Memória

Toni vs. PSV. Eles até davam tulipas mas não são flor que se cheire

Publicado em 14 de Abril de 2011   
Duas histórias do Benfica com o PSV: em Março de 1975, a eliminatória começou com apagão; e em 1988 Veloso apagou-se nos penáltis...
Opções
a- / a+

JOGADOR. "NO PHILIPS ACABA-SE A LUZ! EM CASA DE FERREIRO..."

 

Custou mas foi. Aos 64 anos, Toni é finalmente um cavaleiro Jeddah, como treinador do Al Ittihad naquela cidade saudita. O i apanha-o de saída. Vai meter- -se num avião para os Emirados Árabes Unidos. Tem jogo na terça-feira, para a Champions da Ásia. A caminho do aeroporto, Toni falou com o i sobre o primeiro Benfica-PSV da história. Não, não é a final de 1988. Isso é a seguir. Falámos daquela eliminatória da Taça das Taças 1974/75, em que Toni ainda era jogador.

Mal se junta PSV e 1975, Toni suspira: "Em casa de ferreiro, espeto de pau." Ai é, então? "A dez minutos do fim, lá em Eindhoven, no estádio deles que é da Philips, houve um apagão. Não se via nada, eheheh. Ficámos uns vinte e tal minutos ali no campo, até porque não estávamos no Terceiro Mundo. Estávamos na Holanda e eles garantiram logo ao árbitro [o italiano Michlotti] que o reparo não seria demorado. Assim foi. Voltou a luz, retomámos o jogo e acabámo-lo da mesma forma com que começámos: zero a zero." Quando queríamos viajar para a segunda mão, Toni interrompe-nos subtilmente. "Esse jogo também teve um episódio curioso, porque no início da segunda parte [53 minutos] houve uma substituição de guarda-redes: saiu o José Henrique, lesionado pelo René van Kerkhof, cujo irmão Willy também jogava lá e até lhe anularam um golo por outra falta sobre o guarda-redes ainda na primeira parte, e entrou o Bento. E o Bento esteve impecável. Defendeu muito, embora nós tivéssemos atacado com regularidade. Lembro-me perfeitamente de um tiraço do Eusébio e defesa para canto de Van Beveren."

Na segunda mão... "aconteceu taça, perdemos 2-1. Eles marcaram primeiro pelo tal Wily van Kerkhof [11 minutos]. Esse e o irmão gémeo René eram, de facto, as estrelas da equipa. Tinham estado no Mundial-74 e tudo. Nós empatámos logo a seguir [17'']: cruzamento de Eusébio e golo de Humberto, que ainda atiraria ao poste nessa primeira parte. Depois, estivemos ali como se costuma dizer no vai-não vai, 1-1 a prolongar-se, os golos fora já valiam, eles defendiam--se bem, nós não atinávamos com a baliza e eles fizeram o 2-1 muito perto do fim [aos 85'', por Willy van der Kuijlen, ainda hoje o melhor marcador da história do campeonato holandês, com 311 golos]. Outro pormenor que me lembro desse jogo na Luz, com luz [risos], foi dos jogadores do PSV distribuírem tulipas pelos adeptos antes do apito inicial. Outra cultura".

Independentemente disso, Borges Coutinho, então o presidente do Benfica, veio culpar a Federação Portuguesa de Futebol pela eliminação. Mas como? Apesar das muitas críticas que se fizeram ouvir, o certo é que a FPF levou a sua avante e aceitou apresentar a selecção nacional na inauguração do Estádio Serra Dourada (que agora foi um dos escolhidos para o Mundial-2014), frente ao Brasil. Estranhamente, a desconhecida equipa surgiu na qualidade de representante do seu país. Para tornar tudo ainda mais cinzento, o jogo foi dirigido por um árbitro brasileiro, o qual, apesar das suas credenciais, não esteve nada bem, tal como a selecção portuguesa que acusou a alta temperatura que se fez sentir. O terreno de jogo também pesou no rendimento do conjunto liderado por Pedroto.

Perante tantas adversidades, o desfecho nada abonatório (derrota por 2-1, com o golo inaugural a ser apontado por Octávio Machado, que ainda hoje tem uma placa à entrada do Serra Dourada) fez recair de novo todo o pessimismo sobre a selecção, que já não ganhava há oito jogos. E a Federação, com toda esta triste figura, arrecadou 30 mil dólares para os seus cofres.

Não terá valido a pena. Sobretudo para o Benfica, que foi obrigado a prescindir de Artur, Humberto Coelho, Toni, Nené, Barros e Vítor Martins para essa viagem. Daí que Borges Coutinho tenha reagido daquela forma, a culpar a FPF. "Que viagem inútil!" Era capaz de ter razão. 2 de Março, 1-0 ao Vitória, em Guimarães. Dia 5, 0-0 em Eindhoven, com o PSV. Dia 9, Selecção de Góias-Portugal, no Brasil. Dia 15, 1-0 à CUF, na Luz. Dia 19, 1-2 com PSV, na Luz. Em 17 dias, cinco jogos e ainda uma viagem-relâmpago ao Brasil. E assim, por um punhado de dólares, se estraga o sonho. Neste aspecto, Toni não se aventura muito. Pudera, já está no aeroporto, fora de Jeddah. "Sim, a meio dessa eliminatória, fomos ao Brasil."

 

TREINADOR. "AINDA PENSEI EM COLOCAR O BENTO NOS PENÁLTIS"

 

Campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal em 1986/87, o treinador inglês John Mortimore é de ideias fixas e abandona mesmo o Benfica. “Não desejo continuar a trabalhar num clube onde não me querem, nem quero continuar a trabalhar com quem não deseja trabalhar comigo”, desabafa Mortimore depois de levantar a Taça de Portugal, naquela que foi a nona e última dobradinha do Benfica.


Divergências com o presidente João Santos pesam nesta decisão inesperada e o vice Gaspar Ramos acusa o inglês de “fraca personalidade”. Mortimore segue o seu caminho, rumo ao Betis. O Benfica nomeia o sucessor e apresenta o nórdico Ebbe Skovdahl, ex-Bröndby, na (vã) esperança de encontrar o clone de Eriksson.


O dinamarquês não atina com o Benfica, com três derrotas nas primeiras sete jornadas do campeonato, além da perda da Supertaça para o arqui-rival Sporting (0-3 na Luz e 0-1 em Alvalade), e volta ao seu país em Dezembro. E quem o substitui é... Toni, o 112 do Benfica. Se é certo que acaba o campeonato em segundo lugar, a 15 pontos do FC Porto, e é eliminado nas meias-finais da Taça de Portugal pelo mesmo FCP, o Benfica abrilhanta uma época atribulada com a presença na final da Taça dos Campeões.


Para tal, teve de ultrapassar um intratável Partizani Tirana: quatro expulsos na Luz e punição da UEFA, evitando assim uma incómoda viagem à Albânia. Seguem--se Aarhus, Anderlecht (o único que marcou a Silvino nesta edição da prova, através do islandês Gudjohnsen, o pai daquele que foi bicampeão inglês com o Chelsea de Mourinho) e Steaua. Na final, o PSV Eindhoven, composto por estrelas – casos de Van Breukelen, Van Aerle, Koeman, Kieft e Vanenburg, todos campeões europeus pela Holanda no Verão desse ano –, foi mais forte. Mas só conseguiu levantar o caneco nos penáltis, após 120 minutos de muita táctica e escassas oportunidades de golo. Toni é o treinador do Benfica e comenta essa campanha ao i desde a Arábia Saudita, onde treina o Al-Ittihad.


“As finais não foram feitas para serem jogadas, mas sim para serem ganhas. É uma verdade incontestável mas há aqui um senão: esse Benfica de 1988 não foi feito para chegar à final da Taça dos Campeões. Quer dizer, não havia nenhum plano nesse sentido, nenhuma meta pré--estabelecida. Tudo aquilo foi-se fazendo à medida que íamos avançando. E fomos à final, com um mérito indiscutível, porque só sofremos um golo naquela que foi a nossa única derrota [0-1 em Bruxelas com o Anderlecht]. Sejamos realistas: o Benfica era inferior ao PSV. Eles tinham o Van Breukelen, o Ronald Koeman, o Lerby, o Van Aerle, aquele baixinho número 8 [Vanenburg], o Kieft. Nós tínhamos muita classe com Mozer, Elzo, Diamantino, Shéu e Rui Águas, nunca me esquecerei dos seus dois golos de cabeça na meia-final ao Steaua. Mas o PSV era mais forte. E há outro aspecto, nós ficámos sem o Diamantino, que se lesionou gravemente a quatro dias da final, num jogo com o V. Guimarães [3-0 na Luz], e abdicámos do Rui Águas no início da segunda parte dessa final, também por lesão. Se já não éramos tão fortes quanto eles, com essas duas baixas mais desnivelado ficou o embate. Mesmo assim, obrigámos o PSV a jogar na expectativa, até que chegou a hora dos penáltis...”


E aí é que foram elas. Dos 12 remates (dez da primeira série e mais dois na segunda), só Veloso é que falhou, defendido por Van Breukelen. “Se não fosse esse penálti falhado, Veloso teria sido eleito o melhor em campo. Foi soberbo na resposta ao esforço físico durante os 120 minutos. Depois teve aquele momento.”


Algum arrependimento? “Não.” E graceja com gargalhadas ocas. “Bem, o suplente do Silvino era o Bento. Se já houvesse três substituições, metia o Bento, porque ele uma vez, em 77/78 [primeira eliminatória da Taça dos Campeões], qualificou o Benfica. Sim, ele é que nos qualificou: 0-0 na Luz e 0-0 em Moscovo. Prolongamento, penáltis e o Bento defende o primeiro [remate de Iurine]. O segundo [de Nikonov] foi para fora. O terceiro [de Belenkov] foi golo, mas aí já nós estávamos bem à vontade. E foi o Bento quem marcou o penálti que nos apurou para a ronda seguinte. Bola para um lado, guarda-redes para o outro: 4-1 naquele frio.”

E Toni desabafa, novamente a rir. “Ai se houvesse três substituições. O Silvino entende.”

 

 



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close