Luís Pereira de Sousa. "Arrependo-me de todos os programas que fiz"
por Luis Leal Miranda, Publicado em 25 de Abril de 2011
Para os mais novos é um "Tesourinho Deprimente". Para quem tem mais de 30, é a cara de "Zig Zag" ou "Jogos de Verão". Memórias de uma carreira e do dia em que entrou com Salgueiro Maia no Quartel do Carmo
Apresentador de televisão, locutor e jornalista. Luís Pereira de Sousa parece ter tido três vidas ao longo de mais de 40 anos de carreira. Apareceu como cara do "Telejornal", tornou-se apresentador de programas de variedades nos anos 80 e 90 e veio a ser recuperado pelos Gato Fedorento na rubrica "Tesourinhos Deprimentes". Afastado da televisão, um dos jornalistas que seguiram mais de perto a revolução de Abril passa os dias a velejar no seu barco, o Aires, e a pôr as leituras em dia. Foi a essas actividades que roubámos uns minutos para uma entrevista.
Quando era pequeno o que queria ser quando fosse grande?
Nos tempos do liceu de Oeiras fui redactor do jornal de parede e a experiência mostrou-me - ou pelo menos fez-me acreditar - que o jornalismo poderia mudar o mundo. Claro que me enganei.
Mas ainda assim segue a carreira de jornalista.
O meu pai cegou quando estava a terminar o curso de Económicas e Financeiras, nos anos 50, e isso levou-me a, quando tinha 11 ou 12 anos, ter de lhe ler diariamente horas e horas de matéria em estudo. Adquiri uma boa capacidade de leitura e como a voz de homem chegou cedo diziam que mais parecia um locutor de rádio. Entretanto aos 18 anos resolvi produzir um programa semanal dedicado a Cascais, patrocinado pela Farmácia Cordeiro e denominado "Cascais entre o Mar e a Serra". O jornalismo foi a sequência e a consequência lógica.
E como era ser jornalista antes da data que celebramos hoje, o 25 de Abril?
Tinha pressões e constrangimentos porque a ânsia de dizer coisas era condicionada pelo sistema, pelo regente de estúdios ou pelas direcções dos jornais. Diria que andava asfixiado e moralmente pressionado. Achei que o que fazia nas rádios e nos jornais era castrante e por isso aproveitei um convite do Rádio Clube de Moçambique para montar aqui a sua delegação e ser correspondente. Aí comecei a sentir que tinha espaço e era útil. Depois, outro convite, da South Africa Broadcasting [SABC], veio completar a função de correspondente, que me permitia dizer para o mundo o que aqui não se dizia e sentir-me útil ao meu país. Mas, paradoxalmente, foi depois do 25 de Abril que tive mais problemas.
Problemas como?
Por ter levantado, ao que parece, justificadas dúvidas sobre o processo de descolonização fui detido pelo Copcon. Mas, mal Otelo tomou conhecimento, fui libertado. O general conhecia-me de me ouvir nas matas africanas. As ditaduras e as democracias têm algumas semelhanças.
Fale-me do 25 de Abril. Como soube da notícia e como viveu as horas que se seguiram.
Quando ia para casa no meu Mini na madrugada de 25, depois de terminar uma emissão no Clube Radiofónico de Portugal, vi um contingente militar no Campo Grande. Desconfiei. Como no Rádio Clube Português estavam a dar marchas e ouvi um comunicado das Forças Armadas lido pelo [Joaquim] Furtado senti que qualquer coisa muito importante estava em marcha. Tinha de gritar para o mundo. A SABC foi a primeira estação estrangeira a noticiar o movimento e emitir o que descrevi a partir de uma cabine telefónica no Largo do Carmo, aquando da rendição.
Consta que esteve com Salgueiro Maia antes de este entrar no quartel do Carmo. Trocaram algumas palavras?
Sim, e não foram meigas. Ele exigia que não o acompanhasse enquanto eu defendia que ninguém me poderia impedir de fazer o meu trabalho. Gritou-me: "Merda, a partir deste momento é responsável pela sua vida." E arrancou de megafone em punho, mandando metralhar os portões do quartel. Eu disse "ok" e atraquei-me de gravador apontado. Admirei-o desde aquele momento porque se tratava de um homem jovem, determinado, com autoridade e capacidade de decisão - qualidades tão raras. Sabia o que queria. E o que queria era uma sociedade melhor.
Olhando para trás, como recorda esse dia?
Não foi "esse dia". Foram dias consecutivos em que sonhávamos. Em que com uma alegria nunca experimentada e não repetida tínhamos a convicção de que o futuro seria diferente, mais justo e mais feliz para todos. Enganei-me, mas valeu a pena ter vivido aquela ilusão.
Como reage a comentários como o de Otelo, que há uma semana disse "Se soubesse o que sei hoje não tinha feito o 25 de Abril"?
Não entendo o que se passa na cabeça de um dos principais mentores daquele gesto que imaginava abnegado, altruísta e heróico. Se fala assim pela desilusão, por ter visto diluírem-se os objectivos, concordo inteiramente com ele. Mas se Otelo reage a uma eventual beliscadura aos rendimentos e direitos laborais dos senhores militares, então sinto--me traído, tal como milhões de portugueses se sentirão. Por que razão os militares, uma classe privilegiada, estão acima das dificuldades de qualquer outro cidadão? Deveriam ser os primeiros a encarar o sacrifício. Deveriam até fazê-lo com orgulho já que são, como se diz, o sustentáculo da sociedade. Ou já não são?
Os dias que se seguiram à revolução também não foram fáceis. Teve inclusive um processo por violação da liberdade de imprensa.
Fiz um programa na RDP de 1975 a 1976 chamado "Domingo Fantástico", onde experimentava novas linguagens, novos processos e ideias. Entrevistei Luís Pacheco, que identifiquei previamente como um escritor marginal, com uma linguagem muito própria que deveria ser escutada sob reservas. Ele falou sobre o momento político e ao referir-se a Ramalho Eanes disse "Ele é tão sacana que me respondeu..." Esse "sacana" queria dizer maroto, esperto, hábil, etc. Foi assim que entendi. Mas o director da RDP, Francisco Igrejas Caeiro, mais papista que o Papa, moveu-me um processo que decorreu rocambolescamente. Fui absolvido na primeira instância e continuei com a minha vida agitada, enquanto o queixoso director recorria para a instância imediata. Eu ausentei-me e o meu advogado, que por sinal era também assessor do próprio Presidente da República, por lapso, não contestou e eu apanhei seis meses de cadeia remíveis. Foi o primeiro crime de liberdade de imprensa na nova era.
Como foi parar à televisão?
Depois do tal crime, o senhor Francisco Igrejas Caeiro cancelou todo o trabalho que desenvolvia. Foi um período de feroz agitação política e fui confrontado com o facto de não ter partido político. Numa reunião de trabalhadores, nos estúdios do Perdigão Queiroga, foi-me exigido que me inscrevesse num partido - fosse ele qual fosse. Disse que me era difícil porque achava que jornalista não deve ter partido, mas isso não chegou nem foi entendido. Seria também afastado deste trabalho. Desiludido e já com dois filhos, sem trabalho no meu país, decidi ir para o estrangeiro.
Chegou a emigrar?
Fui ao aeroporto tratar da viagem para a Venezuela e na mesma altura aterrava Mário Soares. Entre muitos jornalistas e individualidades lá presentes estava Edmundo Pedro, presidente da RTP. Quis saber quem eu era dada a recepção amistosa feita pelos colegas jornalistas presentes e o Carlos Pinto Coelho ter-me-á elogiado e dito que eu ia emigrar porque não tinha trabalho. Foi então que Edmundo Pedro me convidou a ingressar na RTP. Não foi fácil. Os obstáculos posteriores foram enormes. Teria de ser o primeiro jornalista a entrar naquela casa com a condição de estagiar durante um ano e com uma remuneração inaceitável. Aceitei. Mas não cheguei a estagiar tanto tempo porque dois meses depois já apresentava o "Telejornal".
Há uns tempos os Gato Fedorento lembraram-se muito de si na rubrica "Tesourinhos Deprimentes". Ficou magoado ou feliz com a referência?
Aceitei com simpatia até porque eles próprios admitem que daqui a 30 anos, quando forem revistos, estarão mais que ultrapassados e deslocados no tempo. Por outro lado, tirar uma afirmação do seu contexto desvirtua a intenção e pode torná-la realmente deprimente.
Achou graça?
Pode ter graça e até se aceita. Eu próprio sou o primeiro a criticar-me, mas reconheço que os jovens são o mundo a mudar e que os velhos não gostam disso. Um dia disse com ar sério ao meu neto Tomás, de 14 anos: "Não gosto da tua maneira de vestir." Ele com o mesmo ar importante virou-se para mim e perguntou: "E já me perguntaste se gosto da tua?" Foi uma lição para mim.
É possível hoje em dia um programa como "Coleccionando"?
Hoje até há vários a observarem o tema. A minha ideia foi sempre mostrar que entre as pessoas anónimas há gente espectacular que merece a nossa admiração. Tal como no "Magazine 7", no "Nunca é Tarde" ou "Num Certo Sorriso", onde descobri pessoas que já voltei a ver várias vezes em programas actuais. Ainda ontem vi numa TV a Maria José, queijeira do Porto e realizadora de cinema que levei a programas meus há décadas. E hei-de continuar a vê-la.
Sente-se esquecido pelos espectadores?
Os mais novos não me conhecem mas os com mais de 30, se não é pela cara porque o tempo pinta-nos, é pela voz. Todos os dias em qualquer local do país sou interpelado com muita ternura e, parece-me, com sincera saudade. Se calhar com críticas em surdina, mas tudo bem.
Porque saiu da RTP?
Saí quando o novo presidente, que devia perceber tanto de televisão como de estradas, entrou e começou a fazer um suposto "downsizing" para fazer entrar outros. Era um génio: saíram uns 500 para entrarem uns 300 a ganhar o dobro. Fui mais uma vez para a prateleira, que é a maneira mais cobarde e desumana de se despedir alguém. Andava, tal como o Mário Crespo e outros excelentes profissionais, pelos corredores, sem nada que fazer. Até que assinei a rescisão. Venceu a falta de respeito e de sensibilidade. São estes fabulosos gestores que semeiam o desânimo, desaproveitam o esforço nacional, recebem prémios milionários e, claro, abrem portas ao FMI.
Tenho a ideia que há dois Luís Pereira de Sousa: o jornalista e o apresentador de programas de variedades. Concorda?
Não. Há só um. Só que fui apresentador para não estar na prateleira, por necessidade de servir um projecto ou uma ideia e servir a própria RTP. Nunca me imaginei, há 40 anos, num palco com meia dúzia de miúdas em biquíni a saracotearem-se. Mas fiz. Foi mais uma entre dezenas de experiências. Porque não? Também fiz asa delta.
Arrepende-se de algum programa que tenha feito?
De todos. Não porque não os fiz com inteira entrega e entusiasmo, mas porque cada um foi uma aprendizagem que me leva agora a concluir que, se os fizesse hoje, já não os faria da mesma maneira.
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Artigo: Luís Pereira de Sousa. "Arrependo-me de todos os programas que fiz"
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