Ela era uma criança portuguesa quando, no dia do casamento real, a princesa Diana apareceu na televisão com o seu corte de cabelo à rapazote e a vergonha de uma educadora de infância que ainda não aprendera a caminhar na passadeira vermelha.
Ela, que nunca pôde ter filhos, chorou na noite em que soube do acidente em Paris, durante a emissão do funeral, sempre que recuperavam imagens de arquivo - Diana com a tristeza desoladora das mulheres abandonadas, Diana junto de crianças sem pernas por causa das minas e, mais que tudo, os filhos de Diana, órfãos, sozinhos, com uma ferida a céu aberto. Depois do acidente, ela perdeu interesse pela realeza.
Comprava revistas, mas ninguém era capaz de a fazer chorar daquela maneira. Quando soube do casamento do príncipe William, começou a juntar recortes de revistas num álbum de fotografias (como se fosse o casamento do filho) e andava mais feliz, arranjou o cabelo, telefonava às amigas para comentar a imprensa cor-de-rosa e os produtos de merchandise que mostravam nas reportagens de TV - chávenas e porta-chaves e T-shirts.
Informou o marido: "Há anos que não vamos a lado nenhum. Vais pegar naquele dinheiro que recebi da minha tia e vamos ver o casamento real." O marido ouviu, tentou ganhar tempo. Não havia saída: "Mas, amor, esse foi o dinheiro que usei para pôr as colunas de som e os vidros fumados no carro."
Ela saiu para a rua com o martelo dos bifes. Ele nem sequer tentou impedi-la. Ela partiu todas as janelas do carro. Tinha os olhos secos. Não desperdiçou uma lágrima.
Escritor
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