Escolher um clube não é difícil, nunca foi. A dificuldade está em convencer alguém a optar por um clube. Vamos por partes, convencer crianças inocentes a ser do clube do pai, do tio ou do avô em troca de um chocolate Regina ou de uma bicicleta com rodinhas não entra neste esquema.
Há inúmeras situações que nos fazem escolher um clube. Na cultura portuguesa, ser dos melhores é um passo quase fundamental para a escolha final. É raro encontrar uma criança de seis anos a dizer que é do Farense só porque sim. Por outro lado, a partir do momento em que a escolha está feita, dificilmente é alterada.
Quantos de nós entraram numa discussão, ainda crianças, sobre qual seria o melhor clube? Quantos de nós terminámos essa discussão com um resignado "Tens razão. O teu clube é muito melhor que o meu, vou mudar"? Isso não acontece, a escolha de um clube é algo pessoal e, salvo raras excepções, não se encontram pessoas na rua a dizer que eram do clube x e passaram para o y pouco depois.
As crianças têm várias razões para escolher um clube. A influência dos pais está no topo. Há quem faça os filhos sócios desde o nascimento para evitar confusões no futuro. Por outro lado, também já ouvi amigos dizerem que quando tiverem um filho, a primeira coisa que vão fazer é torná-lo sócio do FC Porto para não terem de sofrer o mesmo que os pais sofreram.
Não havendo influências exteriores, as crianças tendem a escolher as equipas que ganham. Naquelas idades, ninguém gosta de ser o bobo da corte, ninguém gosta de ser da equipa que termina com uma descida de divisão ou invariavelmente fora da luta pelo título. Apoiar aqueles que ganham até pode ser um importante factor na construção de uma auto-estima considerável. Sofrer por uma equipa que perde sempre nos últimos minutos e é vítima do azar leva a criança às lágrimas.
Depois, há a experiência. Aqueles que são de um clube porque quando eram pequenos tiveram um episódio que os marcou. "Tinha seis anos, passava a vida a jogar futebol e o meu tio levou-me a um jogo do Belenenses. O estádio era bonito, via-se o Tejo e a ponte e no meio-campo havia um médio que fazia delícias com a bola. E marcou um canto directo" pode ser suficiente para encantar uma criança e torná-la adepta.
Sou de uma geração, nascida em 1985, em que era muito difícil ser do Sporting. Ainda assim, sempre tive muitos sportinguistas na minha turma. É natural que alguns fossem influenciados pelos pais, mas outros ficaram leões apenas por Balakov. Ou Figo. Ou Sá Pinto. Um jogo, uma exibição, uma filosofia poderão ser suficientes para ganhar adeptos. Mesmo que não haja títulos.
O Barcelona está prestes a ser tricampeão espanhol e já conquistou fãs por todo o mundo. Mesmo aqui no i, há quem sofra e tenha discursos tão facciosos como qualquer outro benfiquista, sportinguista ou portista. Há várias razões para seguir o Barcelona desta forma mas não se trata apenas de uma questão de ganhar ou perder. Regressando mais uma vez à minha geração, houve um período em que os jogos da Liga Espanhola davam na TVI. Na altura, os catalães davam espectáculo e havia um tal de Ronaldo que somava maravilhas de golos atrás de maravilhas de golos. Só o cromo da Panini valia o espanto durante a semana na escola. E, feitas as contas, esse Barcelona de sonho ficou atrás do Real Madrid. Apesar disso, naquela altura, eram mais os fascinados pelo Barcelona do que os que tinham ficado adeptos dos campeões.
É este o encanto da escolha de um clube. Felizmente, posso dizer que não sou de um clube só porque o meu pai me levou a isso (sinceramente, serão poucos os da minha idade que sejam genuinamente do Atlético Clube de Portugal) ou porque foram os que ganharam quando comecei a ver futebol. No meu caso, tudo se deveu a uma experiência. E não me importo de descer em anos consecutivos porque há ligações que não acabam.




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