Leonard Cohen. Um prémio para a mais refinada escrita de desamores
por Tiago Pereira, Publicado em 02 de Junho de 2011
O canadiano de 76 anos foi ontem distinguido com o prémio Príncipe das Astúrias para as Letras
As duas primeiras conclusões depois da entrega do prémio Príncipe das Astúrias para as Letras (um dos maiores vindos de Espanha) ao canadiano Leonard Cohen: a distinção reconhece os feitos daquele que é descrito sobretudo como músico mas que já se desfazia em linhas e páginas muito antes de o fazer em discos e concertos; e a partir de agora é oficial, a academia do Nobel já pode entregar o prémio a gente das canções sem ficar com peso na consciência, seja a Bob Dylan ou a este nascido em Montreal em 1934. É escolher.
Uma das questões de ontem era "este prémio não deveria ter sido entregue a Ian McEwan, Alice Munro ou ao português António Lobo Antunes?" O júri decidiu que Cohen era merecedor do reconhecimento "pelos seus poemas e canções, pela exploração que faz, com profundidade e beleza, das grandes questões que acompanham a humanidade". Porque são factos indesmentíveis, a sua comparação com outros nomeados fica de lado, vale mais reconhecê-lo e voltar a ler e a ouvir tudo outra vez.
Leonard Cohen é um dos homens que mudaram a história da música popular (não somos nós que geramos aqui tal epíteto, é elogio que vem de longe). Deu tragédia às canções de amor, mas da boa, daquela que qualquer adolescente sente mas não consegue transformar em estrofe-refrão, por mais que tente; daquela que os adultos querem experimentar, porque é como diz o ditado, arde mas cura. E fê-lo porque a exercitou em poesia de antologia, rimas nascidas entre paisagens de vénias à natureza e boémias urbanas. Em 1956 publicou o seu primeiro livro, "Let Us Compare Mythologies" e só teria o seu nome impresso na capa de um disco 11 anos depois, com "Songs of Leonard Cohen". Também antes assinou ficção, "O Jogo Favorito" (1963) e "Belos Vencidos" (1966), como se tivesse de fazer tudo, rápido, muito rápido.
Antes das novelas refinadas por uma voz que foi do sedutor barítono ao mais envolvente e denso dos baixos (é o que fazem as décadas aos homens de muita vontade), eram os contos impressos em páginas divididas entre poesia e prosa. Porque o intelecto de Cohen foi estimulado para tal missão por uma mãe confiante nas capacidades letradas do filho. Porque a morte do pai enquanto este artista tinha apenas nove anos levou a reflexões interiores forçadas. Porque, mais tarde, a vida académica lhe mostrou os encantos da escrita de Walt Whitman, Yeats ou Henry David Thoreau. A busca, o impossível e outros desafios que tais nunca mais o abandonaram e, mesmo quando "So Long Marianne", "Suzanne" ou "Dance Me to The End of Love" se tornaram sucessos, só o foram, como ainda são, porque as canções são poemas recitados, contos nascidos para fazer dançar, devagar e com uma escolha cuidada de par - nada de estragar momentos assim com trivialidades.
Em palco, como nos últimos concertos que deu em Portugal, Leonard Cohen gera silêncio entre a assistência enquanto debita versos, que chegam a quem os ouve como memórias que nunca viveram. Difícil de explicar, é verdade, mas com um impacto fácil de reconhecer. A academia dos prémios Príncipe das Astúrias apenas o fez com maior impacto mediático.
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