Nesta praça algum guerrilheiro urbano pôs um sinal que diz: Portugal - "Portugal" está escrito de pernas para o ar. O que te passa pela cabeça agora? Nenhuma ordem nas ideias e, no entanto, sentes tantas coisas.
Deixa-te ir, logo verás. Ouviste Uiu, grafitter português, dizer: "O meu trabalho tem a ver com a espontaneidade, algo que tens em criança e que vais perdendo." Por isso, vá, associa mais ideias livremente: esta praça celebra a Restauração da Independência, a recuperação da soberania face a uma potência estrangeira.
Foi aqui que vieste ao cinema com o teu pai, deslumbrado com os cartazes do Condes. Esse país já não existe. Vês os imigrantes que esperam na Loja do Cidadão e imaginas as beldades que mergulham nas piscinas dos hotéis.
Nesta praça, pensas, cabe o país que somos agora. Metáfora fácil, não? Vá, esquece as figuras de estilo, sê a criança espontânea: estás virado para o Marquês, que ergueu a cidade depois do terramoto. Nas tua costas há uma estação de comboios e, mais ao fundo, o cais das colunas e os navios.
O Marquês ordena que fiques. O Tejo pode levar-te a muitos lados. Mais uma metáfora para o estado das coisas. É melhor desistir, talvez não possas ser tão puro e espontâneo como gostarias.
Tens a certeza disso quando te aparece outra metáfora de Portugal. Recorres às palavras de Banksy, grafitter, para explicar, por fim, o que se passa neste país de artistas do engano, aquilo que, em dias como hoje, te oprime o peito: "Se te tornas bom a enganar os outros, nunca será preciso que te tornes bom em mais nada". Escritor
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