Frente aos cabeças-de-lista do partido às eleições legislativas, Pedro Passos Coelho admitiu, ontem, que será difícil distinguir o programa eleitoral do PSD do pacote de austeridade a que o próximo governo estará sujeito depois de fechadas as negociações com a troika sobre o programa de ajustamento necessário para o recurso à ajuda externa.
"Para o eleitorado pode ser difícil distinguir o que sairá da sua vontade daquilo a que o país terá de se vincular por força da ajuda externa", afirmou o líder do PSD. "Mas é preciso explicar aos portugueses que se se pediu ajuda é porque era precisa", acrescentou. O tom de Passos Coelho em relação ao compromisso com as medidas de austeridade a aplicar pelo próximo executivo foi de cautela: "Não escondemos aos portugueses que a austeridade vai ter de prosseguir, mas o que nós queremos é que o Estado, que ainda não fez austeridade, a possa fazer." E culpou mais uma vez o PS pelo pedido de ajuda, "que devia ter sido feito há muito mais tempo".
Passos Coelho lançou a corrida eleitoral do PSD numa reunião em que juntou cabeças-de-lista e presidentes das distritais do partido e onde pediu um voto de confiança. "O que pedimos aos portugueses é uma condição de partida justa, sem a qual o país não mudará como desejamos: que acreditem e confiem que, quando chegamos ao fim da linha, é preciso dar a outros a oportunidade que já foi dada ao PS para governar", disse Passos Coelho numa declaração à comunicação social, tendo como fundo de cenário um painel com as palavras "Está na hora de mudar".
"Se porventura depois destas eleições se mantivessem os mesmos governantes, com o mesmo programa, com o mesmo tipo de resposta que tem sido dada nos últimos anos, então aquilo que espera Portugal é o aprofundamento das injustiças e a continuação de uma recessão económica que matará a nossa economia e nos impedirá de crescer", acrescentou o líder social-democrata.
De olhos postos na campanha
Aos portugueses Passos Coelho pediu confiança, aos cabeças-de-lista e presidentes das distritais apelou à mobilização para uma campanha eleitoral que se adivinha difícil. A julgar pelas reacções, depois da reunião a mensagem pegou. "A campanha será complexa, temos de ser realistas", diz ao i Almeida Henriques, cabeça-de-lista por Viseu. "Passos fez um discurso mobilizador. Todos estamos confiantes na mudança que tem de ocorrer em Portugal", afirma Couto dos Santos, cabeça-de-lista por Aveiro.
A mês e meio das eleições, o PSD quer mobilizar as hostes e acalmar a polémica em torno de Fernando Nobre. O secretário-geral do partido, Miguel Relvas, disse ontem que o PSD "tem orgulho" em ter Fernando Nobre como cabeça-de-lista por Lisboa e que "não tem dúvidas" que Nobre será deputado caso não seja eleito presidente da Assembleia da República.
Fernando Nobre, em entrevista ao "Expresso" este sábado, disse que renunciava ao cargo de deputado caso não fosse eleito presidente da Assembleia da República e no domingo, depois de Passos Coelho ter pedido que esclarecesse "alguns pontos", Nobre deixou em aberto a possibilidade de ocupar a cadeira de deputado.
O cabeça-de-lista do PSD em Lisboa e Passos Coelho almoçaram juntos ontem e chegaram lado a lado à reunião da tarde, sem fazer declarações aos jornalistas. Lá dentro, a escolha de Fernando Nobre foi elogiada por vários cabeças-de-lista e presidentes das distritais, com alguns a considerarem que a altura não aconselha mais "crispação" dentro do partido.
Ajustes de contas?
Pedro Passos Coelho disse na apresentação das listas de deputados à Assembleia da República, este domingo, que não ia fazer "ajustes de contas". Porém, os deputados da ala de Manuela Ferreira Leite foram algumas das ausências mais notadas, nomeadamente Marques Guedes e José Eduardo Martins.
Em declarações ao i, José Eduardo Martins, que foi cabeça-de-lista por Viana do Castelo em 2009 e membro da direcção de Manuela Ferreira Leite, diz que "não foi dada nenhuma explicação" para não ter sido integrado nas listas de deputados às próximas eleições legislativas. O deputado diz que o presidente do partido lhe ligou "numa conversa de dois minutos" para o informar. "Não fiquei surpreso. Durante um ano a direcção de Passos Coelho não me pediu nada a não ser para defender a Lei de Bases do Ambiente, que foi proposta minha, e portanto seguramente que não me iam chamar novamente para candidato", explica o deputado, admitindo que Passos Coelho "está no seu direito" ao escolher quem quer como deputado.
Ontem Passos Coelho referiu que "com o lote de cabeças-de-lista [que escolheu] o PSD pode dar a volta ao texto e pôr o país novamente a crescer", pondo a tónica na escolha dos independentes. "Representam um bom compromisso entre uma renovação do PSD e a sua abertura à sociedade civil, à universidade, à cultura, à cidadania", considerou, reiterando a intenção de formar "uma plataforma alargada para que o país tenha uma estratégia nacional no próximo governo".
Apesar da unidade que saiu da reunião com os cabeças-de-lista e presidentes das distritais, restam algumas vozes críticas no PSD em relação a Fernando Nobre. "Rejeito em absoluto que pessoas por serem independentes em relação aos partidos tenham a consciência mais livre que os outros", afirma José Eduardo Martins.




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