Num debate em que José Sócrates e Francisco Louçã lutaram para captar o eleitorado de esquerda, o líder dos bloquistas jogou sempre ao ataque e já levava no bolso um dos temas que dominaram o frente-a-frente: uma carta dirigida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em que o governo admitia “grande redução das contribuições patronais para a Segurança Social”.
“Queria ter uma conversinha sobre Segurança Social”, disse Louçã logo a abrir o debate, questionando o primeiro-ministro sobre “quanto e porquê” pretende reduzir a taxa social única (TSU).
O primeiro-ministro, que foi confrontado com esta questão várias vezes ao longo do debate, disse que “qualquer redução da TSU deve ser feita quando houver margem orçamental”, defendendo que o acordo com a troika deixa “margem” para outras opções, como a “reestruturação do IVA”.
Sócrates admitiu, porém, estudar uma “redução gradual” da TSU, mas criticou o PSD por querer “transferir impostos das empresas para impostos de todos os cidadãos”. Passos Coelho foi, aliás, o ausente mais presente no debate, através das críticas do primeiro-ministro.
Louçã não largou o tema e – lembrando que a descida da TSU não consta do programa dos socialistas – insistiu no pedido de explicações ao primeiro-ministro demissionário. “Apresentou uma proposta, mas não a estudou?”, disse o coordenador dos bloquistas, que conseguiu dominar completamente a primeira metade do debate.
Sócrates, que não disfarçou algum embaraço por não ter uma resposta concreta, acabou por dizer que “o governo não deseja reduzir a TSU com um brutal aumento de impostos”: “É preciso estudar e veremos.”
O primeiro-ministro recorreu nesta fase do debate ao mesmo truque que usou com Paulo Portas, ao lembrar que os bloquistas ainda não têm programa eleitoral, mas esteve longe de conseguir o mesmo efeito. “Não acho leal vir para o debate sem ter um programa. Os debates estão marcados há muito tempo”, considerou. Na resposta Loução ironizou: “Não vai mostrar uma pastinha?”
Apontando espingardas às questões ideológicas, Sócrates atacou o Bloco de Esquerda por defender a reestruturação da dívida e por não apoiar as políticas sociais que o governo concretizou nos últimos anos. Numa tentativa de apelar ao voto útil, o candidato do PS falou, por mais de uma vez, de medidas como o complemento solidário para idosos ou a aposta na educação e na saúde. “Francisco Louçã quer apenas criticar”, disse Sócrates, que recorreu à moção que o coordenador do BE apresentou na Convenção Nacional. “Fui ver a sua moção e diz que o problema de Portugal é a sua burguesia. Não compreendo esta linguagem”, disse o líder dos socialistas, tentando colar o BE a uma atitude mais radical.
Depois acusou os bloquistas de – ao defenderem a reestruturação da dívida – promoverem uma solução “absolutamente irresponsável” que levaria “ao desemprego e à miséria”, tal como aconteceu em outros países que seguiram este caminho.
Louçã defendeu-se com o argumento de que é necessário garantir “juros mais baixos e prazos mais dilatados”.
Sócrates insistiu nesta proposta do BE e acusou Louçã de ser responsável pela vinda do FMI para Portugal por ter chumbado o PEC IV: “O BE foi sempre radical, cego e ultra-ortodoxo.”
Este foi, até ao momento, um dos debates mais agressivos da campanha. Ao ritmo com que decorreu o frente-a-frente não será alheio o facto de ser decisivo para o PS e para o BE captar o eleitorado de esquerda: o_PS para vencer as eleições e o BE para não descer em relação às últimas legislativas.




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