Entrevista
Vik Muniz. "O humor é a ferramenta de sobrevivência na lixeira"
por Maria Ramos Silva, Publicado em 28 de Abril de 2011
Vestem as fatiotas que encontram e despistam a origem do lixo como ninguém. Vik fez arte com a vida dos catadores do Rio. O filme estreia hoje
Somos o que produzimos. E talvez até sejamos mais aquilo que deitamos fora. Vik Muniz, o artista brasileiro radicado em Nova Iorque que fez réplicas da Mona Lisa em manteiga de amendoim e fixou retratos em açúcar, passou dois anos no maior aterro do Rio de Janeiro a fotografar a rotina, ora briosa ora envergonhada, de quem separa dejectos. João Jardim filmou o "Lixo Extraordinário" do Jardim Gramacho - que chega hoje aos cinemas. Um trabalho sujo, que alguém tem de fazer. Ou tinha, porque alguns catadores viraram estrelas.
Depois desta entrevista vai almoçar com Joe Berardo. Teremos uma exposição de Vik Muniz em breve no CCB?
A intenção é essa. Já estava marcada mas houve um contratempo administrativo e fez com que a exposição fosse atrasada. Estamos aqui a tentar viabilizá-la. É uma retrospectiva de todo o trabalho fotográfico que fiz durante 20 anos. A porta de entrada para a Europa é Lisboa. A exposição é, inclusive, a que aparece no documentário.
Documentário que já está no YouTube, completo. Sabia?
Ai já? Não sabia. Fico contente de saber que o trabalho pode ser visto por mais gente. Acho que quem tem dinheiro devia pagar um pouco para ver e quem não tem devia ver da mesma forma.
Que recordações tem do aterro passados quase três anos?
Há pouco houve um livro sobre o projecto e voltei ao aterro. Até falei com o prefeito do Rio de Janeiro. Existe uma quantidade enorme de lixões clandestinos que estão proliferando em volta de Gramacho - o que é muito preocupante.
Gramacho sempre fecha em 2012?
Vai ser já este ano, disse-me o prefeito. Já estão a fazer a transição para um aterro sem presença de catadores.
Que vai acontecer àquelas pessoas?
No futuro imediato, Gramacho vai ser um projecto do Tião. Ele juntou-se ao Gomes, que desenha projectos de investimento para fundos de pensões do Banco do Brasil, e já foi aprovado um projecto para a implementação de oito pólos de reciclagem gigantescos na área, que está a ser estudado até pelo escritório do Norman Foster. É um projecto enorme.
No seu projecto mostra muitas faces do aterro, do orgulho à vergonha.
A ideia era proporcionar uma visão plural, uma gama de impressões e opiniões sobre a vida no aterro. Tínhamos gente jovem, gente velha, homens, mulheres, gente que quer ficar e gente que quer sair, os que querem liderar e mudar o aterro, como é o caso do Tião.
É um dos mais proactivos.
Ele quer mesmo criar uma solução para a vida ali. Eu perguntava-lhe "como achas que vai ser a cidade depois do aterro?" Ele dizia que não queria nem pensar, achava que não tinha solução. Toda a economia local aqui é baseada em catar e reciclar. Há que quebrá-la para criar um novo sistema.
Estas pessoas, muitas delas sem instrução, dão-nos uma enorme lição sobre lixo e reciclagem.
É, eu estou aqui a falar sobre isto mas não tenho nenhuma autoridade. No outro dia o Tião ligou-me desesperado a dizer que tinha a "Folha de São Paulo" a perguntar-lhe sobre arte. "O que é que eu falo, cara?" Olha, também tenho todo o mundo a perguntar-me sobre lixo e estou a inventar o que dizer. Metemo-nos nesta, agora estão invertidas as posições. O Tião não precisa mais de megafone para expor as opiniões dele.
Tornou-se uma estrela?
O Tião tem assessor de imprensa, eu não tenho. Tem um poder enorme. Quer saber alguma coisa sobre este assunto, ligue para ele, ele sabe, viveu ali a vida inteira. É uma pessoa extremamente inteligente e criativa. É incrível o que ele está a conseguir fazer. Eu estou aqui a mostrar o meu trabalho às pessoas mas o Tião tirou um proveito muito maior do filme. Um documentário não dá dinheiro, não tem nem essa exposição toda, mas cria consciência, um contexto de transformação. É uma ferramenta muito poderosa.
O próprio Vik chegou a trabalhar com o lixo, nos EUA, correcto?
Já trabalhei com lixo de diversas formas. Já fiz tudo. Fui garçon, barman, trabalhei em supermercado, faxineiro, já dormi na rua. A minha vida nos EUA é bastante completa. Não fui para a Escola de Arte e resolvi ser artista. Venho de uma família muito pobre, de São Paulo, e tenho sempre uma comunicação muito directa com pessoas como o Tião. Lógico que no meu trabalho mostrar o catador e falar dele não resolve o seu problema, mas há cidadãos que se vão interessar.
Acredita que boa parte do público brasileiro mudou a sua opinião sobre este trabalho?
Muito, também pelo facto de o filme ter sido indicado ao Óscar. Mas mesmo para o brasileiro é difícil imaginar que existem crianças de sete anos a trabalhar no meio do lixo. Quando o mostrei no Rio de Janeiro, muita gente da zona sul não fazia ideia. E existe a alguns quilómetros do local onde moram.
Foi fácil o acesso ao aterro?
Não houve grande problema. Hoje o aterro é uma estrutura muito organizada. Tião está acostumado a filmagens e as pessoas são curiosas. Gramacho é muito interessante do ponto de vista perceptual.
Funciona quase como BI da cidade?
Uma coisa que se descobre é que uma sociedade não se define pelo que produz ou consome, mas muito pelo que joga fora. Sempre que deita lixo fora está a deitar fora um auto-retrato e está a expô--lo a desconhecidos.
E os catadores vêem tudo.
E mais, têm a capacidade de saber quem é o dono do lixo, é incrível. Tem alturas em que eles abrem uma sacola e dizem "esta mulher deve ser jovem, deve ter problemas de peso porque está a consumir muitos produtos de dieta, trabalha num escritório, não deve ser casada. Eles sabem tudo da pessoa, se é lixo de pobre ou de rico. Lixo de rico geralmente vem em saco grosso, caro, porque não querem que se veja o lixo, que se rasgue. Lixo de pobre é em sacolinha. E eu ponho o lixo em sacolinha, não gosto de desperdiçar sacos de plástico.
Também andou a olhar para lixo?
Achava óptima essa coisa de olhar o lixo dos outros. Era muito divertido seguir a análise deles. Eles eram muito bons. Em geral, as pessoas de Gramacho têm um sentido de humor infalível.
Naquele contexto é uma arma?
O humor é uma ferramenta de sobrevivência. O Tião tem uma história óptima. Às vezes o lixo da companhia aérea Varig caía ali e de repente no lixão inteiro só havia capitães e aeromoças. Eles vestiam os uniformes da companhia e ali ficavam. No Carnaval também. Logo depois que acaba, milhares de fantasias vão para o lixo. Andam todos fantasiados no meio do lixo. Gramacho são 40 anos de arqueologia urbana. Vai encontrar vinis, depois VHS, até CD, imaginando tudo o que já aconteceu.
A lixeira tem tanto de manual de história como de casa da democracia.
O lixo é o grande denominador comum, apesar de chegar em camiões diferentes. O do milionário que vive numa cobertura na Vieira Souto e o lixo do favelado do Complexo da Maré.
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Artigo: Vik Muniz. "O humor é a ferramenta de sobrevivência na lixeira"
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