Sócrates é o campeão da twittosfera, para o bem e para o mal

por Filipa Martins e Pedro Vaz Marques, Publicado em 19 de Maio de 2011   
Sistema desenvolvido por universidades portuguesas e norte- -americanas está a medir o número de referências no Twitter aos cinco principais líderes partidários
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Se as sondagens mais recentes indicam um empate técnico entre PS e PSD nas intenções de voto dos portugueses, na twittosfera José Sócrates é, de longe, o candidato às legislativas de 5 de Junho mais referenciado - quer positiva quer negativamente - pelos internautas. A conclusão é de um estudo levado a cabo pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em parceria com a Faculdade de Engenharia do Porto, a Universidade de Austin, Texas, e Universidade Nova de Lisboa. Desde o final de Abril, os responsáveis do Reaction - como foi baptizada a iniciativa - monitorizam diariamente as referências feitas aos cinco candidatos no Twitter e avaliam, posteriormente, se essas referências são negativas, positivas ou neutras. Os últimos dados a que o i teve acesso, referentes aos valores registados na última terça-feira, indicavam que o primeiro- -ministro demissionário, dentro do conjunto de referências a líderes dos partidos com assento parlamentar, obteve 54% das menções, uma maioria absolutíssima que compara com os 24% de Pedro Passos Coelho, 7% para Paulo Portas e Jerónimo de Sousa e apenas 5% para Francisco Louçã. No entanto, desde que há contagem de tweets, a vantagem de José Sócrates tem vindo a diminuir, quer no que diz respeito ao total das referências, quer no carácter positivo das menções (ver gráfico). Segunda-feira, aliás, deu-se uma inversão nos líderes, com Passos a passar para a frente da tabela no que diz respeito às referências positivas.

A explicação para este salto do líder do PSD não tem uma razão clara, segundo explica Pedro Magalhães, que no seu blogue, Margens de Erro, tem acompanhado a evolução do projecto Reaction. "Há muita volatilidade neste campo dos tweets, já que num dia as coisas são assim e no seguinte já não são", sustenta o politólogo ao i, acrescentando que "o número de referências tem a ver com eventos ou debates, já que a exposição mediática influencia o número de ocorrências". Basta uma breve pesquisa no Twitter para verificar que as referências aos diferentes líderes são influenciadas pelos frente-a-frente televisivos. Aliás, as menções aos líderes do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista são mais significativas quando Louçã ou Jerónimo participam num debate, enquanto Sócrates, Passos ou Portas são referidos também noutras ocasiões.

Mário Silva, professor catedrático responsável pelo estudo, garante que "Sócrates capitaliza mais de 50% das mensagens", mas que "é visível o efeito crescente de Paulo Portas, que está destacado face aos líderes dos dois partidos mais à esquerda".

Pedro Magalhães sublinha porém que esta análise na twittosfera é ainda muito recente e cobre poucos dias (desde finais de Abril), mas assinala uma tendência: "De facto parece haver um decréscimo das menções sobre José Sócrates e um aumento das referências a Passos Coelho, mas estes números não podem ser significativos."

positivo ou negativo Depois de um primeiro momento em que são identificados os alvos - que neste caso são os candidatos -, são, posteriormente, analisado o sentimento dos tweets, podendo estes ser positivos, negativos ou neutros. A identificação do sentimento é feita de forma automática, "através de regras lexicais e de sintaxe", explica Paula Carvalho, um dos rostos do projecto. José Sócrates volta a aparecer destacado neste segundo momento de análise, liderando as menções negativas e positivas. "Sócrates tem muitas menções em comparação com os restantes, e até mais que dois ou três deles somados, e por isso mesmo tem mais menções negativas", explica Pedro Magalhães. O politólogo sustenta que a leitura não pode ser linear: "Sócrates é quem tem proporcionalmente mais referências negativas, mas estudos mostram-nos que o mais importante na twittosfera são as ocorrências positivas." E aí a vantagem é também do primeiro-ministro demissionário.

Uma análise aos dados do Reaction mostra que as referências negativas na twittosfera são largamente superiores às positivas em todos os líderes. Pedro Magalhães não fica surpreendido, já que "há um enviesamento para a negatividade e as pessoas sentem-se mais atraídas para dizer mal do que para dizer bem. Isso é verdade noutros países e ainda mais em Portugal, devido à posição em relação à política e aos políticos e à situação de crise".

Os responsáveis pelo projecto recusam ver o Reaction como um barómetro do resultado das próximas eleições. "Não temos controlo sobre a população e a amostra é muito reduzida", justifica Mário Silva. Ainda assim o professor catedrático garante que "há uma correlação entre as mensagens positivas e a popularidade do alvo e o resultado final das eleições".

o que é o reaction? O projecto Reaction, que significa "Retrieval, Extraction and Aggregation Computing Technology for Integrating and Organizing News", é um sistema de medição de tweets referentes aos cinco líderes. O estudo é coordenado pelo professor catedrático Mário Silva e envolve equipas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da Faculdade de Engenharia do Porto, da Universidade de Austin, Texas, e da Universidade Nova de Lisboa. Para além do número de menções, o Reaction avalia também as referências positivas, negativas e neutras de cada um dos candidatos dos cinco maiores partidos. Neste momento, já são monitorizadas perto de 50 mil contas de Twitter.

Na página oficial do projecto, é explicado que "as notícias já não são apenas simplesmente produzidas e consumidas, mas pelo contrário tem evoluído num diálogo cooperativo entre os produtores de informação e o público em geral".

Os resultados têm sido publicados desde 29 de Abril, agora já em ritmo diário.


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