PRIMEIRO PLANO
A gravidade da globalização
por João Rodrigues, Publicado em 06 de Julho de 2009
A opinião convencional na sua apologia da globalização económica hesita entre o fatalismo e o histérico. Agora a histeria está mais na moda
José Manuel Fernandes atacou em editorial o manifesto pelo investimento público para combater o desemprego. Deixemos de lado o escandaloso facto de o "Público" não ter noticiado tal iniciativa e concentremo-nos numa das suas pérolas: «a globalização é um facto da vida - tal como a gravidade é outro facto da vida». A opinião convencional hesita na sua apologia da globalização económica: ou é fatalista e recorre a metáforas naturais e a determinismos tecnológicos, ou é histérica e vê em qualquer medida sensata de política pública dita proteccionista uma perigosa conspiração para destruir a frágil construção da globalização.
Fatalismo e histeria são manipulados conforme as conveniências. Agora a histeria está mais na moda. Os fluxos económicos globais estão em queda acentuada. E os governos das potências centrais fazem abertamente o que sempre fizeram e o que sempre proibiram aos países menos poderosos: criam, através de apoios públicos e de barreiras mais ou menos assumidas, as condições para que os sectores que consideram estratégicos sobrevivam à crise e para que novas indústrias possam emergir e dominem os mercados. Esta é, segundo o economista Ha-Joon Chang, a história secreta da construção dos capitalismos. Basta lembrar que o argumento da protecção das indústrias emergentes surgiu no final do século 18 nos EUA antes de ser teorizado pelo alemão Friedrich List no século 19 e de ser aplicado, a partir daí, um pouco por todos os processos de desenvolvimento.
Fatalismo e histeria são também usados para defender uma falsa dicotomia, que oporia comércio livre a autarcia económica. A realidade é sempre mais complexa. Até porque, como argumentou List, o sempre selectivo comércio livre é na maior parte dos casos o proteccionismo dos mais fortes, ou seja, o proteccionismo dos países que dispõem de empresas capazes de competir nos mercados internacionais.
Temos mesmo de alterar as regras do comércio e investimento internacionais e alargar as boas e flexíveis práticas de protecção socioeconómica. A proposta do economista Dani Rodrik é sensata: os países subdesenvolvidos devem poder copiar as práticas de protecção industrial selectiva e temporária dos países bem sucedidos; os países desenvolvidos devem poder evitar a erosão dos seus standards laborais ou ambientais, bloqueando formas de concorrência e de chantagem do capital consideradas ilegítimas. Trata-se de reconhecer a gravidade da actual crise da globalização e de encontrar soluções sustentáveis que passam pela emergência de modelos de desenvolvimento menos extrovertidos.
Economista e co-autor do blogue Ladrões de Bicicletas
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Artigo: A gravidade da globalização
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