Jornal i/The New York Times
A insensatez das elites
por Paul Krugman, Publicado em 13 de Maio de 2011
Ao tentar transferir a culpa para a população em geral, as elites estão a evitar a tão necessária reflexão sobre os seus próprios erros catastróficos
Os últimos três anos foram um desastre para a maioria das economias ocidentais. Os Estados Unidos têm uma enorme taxa de desemprego de longa duração pela primeira vez desde os anos 1930. Entretanto, a moeda única da Europa, ao que parece, está a desmoronar-se. Como é que tudo correu tão mal?
Bem, o que ouço, cada vez mais com mais frequência, dos membros da elite que define as políticas - sábios autonomeados, dirigentes e homens educados que caíram nas boas graças - é a alegação de que a culpa é, principalmente, do público. A ideia é que chegámos a esta confusão porque os eleitores queriam alguma coisa em troca de nada e políticos pouco inteligentes foram atrás da loucura do eleitorado.
Parece assim uma boa altura para notar que esta visão "culpemos o público" não é apenas egoísta, é completamente errada.
A verdade é que o que estamos agora a viver é um desastre de cima a baixo. As políticas que nos levaram para esta confusão não foram uma resposta às exigências do público. Houve, com algumas excepções, políticas defendidas por pequenos grupos de pessoas influentes - em muitos casos, as mesmas pessoas que agora dão sermões a todos nós sobre a necessidade de haver seriedade. E ao tentar transferir a culpa para a população em geral as elites estão a evitar a tão necessária reflexão sobre os seus próprios erros catastróficos.
Permitam-me que me concentre no que aconteceu no Estados Unidos e depois diga algumas palavras sobre a Europa.
Por estes dias, os americanos passam a vida a receber sermões sobre a necessidade de reduzir o défice orçamental. Tal enfoque representa, por si só, prioridades distorcidas, já que a nossa preocupação imediata devia ser a criação de emprego. Mas suponhamos que nos limitamos a falar do défice e perguntemos: O que aconteceu ao superavit orçamental que o governo federal tinha em 2000?
A resposta divide-se em três partes. Primeiro, houve os cortes nos impostos de Bush, que acrescentaram, aproximadamente, 1,4 biliões de euros à dívida nacional ao longo da última década. Segundo, houve as guerras no Iraque e no Afeganistão, que acrescentaram, mais ou menos, 800 mil milhões de euros. E terceiro, houve a Grande Recessão, que levou ao colapso das receitas e ao aumento agudo dos gastos em subsídios de desemprego e outros programas de Segurança Social.
Quem foi então o responsável por estes desastres orçamentais? Não foi o homem da rua.
O presidente George W. Bush baixou os impostos para servir a ideologia do seu partido, não como resposta a uma vaga de exigência popular. E a maior parte das reduções foi para uma pequena e abastada minoria.
Paralelamente, Bush decidiu invadir o Iraque porque era algo que ele e os seus conselheiros queriam fazer, não porque os americanos clamavam pela guerra contra um regime que nada tinha a ver com o 11 de Setembro. Na realidade, foi preciso uma campanha fraudulenta para levar os americanos a apoiarem a invasão e, mesmo assim, os eleitores nunca endossaram tão solidamente a guerra quanto a elite política americana.
Finalmente, a Grande Recessão foi causada por um sector financeiro descontrolado, alimentado por uma desregulamentação negligente. E quem foi responsável por essa desregulamentação? Pessoas poderosas de Washington com ligações à indústria financeira, foi o que foi. Permitam-me que grite com Alan Greenspan, que teve um papel crucial quer na desregulamentação financeira quer na aprovação das reduções fiscais de Bush e que agora está, claro, entre aqueles que tentam intimidar com o défice.
Assim, foi o fraco discernimento da elite, não a ganância do homem comum, que causou o défice da América. E o mesmo é verdade quanto à crise europeia.
Nem vale a pena dizer que não é isso que ouvimos da boca de quem define as políticas europeias. Por estes dias, a história oficial na Europa é que os governos das nações em apuros atenderam demasiado às massas, prometendo muito aos eleitores e recolhendo pouco em impostos. E esta é, para sermos justos, uma história razoavelmente fiel do que aconteceu na Grécia. Mas não é, de todo, o que aconteceu na Irlanda e em Espanha, ambos com uma dívida baixa e superavits orçamentais nas vésperas da crise.
A verdadeira história da crise da Europa é que os líderes criaram uma moeda única, o euro, sem criarem as instituições que eram necessárias para lidar com os altos e baixos da zona euro. E o desejo de possuir uma moeda única europeia foi o decisivo projecto feito a partir de cima, uma visão de elite imposta a eleitores altamente relutantes.
Isto importa para alguma coisa? Porque devemos nós preocupar--nos com a tentativa de transferir a culpa das más políticas para o público em geral?
Uma das razões é, simplesmente, a responsabilidade. As pessoas que defenderam políticas prejudiciais ao orçamento durante os anos de Bush não deviam ser autorizados a fazerem-se passar por falcões do défice; as pessoas que louvaram a Irlanda como um modelo a ser seguido não deviam dar sermões sobre governação responsável.
Mas a maior resposta, acho, é que ao inventar histórias sobre a actual e difícil situação que absolvem as pessoas que nos puseram lá invalidamos qualquer hipótese de aprender com a crise. Necessitamos de colocar a culpa onde ela deve estar, para castigar as nossas elites políticas. De outra forma, elas causarão ainda danos maiores nos anos que temos pela frente.
Economista Nobel 2008
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