A Casa Pia para lá dos muros

por Ana Tomás, Publicado em 18 de Maio de 2011   
A Casa Pia abriu as portas de alguns colégios em Lisboa para mostrar as ofertas pedagógicas. O i foi ver como vive por dentro esta instituição com mais de 200 anos.
Opções
a- / a+

A Casa Pia de Lisboa esteve esta semana de portas abertas para mostrar as ofertas formativas e educativas da instituição, que comemora a 3 de Julho 231 anos.


O objectivo é focar a atenção no modelo de ensino e na oferta curricular que, a par do trabalho de intervenção social, continuam a fazer da instituição uma referência no panorama educativo, aliviando o peso da associação do nome Casa Pia ao escândalo de pedofilia que a mediatizou.


João Louro, coordenador do gabinete de comunicação e director do Centro Cultural Casapiano, reconheceu ao i que nos primeiros anos da divulgação pública do processo “houve algum impacto” na procura dos colégios da Casa Pia, mas também diz que “de há quatro, cinco anos para cá que o caso não tem tido repercussões” no funcionamento da instituição. João Louro acredita que a mudança se deve precisamente à oferta pedagógica e ao âmbito de intervenção social. “A Casa Pia continua a dar respostas no ensino técnico-profissional, tem uma grande diversidade de cursos e actividades curriculares e isso tem sido reconhecido”, refere, frisando a componente de intervenção social, que continua a ser a matriz e o factor distintivo.


O tipo de ensino e as ofertas curriculares são, por isso, integrados e congregam diferentes modelos, adaptados às necessidades, aspirações e contextos sócio-económicos dos alunos.


No Colégio Pina Manique, vocacionado para o ensino técnico-profissional, muitos dos jovens que ali chegam tiveram percursos no ensino regular, como revela Jorge Marcelo, assessor da direcção do colégio. “Temos alunos que muitas vezes já falharam no ensino regular ou no ensino profissional”, afirma, explicando que um dos problemas que muitas vezes esses alunos trazem é a assiduidade. Para contornar essa questão os estudantes casapianos podem compensar as faltas. "Existe uma bolsa de professores disponíveis à hora de almoço para que o aluno que faltou a uma aula ou actividade possa compensar”. Esta flexibilidade é justificada com o facto de o ensino modular, que enquadra os currículos técnico-profissionais, ser mais trabalhoso que o normal e ser necessário cumprir um módulo para passar à fase seguinte. Os alunos têm também possibilidade de fazer uma prova extraordinária de avaliação.


Outra das formas de ajudar os alunos a não perder a matéria são as aulas de estudo acompanhado, o clube da matemática e o clube das línguas, cujo objectivo é auxiliar alguns estudantes de origem africana e do leste europeu a compreenderem melhor a língua portuguesa.


Os cursos de Pina Manique dão equivalência ao 9º ano, com carteira profissional, e ao 12º ano com curso profissional. Entre os mais procurados estão os de Hotelaria, Restauração, Mecânica e Turismo, mas existem outros que, apesar de terem menos procura, são já uma referência da instituição e  atraem jovens oriundos de contextos económicos mais favorecidos, pelo grau de especialização que oferecem. É o caso do curso de Relojoaria, que já levou 25 antigos alunos a irem trabalhar para fábricas suíças de referência. Este foi, de resto, um dos cursos criados por proposta da Casa Pia ao ministério da Educação, assim como o de Óptica Ocular que, segundo Jorge Marcelo, é “o mais antigo em funcionamento do país”, e o de Técnico de Desporto e Condição Física, ainda em fase experimental. Os cursos de Electrotécnica e de Energias Renováveis são outras das ofertas de Pina Manique, que aposta num ensino de “saber fazer” para o qual contribui, na opinião de Jorge Marcelo, o investimento nas infra-estruturas desportivas, nas oficinas de trabalho e nos equipamentos. “Temos condições que mais nenhuma escola tem”, afirma.


Mas nem só de ensino profissional vive a Casa Pia de Lisboa. No Colégio Nuno Álvares Pereira, onde funcionam os cursos de pasteleiro/padeiro e empregado de bar, com equivalência ao 9º ano, é também leccionado o segundo ciclo do ensino regular (5º e 6º ano), ainda que de forma diferente de muitas das escolas tradicionais. As aulas de língua estrangeira, de português e de matemática são dadas de forma integrada, de acordo com o método construtivista, estando os alunos organizados em grupos e com mais do que um professor em sala. Os alunos são incentivados a participar, cabendo-lhes a escolha e o desenvolvimento de projectos, no âmbito do programa curricular.


Outra das valências mais significativas do Colégio Nuno Álvares Pereira é o ensino integrado da música, que contempla a aprendizagem de um instrumento (violino, violoncelo e viola) e já resultou na criação de uma orquestra, que tem também beneficiado da colaboração e dos ensinamentos dos músicos da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Um dos pisos do edifício do colégio, onde funcionava um dos lares da Casa Pia assemelha-se a um conservatório. Os antigos quartos deram lugar a pequenas salas de ensaio partilhadas por dois alunos, nas quais se pode praticar e aperfeiçoar a execução instrumental e onde nomes como Beyoncé rivalizam com Vivaldi nas preferências musicais dos pequenos instrumentistas.


A responsabilização e a cidadania completam os motivos de orgulho dos técnicos educativos da Casa Pia. Alguns dos alunos mais velhos actuam como monitores dos mais novos, acompanhando-os nos intervalos e nas refeições. Neste projecto, designado de Caminhos de Cidadania, são os alunos monitores aqueles que mais ordenam. As decisões são tomadas em conjunto, em reuniões compostas por docentes e estudantes, e na última foi a proposta destes que vingou.


A ligação à Casa Pia é feita desta forma, com acolhimento, motivação e responsabilização. Talvez por isso não seja de estranhar ver  no desfile que a instituição promoveu esta quarta-feira, a propósito do Dia Internacional dos Museus, alunos misturados com ex-alunos, funcionários e ex-funcionários. A Casa Pia é uma família, dizem. Unida, pelo que pudemos ver.

 



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close