Alemanha não sabe soletrar "crise", mas não vive sem clientes
por Nuno Aguiar, Publicado em 22 de Abril de 2011
Os alemães estão a aproveitar a crise para crescer, mas esquecem que os clientes das suas exportações estão a ficar sem dinheiro
Portugal aguarda para descobrir qual o seu austero destino dos próximos anos; a Grécia não faz ideia de como irá pagar a montanha de dívida que acumulou; a Irlanda ainda está a descobrir quão podres estão os balanços dos seus bancos; e Espanha reza para não ser a próxima vítima dos "mercados". No meio do caos, há um país do euro que não só continua imune à crise, como vai revelando indicadores cada vez mais positivos: a Alemanha.
Apoiada num sector exportador fortíssimo - o segundo maior do mundo, atrás da China -, a economia alemã cresceu 3,5% em 2010 e deve crescer 2,5% este ano. O desemprego fixou-se nos 6,9% em 2010, prevendo o FMI que desça para 6,6% este ano. Segundo os últimos dados do Eurostat, Berlim lidera, de longe, os 27 países da União Europeia (UE) no que diz respeito à balança de transacções correntes, com um excedente de 46,3 mil milhões de euros no primeiro trimestre. A Holanda, em segundo lugar, tem um excedente de 13,9 mil milhões.
Vários economistas têm alertado para os perigos destes desequilíbrios internos no euro. É que, como a larga maioria das exportações dos países europeus são feitas para a Europa, um excedente alemão tem como correspondência um défice noutro país, como Portugal. Em 2009, dos dez principais destinos das exportações alemãs, só dois não eram europeus. Na prática, a relação da Alemanha com os periféricos do euro é muito parecida com aquela que a China tem com os Estados Unidos da América.
A receita dos últimos anos tem sido simples: "Uma das causas estruturais desta crise foi a acumulação de desequilíbrios macroeconómicos dentro da UE, que resultaram de uma agressiva política alemã de controlo de custos, especialmente salariais, o que potenciou o seu crescimento pelas exportações", explicava em Março do ano passado o economista Nuno Teles ao "Jornal de Negócios". "Daí resultou um acumular de excedentes externos que teve por contraponto os défices nos países do Sul."
Na realidade, apesar das acusações de que os portugueses são pouco produtivos em relação ao salário que recebem, a verdade é que os aumentos salariais em Portugal nos últimos anos têm estado em linha com os aumentos de produtividade. Já a variação dos salários alemães é que tem ficado abaixo da sua produtividade, o que faz com que o seu mercado interno se contraia, resultando em menos importações - menos poder de compra, menos consumo.
Desde que a crise da dívida explodiu na zona euro, países como Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda têm sido obrigados a pôr no terreno medidas de austeridade muito duras para consolidar as finanças públicas. Estes governos reagiram assim à pressão dos investidores sobre o seu financiamento, acompanhada por cortes drásticos dos ratings, que levaram a um aumento das taxas de juro.
Enquanto isso, Berlim manteve a sua classificação AAA pelas agências de rating, conseguindo financiar-se a juros baixos. Enquanto no último leilão a Grécia pagou 4,1% por títulos a três meses, a Alemanha paga 3,8% por emissões a 30 anos.
Não se prevê que este fosso entre o coração e a periferia seja reduzido a curto prazo. Segundo os últimos dados do PMI, índice da actividade industrial, a zona euro está a recuperar à custa de um distanciamento entre europas. O resultado de Abril foi o segundo mais elevado desde Junho de 2007, mas, excluindo França e Alemanha, esse resultado torna-se o mais baixo dos últimos três anos.
No entanto, esta imunidade pode acabar em breve. Basta que Espanha seja contagiada pela crise que parece estar a arrastar Grécia, Portugal e Irlanda para aquilo que os analistas consideram uma provável reestruturação da dívida. É que os bancos alemães são os mais expostos a Espanha, com quase 140 mil milhões.
Merkel pode defender que as economias periféricas têm de ser deflacionadas, através de fortes ajustamentos nos seus custos de produção, principalmente salários, mas os desequilíbrios na base da crise persistirão. A germanização da Europa que já decorre pode acabar por atacar apenas os sintomas e não a doença.
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