco [risos]. O comentário e a análise política acabaram por preencher este espaço. Embora eu tenha o entendimento de que a política não se esgota nas instituições e há muitas formas de participação, e a crónica é uma delas. Não é equivalente, nem compensatória a todos níveis, mas gosto bastante daquilo que faço.
Para a Joana Amaral Dia isso não tem a vantagem de ser um exercício individual? Não se costuma dar mal com a vida colectiva, nomeadamente com os partidos?
As palavras são suas, não as subscrevo de modo algum. A crónica é muitas vezes ancorada num colectivo, num pensamento, numa corrente e numa ideologia. É uma expressão individual que a pessoa assina, é autoral para o melhor e para o pior, mas não a vejo numa campânula de vidro isolada de um movimento e de uma acção política colectiva.
Dizia que estava no banco há muito tempo. Pretende sair de lá?
Pretendo sair do banco se a equipa me chamar. Não vou para o meio do relvado dar um espectáculo de toques sozinha. Para isso é preciso que a equipa me ache necessária e me chame e que eu sinta que faz sentido e me possa enquadrar nessa equipa.
Nunca pensou fazer a sua própria equipa?
Construir uma equipa sozinha não. Por enquanto ainda não.
Há um peso bastante grande nas suas crónicas sobre a situação da mulher e a afirmação de que as mulheres não são tratadas normalmente do ponto de vista político...
Não existe um tratamento normal para as mulheres, mas não é só do ponto de vista político. Mesmo tendo havido uma evolução evidente do ponto de vista social e a nível da educação, as mulheres continuam com menor acesso a posições de poder e são estereotipadas nas indústrias culturais de massas: a mulher continua a ser representada ou como objecto sexual ou como prolongamento da vida doméstica. É assim na publicidade e no cinema comercial, e isso cria um ambiente que dificulta.
Não há um progresso?
Há um progresso, mas não acompanha, nem de perto nem de longe, a evolução da sociedade e o peso social e numérico das mulheres.
As quotas no parlamento não são um passo nessa direcção?
As quotas eram uma solução de compromisso para resolver na secretaria aquilo que deveria ser dado naturalmente. Mas mesmo assim não eram propriamente paritárias, já eram uma cedência. Se olharmos para os últimos governos, Sócrates I e Sócrates II, esse número está muito longe de uma representação digna e real das mulheres. As quotas deviam ser paritárias e depois devia haver um empenho muito maior nessas políticas, de forma a terem implicações transversais na sociedade, no acesso das mulheres a todos níveis e, por exemplo, no estabelecimento do critério de igualdade na remuneração.
Há alguma diferença entre políticos e políticas?
Não acredito na política no feminino. As mulheres não fazem política diferente dos homens. Podem ter outras dificuldades, mas não são diferentes. Quando muito, têm uma maior consciência das desigualdades sociais a que todas as mulheres estão sujeitas. É pena que assim seja, devia haver mais homens conscientes dessa injustiça. Mas, de certa forma, são os homens que estão no poder que são, em grande parte, responsáveis pela manutenção desta situação.
Este problema é de direita, de esquerda ou transversal a todo o espectro político?
Acho que é geral, mas agravado à direita. Basta ver o reduzido número de mulheres deputadas à direita. Ou, mais que esse aspecto formal, a capacidade que as mulheres deputadas têm em fazer intervenções e as áreas específicas em que o fazem. Há discriminações que são mais insidiosas que o simples número. Muitas vezes as mulheres são apenas chamadas a pronunciar-se em questões da família e da educação e menos consultadas em questões orçamentais e de defesa.
Nunca se sentiu como uma espécie de jarra num partido político?
Nunca me senti como jarra e sempre tentei que esse papel não fosse possível. É muito fácil, não vejo isto como uma questão pessoal, que a sociedade qualifique as mulheres políticas não pelas suas qualidades profissionais, mas por atributos menos relevantes. Isso acontece na política e em outros campos.
Ambiciona uma sociedade em que se fale apenas dos encantos físicos do Marques Mendes?
[Risos] Ambicionava mais uma sociedade em que as pessoas fossem avaliadas pelas suas competências. Se as pessoas não estão a concorrer a modelos ou a cabides, sem desprimor para os primeiros, por que razão têm de ser avaliadas pelo aspecto físico?
Fala no livro da importância de fazer títulos. Vamos executar esse exercício: que título faria para o Sócrates em campanha?
Nesta campanha, o rouco.
Passos Coelho?
O falso ingénuo.
Porquê?
Aparece como naïf a apresentar as suas ideias, mas depois acaba por avançar com movimentos quase predatórios sobre conquista sociais. Há nesta coreografia alguma coisa que é construída. Aproveitando uma característica inata do líder do PSD, aparece como alguém que não tem a noção exacta do que está a dizer, mas que vai lançando o barro à parede. Veja-se o caso do aborto.
Se Passos Coelho for eleito, vai ter saudades de Sócrates?
Tirar o Sócrates do poder será o único serviço que Passos Coelho prestará ao país. A partir dai só trará malefícios. Por uma questão de democracia, está na hora de Sócrates sair do poder. O problema é esse. É que não há uma boa alternativa.
Paulo Portas?
Quantas vidas tem o gato? Sete? Paulo Portas é o gato das dezassete vidas.
Agora ele garante que está à esquerda do PSD.
Não podia estar mais distante dele. Mas é um jogador político hábil e está a capitalizar o posicionamento do PSD e a reacção a algumas propostas neoliberais de Passos Coelho. Portas consegue esta coisa inimaginável de se apresentar como o defensor dos pobrezinhos e dos reformados. As coisas andam um bocado baralhadas.
Francisco Louçã?
Está quase na geração à rasca.
Isso é bom?
Podia ser bom se o Bloco tivesse cumprido aquilo que se propôs desde o início, ser mais que um partido político, ter a capacidade de potenciar e participar nos movimentos sociais. A geração à rasca tem coisas muito interessantes. Mas Louçã está de direito próprio nessa geração. Por más razões. Os últimos dois anos do BE têm sido muito complicados, com erros estratégicos e derrotas.
Mas participou na campanha do Bloco.
Participei. Fui dar uma ajuda ao meu amigo José Manuel Pureza em Coimbra. Foi essa a minha única participação. Cirúrgica, portanto.
Foi a Joana, o Daniel Oliveira e o Rui Tavares... uma data de gente que não participou no resto da campanha...
Pelos vistos é uma capacidade que o José Manuel Pureza tem.
Mas não tem a mesma opinião sobre o BE que o Daniel Oliveira?
Não divergimos sobre muita coisa. Não apoiei, como ele, Manuel Alegre e fui favorável à moção de censura do Bloco, ao contrário do Daniel. Há uma série de diferenças de opinião, mas lá está... Isso mostra o mérito de José Manuel Pureza, ao conseguir fazer estas convergências.
Jerónimo de Sousa?
Jerónimo de Sousa é provavelmente o melhor ditado popular que existe. Olho para o Jerónimo e vejo nele um ditado popular. Convoca imensas imagens, do branco e do tinto, da fogueira e do lume.
Como explica que existindo, segundo as suas crónicas, uma crise tão profunda, que resultou das políticas do chamado arco do governo (PS, PSD e CDS), os partidos que se opõem a essa política surjam a perder nestas eleições?
É um problema do projecto da esquerda. Não é de agora, culmina agora. Estes 30 anos de desenvolvimento errado, contra a opinião desses partidos, mostram as dificuldades em apresentar alternativas e ideias que possam ser postas em prática. A esquerda não fez um trabalho de reflexão. A situação que vivemos é o culminar dessa impotência.
Vê-se daqui a dez anos a escrever sobre os mesmos problemas?
Gostaria muito que não. Infelizmente, estou condenada à repetição.
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