Biodiversidade
Conservação. "Não podemos proteger espécies só porque são queridas"
por Marta F. Reis, Publicado em 13 de Abril de 2011
Corey Bradshaw, investigador na Universidade de Adelaide, criou uma nova ferramenta para medir o risco de extinção. E está a gerar polémica
"Espécies condenadas pela matemática", "deixem o maravilhosamente estranho kakapo [um papagaio da Nova Zelândia] morrer." A tragédia parece eminente e Corey Bradshaw está no centro da polémica, pelo menos segundo os títulos de algumas notícias sobre o seu último trabalho. Este mês o investigador do Instituto do Ambiente australiano e da Universidade de Adelaide publicou um estudo em que defende um novo índice para medir a probabilidade de uma determinada espécie escapar à extinção. O bicho-papão chama-se SAFE - Species Ability to Forestall Extinction. Mas mais do que as nove páginas do artigo científico publicado na "Frontiers in Ecology and the Environment", são os comentários de Bradshaw que estão a provocar amargos de boca.
Sobre o kakapo, Bradshaw disse que é uma pena que a ave vá desaparecer, independentemente de todas as intervenções. "É difícil, mas alguém tem de o dizer." Os ambientalistas neozelandeses reagiram a quente. "Acho que qualquer pessoa dirá que vale absolutamente a pena continuar a protegê-los", disse uma das principais defensoras do papagaio no país, Nicola Vallance, da Royal Forest and Bird Society.
Mas o índice SAFE não tem nada de revolucionário: ao i, Corey explicou que o objectivo é pura e simplesmente melhorar a actual capacidade de análise da lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e resolver um problema antigo: falta de dados robustos sobre variação das populações para os milhares de espécies conhecidas e para aquelas que estão a ser ameaçadas. Se a sua solução for para a frente, Corey acredita que as escolhas de conservação serão mais bem fundamentadas. A razão é económica: "Temos de gastar o dinheiro de forma inteligente e eficaz, porque não temos muito."
A proposta de Corey e de outros três colegas australianos passa por reduzir a incerteza utilizando apenas dois indicadores: o número estimado de sobreviventes e um número mágico, a que chamam "população mínima viável". Com base em estudos recentes, explica o investigador, o intervalo entre os 2500 e os 5 mil indivíduos é considerado crítico, abaixo do qual se torna consideravelmente mais difícil e caro recuperar uma população. "Imagine-se uma floresta com muitas aves de uma determinada espécie. Se tiver muitas subpopulações, a perda de uma não é significativa. Mas se se reduzir muito, basta um evento como um incêndio ou uma praga para concluir a extinção", diz Corey. "Há também uma questão genética: abaixo deste limiar dos 5 mil, há uma tendência para fenómenos como a depressão de consanguinidade. Quanto maiores forem as populações, maior é a capacidade evolutiva para ultrapassar os problemas."
Segundo este novo índice, a classificação zero determina a linha a partir da qual há um risco. Abaixo dela, a pior cotação será -3,70, que significa automaticamente que a população se encontra extinta. Entre o 1 e o -1 são considerados momentos decisivos para uma espécie. No artigo, os investigadores defendem que este tipo de informação pode ser mais facilmente entendida pelos governos e mecenas que queiram investir em conservação: "Nestas circunstâncias, alguém que esteja a considerar uma selecção em termos de conservação poderá escolher canalizar fundos para uma espécie como o rinoceronte de Samatra e não para o precário rinoceronte de Java, espécies que têm índices SAFE de -1,36 e -2,10 respectivamente."
Confrontado com os números do lince ibérico, uma das espécies mais protegidas pelos governos portugueses e espanhóis, Corey reage da mesma forma. "Acho que devemos esquecer as espécies onde existem poucos animais: a hipótese de voltarem ao patamar dos milhares é limitada e acaba por ser uma perda de tempo", diz. "Não digo que se for possível e realista não se deve fazer tudo o que for possível, mas muitas vezes não o é, sobretudo se depois não houver habitats para instalar os novos indivíduos. Podemos ter as crias que quisermos, mas se não houver zonas selvagens para as pôr não faz sentido."
Então o que está errado? O investigador diz que o exemplo dos linces em Portugal permite perceber o quão susceptíveis e frágeis estas populações são. "E ainda assim gastamos milhões para garantir que alguns indivíduos vivem mais alguns anos enquanto podíamos salvar milhares de espécies se preservássemos uma zona de floresta tropical. As pessoas ficam emocionalmente ligadas a algumas espécies só porque são queridas e já não nos podemos dar a esse luxo."
Para Henrique Miguel Pereira, especialista português em biodiversidade, a análise não pode ser tão definitiva. Num artigo publicado há três anos, na mesma revista, falava da complexidade na altura de avaliar o valor de uma espécie: "O valor de existência é o valor que as pessoas dão a uma espécie ou bem ambiental, mesmo que não tirem qualquer benefício ou uso dele." Embora reconheça que o índice poderá vir a ter utilidade, duvida da robustez do limite de 5 mil indivíduos. "No caso do lobo e do lince tem-nos movido o valor cultural, que também pesa como valor de existência."
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