Jovens do Rossio. Negociar a dívida, já!
por Pedro Vaz Marques, Publicado em 23 de Maio de 2011
Centenas de jovens transformaram a praça de Lisboa num comício permanente contra a troika
Foi o espírito das praças públicas da Grécia antiga, as ágoras, que se viveu ao longo do fim-de-semana no Rossio, em Lisboa, onde centenas de pessoas se reuniram com o movimento 12 de Março, responsável pela manifestação da chamada geração à rasca e em solidariedade com os espanhóis que estão acampados na rua em Madrid e Barcelona, exigindo melhores condições de vida.
"Nunca vi tantas pessoas pegarem no megafone e expressarem a sua opinião, muitas delas falando pela primeira vez em público", disse ao i Raquel Freire, uma das responsáveis pela acção que ontem a meio tarde deu outra cor ao Rossio. Por volta das 16h, uma peça de teatro simulou um tribunal em que as personagens eram, por um lado, "a mão invisível do senhor agência de rating" e por outro "os periféricos", representados pela Islândia, por Portugal, pela Irlanda e pela Grécia. O juiz avaliou como "lixo" cada um dos países, obrigou-os a assumir que "a culpa é nossa" e atribuiu várias "sentenças", com a Islândia a ser "amordaçada", a Irlanda e a Grécia "mortas" e Portugal a seguir o mesmo caminho, até que os islandeses se revoltaram e disseram "basta".
Raquel explica então o objectivo: "antes de pagarmos a dívida externa temos de saber que parte é nossa e que parte é dívida odiosa, causada pela especulação, e para isso temos de fazer uma auditoria". Esta acção, sustentou Raquel Freire, é a primeira de muitas que até 25 de Junho querem "alertar os portugueses para a cidadania", sublinhando que Portugal deve seguir o exemplo "da mais velha democracia do mundo, a Islândia, e pedir uma auditoria da dívida". A activista acredita que "já chega" e que desde o 25 de Abril de 1974 que Portugal "acumula uma dívida que não se sabe de onde vem". Por isso mesmo, este movimento resolveu "vir para a rua, onde também se exerce a cidadania e não apenas nos palácios", sustenta Raquel, lamentando o silêncio em volta da questão da renegociação.
Este silêncio não se tem feito sentir no Rossio, com muitas pessoas a pegarem no megafone de forma espontânea, acompanhadas por muitas palmas e ainda djambés e outros instrumentos musicais, junto à estátua de D. Pedro IV, decorada com vários cartazes de apelo à luta para além das palavras.
As centenas de pessoas que participam nesta campanha de sensibilização querem que seja feita, pelo Tribunal de Contas e uma comissão independente de portugueses eleitos, uma auditoria à dívida, "à semelhança do que foi feito na Islândia, que tem sido um exemplo para toda a Europa", explica Raquel Freire, que acrescenta que a presença de tantas pessoas durante o fim-de-semana, mostra que a mobilização no Rossio está a crescer.
A ideia faz parte das propostas eleitorais do Bloco de Esquerda e do PCP, mas Raquel Freire defende que esta iniciativa é dos cidadãos. "Quando os mecanismos democráticos não funcionam, cabe ao povo fazê-lo, para que exista justiça social", sustenta, sublinhando que "Portugal tem de questionar a democraticidade e a legitimidade da dívida". A activista rejeita que o objectivo seja "não pagar" e reconhece que a ideia pode parecer confusa e não está a ser bem explicada. "Por isso mesmo existe esta campanha", na rua até 25 de Junho.
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