Música
Não é com falinhas que se amansa este lobo da guitarra
por Maria Ramos Silva, Publicado em 10 de Maio de 2011
"Fala Mansa", terceiro álbum a solo de Noberto Lobo sobe amanhã ao palco do Trindade
Uma rendilhada prosa biográfica serve tanto para esclarecer a imprensa como para desanimá-la. Por via das dúvidas, é preferível acomodar o CD no leitor antes de desdobrar qualquer folha de papel, não vão expressões como "ascese", "transcendência" ou "o fruto - ou a semente, como se queira ver - que justifica a árvore", viciar injustamente a deliberação do ouvinte. "O Norberto raramente fala sobre os seus concertos a solo", lê-se à cabeça da nota que nos chega às mãos.
"Isso vem no press? Pois, o João escreve essas coisas e depois tenho que explicar. Gosto de falar dos concertos; não há é muitas oportunidades para falar deles. Na verdade, também o que há para dizer?", lembra com oportunidade o instrumentista, o compositor, o músico, ou um regimento de "palavras diferentes para definir a mesma coisa"; o tipo simpático para quem uma guitarra nas mãos é sempre mais confortável que um telefone encostado à orelha. Compreende-se. E o João que não leve o desabafo a peito.
Norberto Lobo, que nos sugeriu "Mudar de Bina" (Borland, 2007) e puxou as orelhas às pressas em "Pata Lenta" (Mbari, 2009), não precisa de escribas zelosos, de letras encavalitadas em linhas menos prodigiosas que a sua tambura, ou que o cheiro dos dedos no piano e teclados, uma estreia para confirmar neste terceiro álbum sem Norman ou Tigrala.
O melhor que Norberto nos dá chega ao ouvido. E é lá que se demora com um certo "Aconchego Solar" permeável a "Chuva Ácida" e embalado por um "Requiem para as Abelhas". É assim a "Fala Mansa", título de uma das onze faixas que dá nome a um apanhado de ternura e melancolia, segundo sugestão de um encartado em ideias felizes, o irmão. "Acho que acertou na mouche com o título. Fala do álbum como um todo, talvez até de uma maneira irónica."
A Fala ensaia um "Charleston para Jack" e uma "Balada para Lhasa", homenagens a Jack Rose e Lhasa de Sela, "pessoas com quem tive a felicidade de me cruzar num momento ou outro, e que aprecio muito". E serve "Chao Min de Luz", preciosa iguaria que qualquer restaurante chinês se orgulharia de ter reservado na sua ementa. De alguma maneira, Fala Mansa é para degustar com a subtileza de uns pauzinhos, ferramenta tão minimal quanto sofisticada que testa o nível de empenho à mesa.
A gravação do disco decorreu mais em cenário de migas, ou de refeições rápidas, que de pato à Pequim. Foi numa casa particular, nas redondezas de Mértola, numa semana de Janeiro, por "sugestão do engenheiro de som que gravou o disco, pelas qualidades acústicas especiais da casa", que Norberto se juntou a Pedro Magalhães, Eduardo Vinhas e ao crepitar da lareira. "Durante o processo de gravação propriamente dito estamos bastante absortos naquilo, e quase não fazemos mais nada. Claro que às vezes fazemos uma pausa para uma bucha e damos um passeio para desentorpecer as pernas."
O novo álbum é lançado amanhã, dia da apresentação ao vivo em Lisboa, no Teatro da Trindade. A guitarra segue viagem para o norte, onde actua dia 14, na sala do Passos Manuel, no Porto. Até ao final do ano, vai andar entre cá e lá. "Tenho umas datas separadas e em Setembro está previsto um tour europeu."
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