Saúde

Em Lisboa espera-se três meses por cuidados paliativos

por Marta F. Reis, Publicado em 21 de Maio de 2011   
Associação acusa governo de "baixar bitola" para poder dizer que Portugal é um país modelo
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Em Lisboa as listas de espera para acolhimento em unidades de cuidados paliativos rondam neste momento os três meses, revelou ontem ao i a presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP). No resto do país, o cenário não é melhor. Ontem a Deco, a partir de um inquérito realizado em 2010 junto de mais de 3700 médicos, enfermeiros e familiares de doentes terminais, concluiu que apenas 10% dos doentes em final de vida têm acesso a cuidados de qualidade, um número corroborado por Isabel Galriça Neto.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a cobertura deveria ser de 60%, o que faz com que todos os anos morram em Portugal 60 mil pessoas sem o acompanhamento desejado.

Esta semana, na inauguração de uma nova unidade da Cruz Vermelha, em Elvas, a ministra da Saúde sublinhou que a rede portuguesa é uma referência na OMS e para outros países. "O que posso dizer é que o nosso sistema é o mais adequado, porque privilegiamos o factor proximidade", disse Ana Jorge. Agora, além dos dados da APCP, o estudo da associação de defesa dos consumidores sublinha que as unidades de cuidados paliativos são cada vez mais procuradas e que a rede, além de não ter capacidade de resposta, piorou nos últimos cinco anos.

"Quando realizámos o último inquérito sobre o tema, as unidades públicas de cuidados paliativos eram em número reduzido. Desde então a resposta do sistema é ainda mais fraca", lê--se no estudo. "Muitos portugueses morrem sozinhos e em sofrimento físico e psicológico."

Esta não é a primeira análise negativa da realidade nacional. Um estudo publicado em Julho de 2010 pela revista "The Economist" revelou que em Portugal os cuidados paliativos estão ao nível do acompanhamento na Coreia do Sul ou na Malásia. Na altura, um ranking colocava o país na 31.a posição em 40, estando mesmo entre os três piores em termos de disponibilidade de camas (só à frente da China e da Rússia). O único critério em que Portugal aparecia entre os melhores era na administração de analgésicos.

Recordando estes resultados, Isabel Galriça Neto acusa o governo de "baixar a bitola" nos recentes comentários sobre a rede de cuidados continuados, que hoje também são prestados por privados mas permanecem, ainda assim, insuficientes. Para a especialista, a má referenciação e a excessiva burocratização do sistema são as principais lacunas. "Há doentes que são enviados para unidades a mais de 140 quilómetros de casa, quando a proximidade é um dos requisitos de qualidade."

Mas a falta de qualidade e o incumprimento das boas práticas internacionais é o sintoma mais flagrante, sublinha. Neste momento, segundo informação disponível no site da associação, só existem 19 unidades de cuidados paliativos no país a cumprir as boas práticas - leitura confirmada pela Deco, que conclui, por exemplo, que a componente de acompanhamento psicológico é praticamente "inexistente". Os números contrariam mais uma vez os do Ministério da Saúde, que numa avaliação publicada este mês refere a existência de 33 unidades com profissionais formados em cuidados paliativos e um total de 660 camas. Isabel Galriça Neto diz que em termos de camas específicas para estes doentes serão apenas 200, quando as recomendações também reconhecidas pela tutela apontam para 80 a 100 por milhão de habitantes.

"O estudo da Deco vem mostrar mais uma vez que o governo vive num país que não é o nosso e que há uma grande diferença entre o que é dito e o que é o país real", sublinha a responsável. Nos últimos meses, revelou a presidente, a associação tem recebido inúmeros telefonemas de familiares de doentes com patologia irreversível que não conseguem ter acesso aos cuidados. "Por causa dos atrasos, muitos acabam por chegar ao serviço mesmo no final da vida", diz.


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