Entrevista
Helena Sacadura Cabral. "Em quem eu voto é o grande segredo da minha vida"
por Vanda Marques, Publicado em 27 de Maio de 2011
Em oito meses escreveu seis livros. Para enfrentar a doença do filho, embrenhou-se no trabalho. "Caminhos do Coração" é o seu novo livro
O pré-aviso chega por telemóvel: Helena Sacadura Cabral não se sente muito bem. Na manhã da entrevista a tensão arterial rondava os 19 valores, efeitos do calor e da campanha eleitoral, deduzimos. Mesmo assim não desmarcou a entrevista. Íamos preparados para receber uma quota mais reduzida de gargalhadas e um sentido de humor mais contido. A escritora, pilota de aviões, economista, professora, e mãe dos políticos Miguel e Paulo Portas, provou que estávamos errados. Numa conversa sem tempo limite falou dos livros, dos filhos, da economia e da herança de Pedro Álvares Cabral.
Tem mais um livro novo.
Vocês devem pensar que estou transformada numa fábrica de fazer livros. Em oito meses foram cinco ou seis já nem me lembro. Vou lhe explicar. Quando tive conhecimento da doença do meu filho mais velho [Miguel Portas, que foi operado a um cancro no pulmão] julgo que teria duas possibilidades de me aguentar firme. Uma seria tomando os dispositivos clínicos necessários, tranquilizantes e isso, outra seria embrenhar-me no trabalho que é sempre uma cura vital. Portanto, embrenhei-me no trabalho. Como sou economista, o custo-benefício de gastar dinheiro em medicamentos sem garantias, não compensava. Depois achei que a família ia precisar que eu estivesse, como estou sempre, forte e resistente. Aqui tem a razão para ter publicado tanto.
No livro "Caminhos do Coração" mistura viagens verdadeiras com ficção. Foi fácil?
Devo dizer, isto é uma vergonha mas é a verdade, que nunca tive o drama da folha branca. Naturalmente o que eu escrevo não presta para nada e talvez seja rigorosamente isso. Quando me meto ao computador desaparece o que tenho à volta. Nem sequer altero muita a escrita que é bem coloquial. O meu interesse é ser percebida. Não pelos intelectuais que não me encantam particularmente.
Porquê?
Acho que olham muito para o seu umbigo. Falam de um povo que não conhecem, com quem não falam, que só olham através de estáticas. Eu sou portuguesa ferrenha e divirto-me a ver as pessoas a conversar na esplanada, no eléctrico, são a marca do povo a que pertenço. Os políticos, como é público, não me interessam particularmente, o discurso deles menos um pouco. O que me interessa é fazer-me entender por pessoas que vivem experiências novas com o que eu escrevo ou que reconhecem os seus problemas, experiências, nas minhas. Ainda hoje tive uma senhora escreveu no meu blogue: "Leio o que escreve quando estou muito em baixo e isso ajuda-me".
Escreve sobre coisas tão diferentes como receitas e menopausa. Como decide?
São as coisas que eu gosto e estou me borrifando. Se fosse intelectual é que tinha de me tornar especialista de alguma coisa. Assim não. Tanto me faz que me conheçam como cozinheira, que sou boa, como cronista, que não sou má, como contista, que sou aceitável, ou como prosadora poética, que também sou. Pelo menos não me podem acusar que faça boa vida porque a faço a trabalhar.
Também desenha jóias?
Sempre gostei de adornos, mas não me interessa enquanto valor monetário. Como investimento é melhor comprar barras de ouro. Como não sei desenhar, faço-as em plasticina. Depois explico na oficina como é que quero que a coisa seja feita.
Gosta de seguir todo o processo?
Gosto, como gosto de fazer tricot, crochet, de ler e cozinhar. Tudo o que me descansa a cabeça. Acho uma burrice uma pessoa pôr-se em frente à televisão embrutecido. São raríssimos os bons programas. Não vejo televisão nacional, só há uma excepção. Tenho de confessar que gosto de novelas brasileiras. As portuguesas já não me interessam tanto. Gosto daquelas coisas doces e uns amores. Até ajuda na escrita criativa e tocam em temas tabus. Se puser dois homens ou duas mulheres numa relação está a fazer mais do que um discurso da ILGA.
Sempre quis escrever?
O meu pai tinha uma mania excelente quando eu tinha uns 10 anitos. Mandava-me subir para um banco, olhava para o relógio e dizia: "Tens cinco minutos e vais falar sobre um tema. Por exemplo, o sol". Isso deu-me uma enorme vantagem em relação às aulas. Ter um anfiteatro cheio de alunos ou com dois era igual. O primeiro livro que eu li foi o dicionário do Torrinha e o meu pai disse-me: "Vais pôr uma cruz em todas as palavras que desconheces". Como deve calcular estava cheio de cruzes. Esses exercícios deram-me uma enorme facilidade para escrever e falar. Não tenho dificuldade nenhuma a comunicar e pus isso a render. Na economia mais simples e nas coisas do quotidiano.
Em miúda gostava dessas coisas, não preferia ir brincar?
Achava interessante. Nunca fui uma pessoa do meu tempo. Não tenho amigas da minha idade. Cansa-me um bocadinho. Porque têm todas as coisas que eu tenho, mas não me apetece debruçar-me sobre elas. Se me dói o tornozelo não vou ficar a falar disso, ponho-o em cima do banquinho, mexo para um lado ou outro e já está. Se fosse assim não tinha feito a entrevista hoje porque tinha a tensão nos píncaros. Campanha eleitoral para mim não é um motivo de paz, é bastante stressante. Como sou muito profissional e chata não desisto. Faço uma média de 10 a 12 horas de trabalho por dia.
Este livro dedica-o aos seus filhos. Porquê?
Saí de um período em que os meus dois filhos foram um exemplo do que é a fraternidade entre irmãos. Tenho um imenso orgulho deles. Aliás, eles são a minha melhor obra. Se não tivesse feito mais nada já tinha dado ao país, aliás, aos dois lados do país, material suficiente. Deixam-me com a sensação que posso morrer que o que cá deixei frutifica.
Fala muito de emoções e de que as pessoas desaprenderam de mostrar ternura. Este livro é para mudar isso?
As pessoas deixaram de mostrar afectividade. Há os extremos inestéticos. Não quero saber se o senhor sobe pela senhora ou se a senhora sobe pelo senhor. Não faz o meu "cup of tea". No outro extremo, há uma enorme dificuldade de mostrar afecto, que os intelectuais acentuam e os políticos também. O meu filho Paulo não tem nada disso e foi sempre assim.
Sempre?
Pirava-se quando era pequeno com os trabalhadores de Vila Viçosa para o campo. O Miguel é mais intelectual, tem mais dificuldade. O Paulo se lhe derem beijinhos, abraços, não se incomoda nada. Era impossível aguentar o que ele aguenta se não tivesse uma componente natural.
Com dois filhos políticos, nunca lhe passou pela cabeça entrar na política?
Na política? Tá doida? Sou uma criatura de Deus, sou uma criatura com juízo.
Porque não?
Acho que o poder exacerba o que as pessoas têm de menos bom.
Em todos os casos?
Não em todos, mas exercício da autoridade é a mais dolorosa das experiências. Chefiei pessoas e sei o drama de poder ser injusto, de não ter a certeza porque é que um aluno bloqueou, porque é um funcionário do Banco de Portugal não produziu. A autoridade não é simpática. Nem para as crianças. As mães às vezes têm de magoar um filho para ele crescer. Lembro-me que o Miguel era tremendo, nunca aprendia o "Não toca na tomada", "Não toca no aquecimento". Gostava de desafiar. Um dia eu disse-lhe: "Então dá cá o dedinho". Coloquei-o na ficha e ele: "Aiii". Mas continuava a testar. Gostava de se aproximar para ver se eu reagia. Coitadinho do Miguel, não foi uma criança fácil.
Não?
Era uma criança bem assertiva que gostava de contestar.
Como é que uma mãe lida com isso?
Respondendo "sim" ou "não" consoante os comportamentos. Só que enquanto estiver na minha casa quem manda sou eu, sobre isso não tenho grandes problemáticas. Outra solução era fazer como o Paulo que fazia bargaining [negociar]. Eu queria que ele chegasse às duas, ele queria às três. Insistia tanto que me vencia pelo cansaço e conseguia estender o horário até às 2h30. O outro não. Mesmo que chegasse às 2h30 era capaz de ficar lá em baixo uns minutos para ver se eu reagia.
São muito diferentes?
Não, são iguais. Nem as pessoas calculam o quão são parecidos. Têm gostos semelhantes, na comida, no cinema e as mesmas preocupações, resolvem-nas é de maneira diferente.
Percebeu cedo que eles queriam ir para a política?
São netos e filhos de políticos. Aos 12 anos entraram para política. O Miguel esteve preso, juntamente com 140 crianças que participaram no Movimento Associativo de Estudantes do Secundário de Lisboa e o Paulo teve um processo em cima por escrever um artigo chamado três traições sobre os traidores da política. Felizmente o pai [Nuno Portas] curou-se a tempo. É uma sanidade que se tem por volta dos 50 e tal. Espero que eles se estejam a aproximar dessa sanidade até porque têm de dar lugar a outros.
Tem alguma mágoa de eles terem ido para a política? Se pudesse dizer-lhes para não...
Se pudesse? É coisa que ninguém ignora é que disse para eles não irem. A maior prova de amor que lhes dou é essa.
Porquê?
Acho que qualquer um deles tem uma capacidade intelectual que seria brilhante noutras áreas. O Miguel fez televisão brilhante, documentários que são uma delícia e o Paulo escreve admiravelmente e fez um jornal que, quer se goste ou não, marcou uma alteração no jornalismo português. Sempre fiz com eles o que a minha mãe fez comigo: "Isso parece-me uma enorme asneira, mas se queres levar isso por diante, vamos."
Tinha uma família rigorosa?
Sou neta de um militar, filha de pais exigentes. A minha mãe achava que para ela podia haver um determinado número de coisas, que já as tinha merecido, quando chegasse a minha vez logo teria. Os fatinhos passavam de um irmão para outro, virava-se o tecido ao contrário para fazer roupa e das calcinhas fazia-se saias evasés e andor. Como lhe digo, acho que fez muitíssimo bem. Não me deixava fazer fantasias. Andava de eléctrico e levanta-me mais cedo para comprar o bilhete de operário e assim só pagava uma viagem. Hoje tenho a perfeita noção do dinheiro.
O nome Sacadura Cabral é...
É um peso também. Porque acho que Portugal respeita muito pouco os seus heróis. Não quero que venerem o meu tio [o aviador Sacadura Cabral que fez a primeira travessia aérea do Atlântico Sul] mas daqui a pouco já nem sabem quem foi. Ele era irmão do meu pai, o mais velho, e quando a minha avô ficou viúva com 12 filhos foi ele o chefe de família. Só realizou o sonho de ter o brevet quando as irmãs estavam casadas. É uma pessoa a quem a família deve muito. Agora ouve-se uma Sacadura Cabral, uma mãe de uns Portas. É pena. Acho que Portugal esquece a sua história muito facilmente. Se for alguém da esquerda que mata alguém ou morre fica num pedestal. A Catarina Eufémia, coitadinha.
Tirou o curso contra a vontade do seu pai?
Sim. Ele achava que uma menina naquela época - olhe que sou do tempo em que as mulheres não podiam trabalhar sem autorização do marido, toda uma época glamorosa mas inconveniente para o sexo feminino - devia saber francês, inglês, tocar piano, casar e ser boa dona de casa.
O que queria ser?
Queria ser micro cirurgiã da cabeça. Achava que poderia mudar as mentalidades intervindo na cabeça. Depois quis ser escultora, para tornar a sociedade mais bonita. Quando disse isso ao meu pai ia-lhe dando uma coisa má. Trabalhar com nus, mortos ou vivos. Lá me deixou ir para a faculdade, mas queria que seguisse o curso da família, direito. Eu queria um curso que tivesse um papel interventivo e fui para economia. Também era muito nova. Acabei o liceu com 15 e entrei na faculdade. Era um bocadinho cedo.
Como foi entrar na faculdade?
Entrei de tranças e de soquetes numa faculdade com 15 mulheres, calcula o que foi. Depois já ia aperaltada e terminei o curso como primeira aluna. Nessa altura já trabalhava para pagar as minhas folias. Ganhava 25 tostões à hora a dar explicações.
Foi a primeira mulher a entrar nos quadros do Banco de Portugal. Nunca se sentiu discriminada?
Borrifava-me um pouco para isso. Trabalhava mais, afirmava-me. Hoje estou igual a eles. Também lhe digo que nunca fui administradora, directora geral e nunca fiz aquilo que poderia ter feito se não fosse mãe do Paulo e do Miguel Portas.
Porquê?
Fui prejudicada em algumas ocasiões e não quero registá-las porque o passado está lá para trás.
É verdade que o seu pai lhe quis arranjar casamento?
Olhe, não me tinha tratado mal. (Risos) Estava agora uma viúva bastante rica. Se trabalhasse era porque gostava e não por necessidade.
Em vez disso casou-se com o arquitecto Nuno Portas. O seu pai concordou com a escolha?
Nunca lhe perguntei. Fui pedida em casamento com todo o cerimonial. Foi tudo como devia ser. E fui em todo o estado que devia ir. Não dou grande valor a isso hoje como calcula. Talvez até tivesse sido melhor de outra maneira.
Divorciou-se de Portas e voltou a casar-se mas disse que teve os filhos com quem queria ter?
Nem nunca me passou pela cabeça ter filhos que não fosse do Portas.
Porquê?
Porque era o homem da minha vida e tem-se filhos do homem da nossa vida. Não se anda por aí a fazer filhos. Podemos dar uma volta com o vizinho, mas não ter filhos.
Quais são os próximos projectos?
Gostava de fazer uma biografia sobre os homens no poder, como Churchill, Mitterrand, De Gaulle. Tenho escrito só sobre mulheres.
A pergunta que sempre lhe fizeram e devem continuar a fazer é em quem é que vota?
O grande segredo da minha vida é em quem é que eu voto. Já dei o meu voto familiar aos filhos, mas só eu e o voto é que sabemos.
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Artigo: Helena Sacadura Cabral. "Em quem eu voto é o grande segredo da minha vida"
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