Ferro Rodrigues:"Não acredito que Passos Coelho não faça coligação com o PS" - vídeo

Publicado em 21 de Maio de 2011   
Ex-líder do PS faz fé numa coligação com o PSD, mas avisa que programa "neoliberal" tem de ser alterado
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Ferro Rodrigues regressou à política activa pela mão de Sócrates, que lhe sucedeu na liderança do PS há seis anos. Não abre o jogo sobre o seu futuro político, mas dá a entender que, mesmo que seja convidado para ministro, no caso de o PS vencer as eleições, pode não aceitar. No cenário de vitória dos socialistas, Ferro defende que a única solução é uma coligação com o PSD, mas avisa que os sociais-democratas terão de deixar cair as propostas que mexem com o Estado social. O cabeça-de-lista do PS por Lisboa critica algumas medidas do programa da troika e avisa que é preciso ter "muito cuidado" com as implicações sociais do acordo.

Há dois anos dizia que não tinha uma vontade especial de estar no parlamento. O que é que mudou?

Mudou muito a situação do país. Assim que o secretário-geral do PS me desafiou para participar nesta campanha, eu disse que sim, porque a situação do país agravou-se de uma forma muito significativa em termos financeiros, económicos e sociais. Estas eleições são muito importantes para o futuro do país.

Já tinha sido convidado em 2009?

Não, nas eleições anteriores não havia a mesma situação-limite que se verifica nestas. A partir do momento em que vi a situação financeira do país deteriorar-se tive vontade e necessidade de participar.

O seu desejo é ajudar o PS na campanha e assumir o lugar de deputado ou tem vontade de exercer outros cargos?

Na altura em que aceitei ser candidato a deputado nem sequer houve um convite para ser o primeiro em Lisboa. Foi apenas para voltar a Portugal e voltar a participar. Não pus em equação nenhum cenário pós-eleitoral e continuo a não pôr. Neste momento a questão que se levanta é vencer as eleições.

As propostas que o PSD tem para o país influenciaram essa decisão?

Sim, este programa do PSD é o programa mais à direita de sempre de um partido com aspirações de governo na política em Portugal, e como calcula não é coisa que me entusiasme. E portanto há aqui um desafio que é impedir que esse programa seja posto em prática com as consequências que isso teria para a grande maioria dos portugueses.

Que consequências?

A lógica de privatização, mesmo parcial, em sectores sociais, como é o caso da Segurança Social, mas também da saúde e da educação, é um projecto que pretende que o dinheiro dos contribuintes seja posto ao serviço dos lucros de entidades privadas, que terão tendência, não a jogar o jogo da igualdade de oportunidades nestes sectores, mas sim a transformar-se em áreas de regresso do elitismo nesses sectores sociais. Não aceito isso para o meu país.

Da forma como o PS fala parece que as pessoas com menos poder económico vão ficar sem acesso à saúde se o PSD implementar o seu programa. Há esse risco?

Há o risco de ficarem, pelo menos, com um tipo de saúde e educação a duas velocidades. Era um regresso ao passado, que não ambiciono para Portugal.

Refere-se ao salazarismo?

Refiro-me ao passado muito passado. Houve um grande desenvolvimento dos sistemas sociais em Portugal desde o 25 de Abril, mas também nas áreas da Segurança Social houve um grande avanço desde meados dos anos 90, com vários programas que foram levados à prática. E desde 2005 houve uma grande melhoria da qualidade da educação e do sistema público. Tudo isso poderia ficar comprometido com uma vitória da direita.

É sustentável manter o Estado social como existe ou como dizem muitos economistas o país não tem capacidade para isso?

Sabe que o modelo mais insustentável de todos em termos de saúde é o americano? É um modelo com algumas características de assistência aos mais pobres numa componente pública e depois tem serviços privados muito caros para as pessoas que têm possibilidade e com uma classe média que está com dificuldades em ter acesso à saúde e que tem problemas graves. E esse modelo é muito mais insustentável do ponto de vista financeiro e também do ponto de vista social.

Mas não é comparável com o modelo do PSD.

Sabe que para as coisas se desenvolverem em determinado sentido têm sempre de começar por algum lado. Quando se começa é um bocado imparável. A lógica do desenvolvimento de uma estratégia neoliberal nos sistemas sociais acaba por levar a modelos como aqueles que estou a identificar.

Mas ainda não me esclareceu se está disponível para ser mais do que deputado a seguir às eleições.

A minha disponibilidade foi aquela que manifestei ao secretário-geral do PS e passa por estar nesta batalha. Nada está falado. Depende dos resultados eleitorais, mas é evidente que, se vim da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económicos), após mais de cinco anos, foi para defender o meu país.

Em qualquer cargo?

Neste momento a única questão que está posta é ser deputado.

E voltar a ser ministro?

Vamos ver que tipo de governo se vai formar. Aí também há uma grande diferença entre a postura do PS e a do PSD. O PS tem manifestado disponibilidade para a negociação e para a criação de um governo reformista, no bom sentido do termo. O PSD parece estar a fechar todas as portas a qualquer cenário de entendimento com o PS, o que é absurdo, porque pode haver cenários em que só com os dois partidos no governo haja uma maioria na Assembleia da República. É uma forma demasiado arrogante para os tempos que o país vive.

Já foi falado, nos jornais, como possível ministro das Finanças se o PS vencer. Aceitaria?

Já fui falado para as mais variadas coisas. Isso faz-me lembrar aquela frase do António Vitorino que dizia que "não há festa nem festança onde não vá a D. Constança". Não me quero transformar num novo António Vitorino.

Mas gostaria de participar no futuro governo?

Vamos ver que governo sai das eleições. Penso que vai depender dos resultados. Neste momento a grande questão é saber quem vai formar governo e que tipo de governo vai ser formado. A composição do governo é a terceira questão.

Mas se o PS vencer há muitas possibilidades de ser convidado.

Mas sabe que o facto de se ser convidado nem sempre é sinónimo de se aceitar. Já estive muito tempo no governo em funções executivas de grande responsabilidade com o engenheiro António Guterres e não tenho muitas saudades de funções executivas neste momento. É uma questão que só mais tarde se poderá ver, em função dos resultados, mas não é uma ambição que eu tenha.

Estaria mais disponível para a presidência da Assembleia da República, como já sugeriu Ana Gomes.

A dr.a Ana Gomes é muito minha amiga, mas como já disse sou candidato a deputado. Não foi nessa perspectiva que aceitei ser candidato nestas eleições.

Como é que o PS se vai coligar com um PSD neoliberal e que tenciona destruir o Estado social, como dizem muitos socialistas?

Não vai ser fácil. Por isso é que é muito importante saber quem é o primeiro-ministro. Será evidentemente diferente conforme a liderança do governo. Quem ganha tem mais margem de manobra. Se predominar o bom senso, que é algo que tem faltado na política portuguesa, é possível. Quem, como eu, esteve afastado estes anos, e vê algumas declarações que têm sido feitas pelo líder do PSD, percebe que falta um bocadinho de bom senso.

A política está mais agressiva do que há seis anos?

Sim. Foi transposta para o plano político uma agressividade verbal e ataques pessoais que não eram normais em Portugal, e isso descredibiliza os políticos. E os partidos bem precisam de se credibilizar, porque há uma parte das pessoas que está desapontada e que se abstém.

Têm razão para estar insatisfeitas ?

Há sempre uma base de razão quando as pessoas estão descontentes e temos de entender as razões das pessoas e temos de ter nesta campanha a humildade para perceber que há um descontentamento, que se pode medir pela abstenção. As pessoas que estão na política têm de dar o exemplo e têm de fazer política e construir a democracia com outras fórmulas e não com estes ataques permanentes.

O PS seria, num governo entre os dois partidos, uma espécie de travão às políticas, que classifica como neoliberais, do PSD?

O PSD não merece ganhar as eleições. Se o PS for o partido mais votado, esse programa do PSD tem de ser dissolvido, de certa maneira, num programa de um governo onde provavelmente também alguns aspectos do programa do PS têm de ser revistos. As portas que deviam estar neste momento a ser abertas infelizmente parecem estar a fechar-se. Isso é muito negativo.

Imagina um governo PS/PSD a privatizar parte da Caixa Geral de Depósitos, como defende Passos Coelho?

Não, penso que não. Mas tudo isso tem de ser discutido na base do valor e da qualidade das medidas que são propostas. Não se pode partir para uma negociação fechando todas as portas, mas há algumas posições maximalistas no programa do PSD que, evidentemente, num governo de coligação teriam de ficar para trás.

Quer dar alguns exemplos?

O arranque de um processo de privatização, mesmo parcial, nos sectores que são a base do Estado social em Portugal é claramente impossível. Não quer dizer que não se possa melhorar o funcionamento em várias áreas do Estado social, mas permanecendo no quadro constitucional vigente. Repare que o acordo com a troika não exige nada que implique a destruição, mesmo que parcial, do Estado social e não exige nenhuma revisão constitucional. Uma coisa é haver a necessidade de fazer sacrifícios partilhados por todos, que podem durante um determinado período ter consequências no ritmo de melhorias desses sectores sociais, outra coisa é um programa de aniquilação da responsabilização pública que deve haver para garantir a igualdade de oportunidades nessas áreas.

Exclui o CDS de um acordo com o PS?

O núcleo de uma solução governativa, no caso de a direita não ter maioria, terá sempre de passar pelo PS e pelo PSD. É evidente que não vale a pena se outros partidos podem contribuir para uma solução governativa, porque isso também depende da vontade desses partidos.

O PSD já fechou a porta.

Fechou a porta, vamos ver. É muito fácil dizer que se fecha a porta, mas também não acredito que, se os resultados derem que a única maioria possível no parlamento é entre o PS e o PSD, Passos Coelho continue a dizer, a seguir às eleições, o que disse agora. Isso seria antipatriótico.

O PSD teria de mudar de líder.

É a sua conclusão e eu só posso partilhar.

Mas se o PS conseguir vencer pode ter ainda como solução o CDS, ou não?

Na situação em que o país está, uma solução que seja com uma maioria pequena, sem o PS e o PSD, seria sempre uma solução que não responderia às necessidades do país.

Isso tem a ver com a dimensão do CDS ou com a ideologia do partido?

O PSD tem um programa mais à direita que o CDS e desse ponto de vista até talvez as dificuldades de concertação fossem menores, mas a questão que ponho é que, num quadro nacional como aquele que se vive, um dos grandes partidos estar na oposição e o outro estar no governo com uma maioria pouco abrangente será grave.

Disse há dois anos que o CDS não dá um contributo para a estabilidade.

As coisas mudaram e mudou sobretudo o PSD, que passou de uma linha de centro-direita para uma linha de aposta no neoliberalismo e ultrapassou em vários aspectos o CDS pela direita. Não se viu, até agora, o líder do CDS fazer afirmações como aquelas que foram feitas por alguns responsáveis do PSD, nem ter comportamentos como aquele que teve esta semana o líder do PSD de atacar milhares de pessoas que estão no programa Novas Oportunidades. Há aqui uma falta de maturidade em termos políticos e pode ser que uma coligação com o PS lhes fizesse bem.

Preferia outro líder à frente do PSD para uma coligação?

Os partidos têm toda a legitimidade para escolher as suas lideranças e, como sabe, o PSD, nos últimos anos, já teve cinco líderes como adversários do engenheiro Sócrates e corre o risco de não ficar por aqui.

É possível manter o Estado social tal como ele existe na saúde, na educação?

Foram feitas reformas no sentido positivo e elogiadas pelas instituições internacionais. Portugal fez uma reforma da Segurança Social há pouco tempo, que foi apreciada e bem vista na OCDE, e garante a sustentabilidade durante muitos anos da Segurança Social. Agora se houver uma queda da taxa social única (TSU) não compensada por outro tipo de receitas é evidente que há um problema de sustentabilidade, mas é criado por essa descida da TSU sem contrapartidas e até agora o PSD foi incapaz de explicar com tenciona compensar.

Há margem para compensar essa receita perdida pela Segurança Social?

Se houvesse uma queda de quatro pontos, sem ser compensada, isso significaria que toda a reforma da Segurança Social que foi feita seria arruinada. Uma facada nessa verba seria muito grave.

Mas há margem para compensar?

O acordo que foi feito com a troika vai no sentido de que os aumentos que há em várias áreas - alguns, do meu ponto de vista, negativos para o país, como o caso do IVA sobre o gás e a electricidade - são para fazer uma consolidação orçamental mais rápida. Não são para compensar perdas de outros sectores.

O programa da troika prevê redução?

Mas diz que é necessário que o orçamento da Segurança Social não fique em causa e que haja uma substituição dessa receita. É isso que até agora o PSD não mostrou como vai fazer.

A proposta do PS também não é clara.

O PS não apresentou nenhuma proposta em matéria de TSU. Aquilo que diz é que a grande prioridade que o país tem é consolidar o orçamento o mais rapidamente que puder e no período definido com a troika. Havendo margem de manobra, é evidente que a TSU, se compensada por outros impostos, é positiva para o emprego e para as empresas. Mas não se pode pensar que é possível fazer tudo no mesmo movimento. Isso pode ser suicida.

A curto prazo não é possível?

Nos próximos dois ou três anos é muito difícil, que é para não dizer impossível, embora devam ser estudadas todas as hipóteses.


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