O economista e conselheiro de Estado Bagão Félix apoiou, em declarações à agência Lusa, a criação em Portugal de um museu da dívida externa, que tenha uma função pedagógica e mostre a evolução do endividamento português ao exterior.
“É bom aprender com as coisas do passado, com as dificuldades, com as soluções que se encontraram ao longo da história económica portuguesa”, afirmou Bagão Félix, acrescentando que “um acervo, um estudo completo e sistematizado seria um instrumento bastante interessante e bastante pedagógico para evitar situações no futuro”.
Depois de ter declarado a maior bancarrota da história, em 2001, a Argentina criou, em 2005, o Museu da Dívida Externa, na Universidade de Buenos Aires, e que reúne documentos, peças de arte, material gráfico e um centro de informação, para além de organizar atividades académicas e de investigação relacionadas com o tema, com o objetivo de dar a conhecer a origem e as implicações do endividamento externo do país.
Em Portugal, Bagão Félix considerou que “a sistematização e a continuidade um trabalho desses é bem vinda e pode ser uma ferramenta bastante útil para o futuro, sobretudo para não repetirmos erros. Todos cometemos erros, seja qual for a função que tenhamos, mas o grave não é cometê-los, é repetir os mesmos erros”.
Bagão Félix, antigo ministro das Finanças, afirmou ainda que um museu da dívida externa ganharia ainda em uma componente sobre a dívida pública que, frisou, é “um aspeto importantíssimo” para avaliar as dificuldades e a saúde financeira de um país.
“Neste contexto muito concreto em que o país vive, a dívida pública, como é em parte muito significativa adquirida por não-residentes, transforma-se em dívida externa e tem, por isso, consequências quando compararmos o produto interno bruto (PIB) com o rendimento nacional bruto. Como parte dos juros da dívida pública são pagos ao exterior, parte do PIB criado em Portugal não fica cá e, portanto, o rendimento nacional bruto tende a ser inferior PIB”, considerou.
O conselheiro de Estado admitiu que o português – e contribuinte - comum está “muito longe” de conhecer os mecanismos que regulam e influenciam a dívida externa, apesar de uma maior consciencialização, em resultado da situação em que Portugal se encontra.
“A dívida externa é não só do Estado mas também da banca, das empresas, das famílias. É bom que a população portuguesa tenha maior consciência disso para - sem defender uma perspetiva de autarcia económica - procurar valorizar bens que sejam produzidos em Portugal”, concluiu Bagão Félix.
O economista Luís Mira Amaral rejeita a possibilidade de criação de um museu da dívida externa em Portugal, o que defende ser uma ideia "péssima e perigosa" pois pode comparar a situação portuguesa com a da Argentina.
Maria Filomena Mónica considera a criação de um museu da dívida externa em Portugal "uma ideia disparatada", defendendo que o papel pedagógico sobre a situação pertence a uma "oposição decente" que, se vigiasse as contas, evitaria a intervenção externa.
A criação de um museu da dívida em Portugal pode ser um projeto interessante para o ISEG desenvolver daqui a algum tempo e de forma construtiva, admitiu João Duque, presidente do Instituto Superior de Economia e Gestão.




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