As crianças têm imensos gostos. Ou melhor: há uma enorme necessidade dos mais crescidos em perceber os gostos das crianças, o que faz com as crianças tenham imensos gostos.
Confuso? É sim senhor. Explico melhor: os crescidos, na sua eterna insegurança, passam os dias a monitorizar as preferências infantis e não acham nada melhor do que perguntar directamente ao interessado; como as crianças passam os dias a mudar de gostos, o estudo de opinião torna-se verdadeiramente esquizofrénico.
As crianças, essas, deliram com o exercício que praticam desde tenra idade: o menino só gosta de maçãzinha e chocolate, já a massinha não é com ele; ainda tem dez dias e já detesta dormir sozinho, tem personalidade, o menino; também diz que gosta da tia, mas ontem disse que o tio é um chato; não suporta pôr o cinto de segurança, mas gosta de futebol - é desportista, o rapaz, e rebelde; o menino não gosta nada de cumprimentar as pessoas em geral, é tímido, mas gosta muito de puxar os cabelos dos meninos em geral; gosta muito de telenovelas, mas não gosta nada de ir para a cama ou de dormir com a luz apagada. O menino é um prodígio de gostos e até tem um gosto diferente todos os dias.
Coitadinho do menino, porque no dia em que deixarem de lhe perguntar o menino vai estranhar. Mas nessa altura já não é menino, é crescido e está por conta própria.
Jornalista




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