Religião

D. Policarpo faz primeiro aviso aos bispos: não se metam na política

por Rosa Ramos, Publicado em 04 de Maio de 2011   
O Cardeal-patriarca é o novo presidente da CEP. Vaticano vai pensar duas vezes antes de aceitar resignação pedida em Fevereiro
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O cardeal-patriarca de Lisboa é, desde ontem, o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). D. José Policarpo foi eleito à terceira volta, ontem de manhã, durante a 177.a assembleia plenária da CEP - substituindo o arcebispo de Braga, D. José Ortiga, que esteve à frente do organismo em que têm assento os bispos portugueses nos últimos dois mandatos. Para vice-presidente, a escola dos prelados recaiu em D. Manuel Clemente, o bispo do Porto, que passa a ocupar o cargo até agora desempenhado pelo bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto. Quem se mantém no mesmo lugar é o padre Manuel Morujão, secretário e porta- -voz da CEP.

O cargo de chefia dos bispos portugueses não é novidade para D. José Policarpo, que foi eleito presidente da Conferência Episcopal em 1999 e reconduzido no cargo em 2002. O cardeal-patriarca só foi escolhido, soube o i junto de um dos bispos presentes na assembleia, à terceira volta, apesar de ter ganho nas primeiras duas votações. À terceira foi a votos só com D. Manuel Clemente.

Primeiro recado Ontem, D. José Policarpo falou aos jornalistas e admitiu que Portugal "está a viver um momento muito próprio". Por isso, continuou, a Igreja "não pode cair na tentação" de fazer intervenções "no campo estritamente político ou partidário, dado que não é nossa função em nome da natureza e do nosso ministério". O cardeal sublinhou, no entanto, que a Igreja deve ter um papel na "pré- -política", ajudando a esclarecer as pessoas no que se refere "aos valores".

É o primeiro recado deixado aos bispos portugueses e surge um dia depois de o arcebispo de Braga ter proferido um discurso bastante político. Anteontem, D. Jorge Ortiga falou sobre as consequências de legislação recentemente introduzida em Portugal que "atenta contra a família". O discurso do arcebispo não terá caído bem junto de alguns colegas. "O que é natural, porque há várias interpretações sobre qual deve ser o papel da Igreja na sociedade portuguesa, em tempos tão conturbados", justifica fonte ligada ao episcopado. Uma das preocupações do cardeal-patriarca deverá ser, de agora em diante, "harmonizar" as diferentes posições dos bispos.

D. José reconheceu que outro desafio será redefinir a intervenção da CEP na Igreja em Portugal. Este tem sido, aliás, um dos assuntos mais debatidos pelos bispos. A CEP, fundada há cerca de 50 anos, foi criada para que os bispos traçassem planos comuns para as suas dioceses. Contudo, alguns defendem que a Conferência "começa a ter um papel de substituição das dioceses", explica a mesma fonte. Terminar com essa "perda de autonomia" será um dos objectivos de D. José Policarpo.

Vaticano pode repensar renúncia D. José Policarpo completou 75 anos em Fevereiro e pediu resignação do cargo de patriarca de Lisboa, como manda o direito canónico. Contudo, e como i avançou na altura, é quase certo que se mantenha no lugar pelo menos por mais dois anos. Ainda assim, o mandato de presidente da CEP dura três. Caso o Vaticano aceite o pedido de resignação, a CEP terá de escolher um novo líder, até porque os bispos eméritos perdem determinados direitos dentro da Conferência Episcopal. "Não quero de maneira nenhuma que aceitar este mandato de três anos como presidente possa ser interpretado como pressão para prolongar o meu mandato como patriarca de Lisboa", disse D. José Policarpo aos jornalistas depois da eleição. Embora não haja uma relação directa entre os dois cargos, fonte ouvida pelo i acredita que o Vaticano "poderá atender ao facto de D. José estar na liderança da CEP para o manter por mais algum tempo no cargo de cardeal-patriarca". Uma orientação que não surpreende, já que a regra que tem sido utilizada pelo Vaticano em relação aos cardeais aponta para que se mantenham no cargo por mais dois a três anos além dos 75.

Lugares por ocupar Ontem foram também eleitos os membros do conselho permanente da CEP. D. Jorge Ortiga, D. António Marto e o bispo do Algarve, D. Manuel Quintas, estreiam-se nos cargos, juntando-se ao bispo de Setúbal, D. Gilberto Reis, que já tinha assento no conselho. Por eleger ficaram os nove presidentes das comissões da CEP, uma vez que, explicou o padre Manuel Morujão, os bispos preferiram "esperar pela nomeação dos bispos que estão em lista de espera". Recentemente foi escolhido o novo bispo de Coimbra, mas as dioceses de Lamego e de Bragança continuam à espera de liderança.

Para Junho está prevista uma reunião extraordinária da CEP, mas é pouco provável que, até lá, já estejam escolhidos os novos bispos. No caso de Lamego, por exemplo, só na semana passada começaram as primeiras consultas para proceder à nomeação. "O processo pode demorar quatro, cinco meses a partir de agora", explicou ao i fonte da diocese.


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