Strauss-Kahn aguarda julgamento em prisão preventiva na Rikers Island

por Catarina Correia Rocha e Rui Catalão, Publicado em 16 de Maio de 2011   
O advogado de defesa diz que o patrão do FMI está "cansado, mas bem." O conselho de administração do Fundo Monetário Internacional adiou para hoje a reunião que deverá avaliar o futuro de Strauss-Kahn na instituição
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As autoridades policiais americanas e autoridades consulares francesas em Nova Iorque revelaram dois relatórios com detalhes das alegadas agressões perpetradas por Strauss-Kahn a uma empregada do hotel onde ficou hospedado na cidade.

 

Strauss-Kahn entretanto foi detido e vai aguardar julgamento em prisão preventiva, embora os procuradores do caso tivessem pedido um milhão de dólares de caução para aguardar julgamento em liberdade, noticiou a Reuters. Regressa ao tribunal de Nova Iorque no dia 20 de Maio. Enquanto isso, vai ocupar uma cela em Rikers Island, o mesmo estabelecimento prisional onde se encontra o português Renato Seabra, acusado de homicídio num hotel de Manhattan.

 

Strauss-Kahn é acusado dos seguintes crimes: Duas acusações de acto sexual criminoso em primeor grau; uma tentativa de violação em primeiro grau; abuso sexual em primeiro grau; sequestro em segundo grau com prova de ADN; abuso sexual em terceiro grau, com prova de ADN e contacto fisíco forçado com prova de ADN.

 

Segundo o relatório da polícia de Nova Iorque, o director do FMI terá molestado a empregada, agredindo-a e tentando sequestrá-la. "Quando a empregada entrou no quarto, Dominique Strauss-Kahn, homem branco de 62 anos, saiu nu da casa de banho, forçou a mulher em cima da cama e inseriu-lhe o pénis na boca. O homem pagou em seguida a sua conta de hotel e apanhou um avião no [aeroporto de] JFK, onde a Polícia da Autoridade Aeroportuária o extraiu do aparelho", pode ler-se no relatório.

 

"Foram descobertos vestígios de ADN (aparentemente de esperma) e as provas estão em curso de avaliação e comparação", indica também a mesma fonte.

 

Acerca da vítima da alegada agressão, apenas se sabe que é "uma mulher de 33 anos, de raça negra".

 

Dominique Strauss-Kahn poderá também ser alvo de novo processo judicial. A jornalista francesa Tristane Banon acusou o director do FMI de assédio sexual. Banon recorda uma entrevista que fez a Strauss-Kahn em 2002, em que o economista lhe “rompeu o sutiã e baixou as calças”. A jornalista, filha de um responsável do Partido Socialista francês, tinha na altura 23 anos.


Banon optou por não contar a história até 2007, ano em que revelou a tentativa de assédio, mas nunca o seu autor. Após a detenção de Strauss-Kahn em Nova Iorque, a jornalista afirmou que o seu agressor era o director do FMI.


David Koubbi, advogado de Banon afirma que a sua cliente está a ponderar processar Strauss-Kahn pelos acontecimentos de 2002.

 

A polícia norte-americana pediu um mandato para examinar o corpo de Dominique Strauss-Kahn antes da audiência em tribunal que vai definir a pronúncia do até agora director-geral do FMI. O objectivo é procurar arranhões no corpo de Strauss-Kahn ou ADN da mulher que apresentou queixa por agressão e tentativa de violação. "O nosso cliente aceitou um exame científico e forense, a pedido das autoridades e atendendo à hora concordámos em adiar a sessão até amanhã de manhã," declarou William Taylor à porta do Tribunal Criminal de Manhattan.

 

A alegada vítima de abuso sexual identificou esta tarde formalmente Dominique Strauss-Kahn no comissariado, disse hoje a polícia nova-iorquina. O exame do corpo servirá para fundamentar o caso.

 

Os advogados garantem que o seu constituinte está "cansado, mas bem". Já depois das 23h (4h da madrugada em Lisboa), Strauss-Kahn saiu algemado da esquadra onde permanecia desde a detenção. Desconhece-se se as perícias médicas serão feitas ainda durante a noite.

 

Tudo terá acontecido durante este sábado, num hotel em Times Square. De acordo com os jornais norte-americanos,Strauss-Kahn forçou uma empregada do hotel Sofitel a praticar sexo oral pouco antes de o francês seguir para o aeroporto John F. Kennedy.

Já no avião da Air France, prestes a partir para Paris, o director-geral do Fundo Monetário Internacional foi detido pela polícia nova-iorquina, que depois o levou para interrogatório. A vítima, por outro lado, foi transportada para o Roosevelt Hospital para receber tratamento e aconselhamento psicológico.

"Ele cooperou", disse John Kelly, porta-voz da Autoridade Portuária de Nova Iorque e Nova Jérsia. "O pessoal de cabine estava prestes a fechar as portas." Strauss-Kahn abandonou o avião sem algemas, acompanhado por dois agentes, por volta das 16h45 (hora local), momentos antes de o avião começar a abordagem à pista para a descolagem.

O ataque sexual terá acontecido perto das 13h00. Na descrição da empragada do hotel, o patrão do FMI viu a empregada no quarto numa altura em que saía, nu, da casa de banho.Nesse terá agarrado a camareira, deitando-a na cama, forçando a prática de sexo oral. Quando conseguiu escapar, a empregada de 32 anos lançou o alerta no hotel e a polícia foi de imediato chamada ao local. Já o político francês abandonou o hotel sem o telemóvel. "Parece que saiu dali à pressa", reconheceu Paul Browne, porta-voz da NYPD.

 

Benjamin Brafman, advogado de Strauss-Kahn, já confirmou que o seu cliente "vai declarar-se inocente". Já Jean Veil, outro advogado ligado ao director-geral do FMI, diz que "é preciso esperar até as coisas assentem e ver se é verdade ou uma provocação". "Temos de ser especialmente cuidadosos para não entrar num circo mediático e temos de esperar até as coisas serem esclarecidas."

 

 

Strauss-Kahn pode ser dispensado por "violação grave do código de conduta"

Num primeiro comunicado emitido por Caroline Atkinson, directora de Relações Externas do FMI, o organismo confirma a detenção do seu presidente, mas rejeita comentar o caso. O FMI continua "totalmente operacional", garante a porta-voz.

 

Mesmo assim, este processo pode conduzir à dispensa de Dominique Strauss-Kahn do lugar de presidente do FMI. Os factos que servem de base à acusação são suficientes para a organização avançar com demissão do francês.

 

Por agora, o FMI pode funcionar sem a sua figura máxima. Na ausência de Strauss-Kahn é John Lipsky, o primeiro director-geral adjunto, quem assume a liderança do organismo. A substituição já foi confirmada em comunicado pelo FMI. Resta saber se será Lipsky a marcar presença na reunião do Eurogroupo, marcada para amanhã, em Bruxelas.

 

Estava prevista para este domingo uma reunião da administração do FMI, mas esta foi adiada até haver decisão do tribunal, anunciou esta noite a organização. Definida ficou já a operacionalidade do fundo: "De acordo com os procedimentos normais do FMI, o director-geral adjunto John Lipsky vai assumir o cargo de director-geral interino quando o director-geral não estiver em Washington. Lipsky vai presidir à reunião informal do conselho de administração," lê-se num comunicado emitido durante a tarde.

 

 

Principal adversário de Sarkozy em 2012
Além de estar à frente do organismo que comandou os processos de resgate à Grécia, à Irlanda e a Portugal, Strauss-Kahn, de 62 anos, é também uma figura de proa no Partido Socialista francês. Muitos consideram-no o principal adversário de Nicolas Sarkozy nas próximas eleições presidenciais, em 2012. As sondagens têm apontado, aliás, para uma vitória sobre o actual chefe de Estado francês à segunda volta. Ainda assim, a candidatura do socialista ainda está por oficializar.

Formado em Economia, juntou-se ao partido em 1976 e foi deputado no parlamento pela primeira vez em 1986. Chegou a um lugar no governo (ministro da Economia, Finanças e Indústria) com Lionel Jospin, em 1997. Nessa altura ganhou crédito no país pelo processo de preparação para a adopção do euro, com a redução do défice e a influência sobre Jospin na assinatura de um pacto europeu em matéria de prudência fiscal. Strauss-Kahn abandonaria o cargo em 1999, depois de ser implicado num escândalo de corrupção. Mais tarde acabou por ser ilibado em tribunal.

Em 2006 falhou a nomeação como candidato socialista às presidenciais, depois de perder as primárias para Ségolène Royal. Em Julho desse ano assumiu a liderança do FMI, com o apoio de Sarkozy. Este terá sido um movimento estratégico do presidente para afastar Strauss-Kahn do panorama político francês.

 

 

Reincidente em escândalos sexuais
Em 2008 correu a informação de que Strauss-Kahn teria uma relação com uma subordinada (Piroska Nagy, funcionária do departamento africano do FMI). O organismo investigou o caso, Nagy trocou o FMI pelo Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento e o presidente manteve o lugar - escapou apenas com um pedido de desculpas, por um "sério erro de avaliação".

Dominique Strauss-Kahn é casado Anne Sinclair, conhecida jornalista francesa que colabora com o Canal Plus e o "Journal du Dimanche". O casal tem quatro filhos. "Não acredito sequer por um segundo nas acusações levantadas contra o meu marido. Não duvido de que a sua inocência será provada", disse Sinclair em comunicado.

 

 

"Notícia caiu como uma trovoada", diz líder do Partido Socialista

O governo francês recomendou "prudência na análise, nos comentários e nas consequências". O porta-voz François Baroin afirma que "a posição do governo francês respeita dois princípios: um processo legal sob a autoridade da Justiça norte-americana... e o respeito pela presunção de inocência".

 

Martine Audry, líder do Partido Socialista francês, diz-se "estupefacta". "As notícias que nos chegaram de Nova Iorque esta noite caíram como uma trovoada. Eu própria estou totalmente estupefacta. Esta notícia é um choque que nos desconcerta. Creio que temos de ser contidos, aguardando com prudência e decência."

 

Jean-Marie Le Guen, membro do mesmo partido, também reagiu à notícia. "Agora há uma campanha totalmente estrutura e orquestrada, que já foi anunciada pelo senhor Sarkozy e pelos seus aliados mais próximos, para atacar o carácter de Strauss-Kahn", disse à rádio Europe 1.

 

A adversária de Strauss-Kahn nas primárias de 2006 classificou de "perturbadora" esta notícia. Ségolène Royal diz que "DSK [sigla pela qual é conhecido Dominique Strauss-Kahn] tem direito como qualquer candidato à presunção de inocência enquanto os factos não são provados. O meu pensamento neste momento vai para a família, para os próximos e também para o homem que atravessa esta provação. Este homem e a sua família têm de ser respeitados. Não quero tirar proveito do que aconteceu."

 

A posição do partido de Nicolas Sarkozy também já foi conhecida, através de Renaud Muselier. "É um desastre para o nosso país e a para a imagem da França", disse o deputado da UMP

 

Marine Le Pen, líder da Frente Nacional, entende que este caso põe fim às esperanças eleitorais de Strauss-Kahn. "O caso e as acusações... marcam o fim da sua campanha e pré-campanha para a presidência e o mais provável é que o FMI lhe peça para abandonar o seu lugar."

 



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