Cavaco aperta cerco e quer compromisso urgente entre partidos
por Liliana Valente e Luís Claro, Publicado em 26 de Abril de 2011
Apelo presidencial feito no dia em que Sócrates e Passos estiveram juntos, sem se falarem. Líder do PSD rejeita "União Nacional"
A menos de um mês do arranque da campanha, o Presidente da República exige que os partidos baixem o tom da crispação para não dificultarem "um governo maioritário" depois das eleições. E sobretudo para os próximos dias, nas negociações com a troika. Mas nem este apelo surtiu efeito imediato. Na cerimónia de ontem, de comemoração dos 37 anos do 25 de Abril, José Sócrates e Passos Coelho estiveram juntos, mas não se falaram.
"Então, tudo bem?", foi a única coisa que José Sócrates tentou dizer ao líder da oposição. Mas não conseguiu. Passos Coelho, já sentado no outro lado da plateia, conversava com a mulher e, com os jornalistas entre os dois, não reparou no gesto do seu adversário. Sócrates não insistiu mais.
Outro facto que mostrou que o momento é tenso também dentro do governo foi a ausência do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos, nesta cerimónia inédita que juntou os três ex-chefes de Estado. O homem que esteve à frente dos destinos financeiros do país nos últimos seis anos não esteve em Belém "certamente" por ter estado reunido com a troika, desdramatizou o primeiro-ministro demissionário. Sócrates garantiu ainda que "com certeza" a relação entre os dois não está beliscada. Ao i, o gabinete de Teixeira dos Santos não deu justificações sobre esta ausência.
Com a equipa da Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI (que não foi convidada para esta cerimónia) instalada em Portugal, Cavaco Silva pediu um compromisso dos partidos antes das eleições: "Impõe-se um esforço de concertação entre o governo e os partidos políticos relativamente às condições para a obtenção da assistência financeira externa indispensável à salvaguarda do interesse nacional e a assegurar as necessidades de financiamento do Estado e da nossa economia". Isto porque, expressou Cavaco, "o governo saído das eleições de 5 de Junho deve dispor de apoio maioritário na Assembleia da República". Para isso é preciso que a "próxima campanha eleitoral decorra de uma forma que não inviabilize o diálogo e os compromissos de governabilidade de que Portugal tanto necessita".
A "crispação", salienta o chefe de Estado, deve ser evitada por "todos os partidos", que têm de "criar espaços de entendimento" para assegurar "soluções estáveis e credíveis de governo".
Passos recusa "união nacional" O apelo ao consenso veio quase em uníssono do Presidente e dos três antigos chefes de Estado (ver textos ao lado) e receberam respostas diferentes. José Sócrates diz que é o que tem feito "há muito tempo" e reforça a ideia de que se tivesse havido concertação "poderíamos ter evitado muita coisa", referindo-se às eleições antecipadas.
Já Pedro Passos Coelho desfez os equívocos: "Fabricar em Portugal uma espécie de União Nacional é uma perversão, ainda para mais a ser invocada num dia como este, porque a União Nacional não é desejada em Portugal", afirmou na conferência da plataforma "Construir Ideias". Assumindo que vão ser "cometidos muitos erros nos próximos anos", Passos diz que agora a responsabilidade cabe aos "partidos e aos seus líderes", que em campanha devem dizer o mais importante às pessoas. "Não se consegue dizer tudo às pessoas, mas, também, quem precisa de dizer tudo tem pouco para dizer. Se conseguirmos dizer poucas coisas, mas relevantes, as pessoas entendem o caminho que queremos", explicou Passos depois de no discurso da manhã o Presidente da República ter apelado a que os partidos não prometam o que não podem cumprir.
"Foleiro" O clima de crispação entre PS e PSD mantém-se e até se estende ao Presidente Cavaco. Ontem, em reacção à cerimónia, o dirigente socialista José Lello escreveu na sua página do Facebook que o Presidente era "foleiro" por não ter "sequer convidado os deputados para a cerimónia". Em Belém estiveram presentes os líderes parlamentares e alguns deputados, em representação dos partidos com assento parlamentar.
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