FMI em Portugal
"Reestruturação da dívida pode ser usada como arma negocial pelo governo"
por Carlos Ferreira Madeira, Publicado em 14 de Abril de 2011
Álvaro Almeida já trabalhou no FMI e explica o que está em causa na negociação do programa de ajustamento
É uma jogada arriscada mas a hipótese não deve ser descartada: "O governo português pode usar como arma negocial a reestruturação da dívida se considerar que o programa de ajustamento exigido ao país é demasiado severo", avisa o economista Álvaro Almeida. O português trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1997 e 2000 e participou na negociação dos programas de México, Arménia e Venezuela.
"Reestruturar dívida é sempre uma solução de último recurso para o FMI. No caso da Grécia, na revisão do programa em Fevereiro, essa hipótese foi introduzida em alguns dos cenários equacionados", diz o economista. "Essa é uma opção que não deve ser descartada na fase negocial. A intenção do FMI é garantir que os mercados financeiros continuem a funcionar, o que implica actuar em duas frentes: permitir que os credores recebam e que os devedores consigam pagar. No limite, se o programa de ajustamento for demasiado pesado e a economia não gerar os recursos suficientes para suportar a dívida, um governo deve utilizar o instrumento negocial da reestruturação." O risco da ameaça, porém, tem de ser medido: "Se entrar em incumprimento e reestruturar dívida, Portugal perde o acesso ao financiamento - o que significa que o défice tem de ser zero e as despesas terão de ser cortadas de um dia para o outro." Se Portugal não estivesse no euro, "essa hipótese já teria sido posta em cima da mesa pelo FMI", considera o economista.
Não é por acaso que o FMI escolheu Poul Thomsen para liderar a sua equipa em Portugal. O dinamarquês "tinha a fama de ser muito severo, duro, radical mesmo, e pouco sensível às questões locais enquanto liderava o departamento do FMI responsável pelos países da antiga URSS" - quando Álvaro Almeida se cruzou com ele. "Haveria com certeza outros chefes de missão do FMI mais compreensivos em relação às realidades locais, que poderiam ter sido escolhidos. Mas o facto de Thomsen ser considerado radical pode permitir que o programa que vai apresentar a Washington e a Bruxelas seja mais facilmente aceite pelas instituições internacionais."
O factor decisivo vai ser a "capacidade negocial" do país e, segundo o economista, Portugal está numa posição "enfraquecida". A comparação ajuda a compreender porquê: "O programa de ajustamento grego foi razoável", ao contrário do irlandês. "O programa irlandês foi excessivo e draconiano, desde logo porque Dublin aceitou pagar juros de 5,8%, uma taxa muito penalizadora e que não corresponde a ajuda nenhuma."
Razoável Um "bom programa para Portugal", segundo Álvaro Almeida, implicaria que os juros a pagar pelo empréstimo de 80 mil milhões de euros "estivessem em linha com os preços do FMI, à volta de 4%: um bom programa nunca terá juros de 5%". E as metas têm de ser atingíveis: "Seria tolerável um défice de 5% do PIB este ano, com uma redução de um ponto percentual em 2012 e mais 1 p.p. em 2013. O défice seria de 3% em 2013, em condições idênticas às da Grécia."
Álvaro Almeida diz que "o FMI tem uma especial predilecção por impostos indirectos", pelo que se pode esperar "aumentos no IVA e no imposto automóvel". É previsível um "ajustamento nas pensões de reforma, na linha do PEC IV".
Seguem-se as reformas estruturais. É inevitável a "flexibilização do mercado laboral, facilitando os despedimentos, o que pressionará a descida real dos salários - embora também possam baixar por via do aumento dos preços". "Aumentar a concorrência no mercado dos serviços, sobretudo na energia e nas telecomunicações - o FMI estima que os preços dos serviços em Portugal têm uma margem 15% superior à média europeia - é outra das medidas". Assim como o "aumento dos preços dos serviços de empresas públicas deficitárias".
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