O caso Strauss-Kahn e a boa imprensa latina

por Ana Sá Lopes, Publicado em 19 de Maio de 2011   
O "French denial", as proclamações bacocas sobre a honra de França e as sentenças Henri Lévy revelam uma doença profunda da Europa
Opções
a- / a+
O caso Strauss-Kahn veio destapar várias questões interessantes sobre intimidade, imprensa e/ou protecção de altas figuras do sistema.

A moral francesa pode ser caracterizada como um "don''t ask, don''t tell" - e é, de resto, muito parecida com a nossa. Os media, pelo menos os "de referência", têm uma jura implícita de protecção quase total da vida íntima de figuras públicas, com excepções que nunca foram suficientes para modificar a "regra". O adultério de políticos não é notícia em Portugal, como em França. Na minha opinião, muito bem.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, a cultura puritana anglo- -saxónica escrutina ao limite a vida pessoal de qualquer figura pública - o caso Clinton e toda a sordidez da divulgação do vestido de Monica Lewinski nunca passaria de uma história menor aqui ou em França. E mesmo o caso da "mentira" - em que se baseou o processo do procurador Starr - não é um valor nesta zona da Europa e muito menos sobre questões da intimidade. Se mentir em questões públicas nem sequer é um pecado extremamente penalizado pelo eleitorado - se não fosse assim, o PS não teria um estranho à-vontade nas sondagens -, como é que mentir sobre a vida íntima o seria?

Para um jornalista português ou francês, a maneira como os ingleses e americanos chafurdam nos detalhes da vida privada dos dirigentes partidários é quase obscena. Fora do reduto hipercomplexo da vida sexual - um lugar acima da razão, mas não da lei -, o exemplo típico é a doença: um jornalista português recusar- -se-á até ao limite, em regra, de revelar aspectos da vida clínica de qualquer dirigente, incluindo de um Presidente da República. Um americano não fará outra coisa senão obter todas as informações.

Esta lengalenga toda para defender que, a provarem-se as acusações da polícia americana contra o director do FMI, o "don''t ask, don''t tell" sobre a vida íntima falhou. Afinal, segundo o que a própria imprensa francesa agora tem, finalmente, revelado, Dominique Strauss-Kahn não era um "simples" mulherengo. As tentativas de violação e o assédio sexual marcaram a sua carreira e, aparentemente, o uso e os costumes mandaram calar as queixas.

De certa maneira, passou-se aqui o mesmo com o processo Casa Pia: fechámos, colectivamente, os olhos aos crimes denunciados muitos anos atrás em nome da inexistência social do crime de violação de menores - ir "aos meninos" não era bem um crime, como as tentativas de assédio sexual e de violação de DST não o eram em França.

O choque francês revela, em parte, esta realidade. O "French denial" e as proclamações bacocas sobre a "honra da França", misturadas com as patetices de Bernard-Henri Lévy a sentenciar que "os homens não são todos iguais" - isto na pátria da "egalité" de 1789 - revelam uma doença profunda da Europa. A América e a Inglaterra estão muito longe de ser sociedades perfeitas. Mas, neste caso concreto, Paris não vale uma missa.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close