"Não há soluções de esquerda sem o PS", diz Manuel Alegre
por Pedro Vaz Marques, Publicado em 07 de Abril de 2011
Figuras da ala esquerda do PS vêem com bons olhos reunião entre PCP e BE. Actual direcção pouco interessada
A esquerda à esquerda do PS vai conversar amanhã, mas não há soluções de esquerda sem os socialistas. As palavras são de Manuel Alegre, antigo deputado e dirigente do PS e ex-candidato à presidência da República, apoiado por socialistas e bloquistas. "Não há soluções de esquerda sem o PS", diz ao i Alegre, e acrescenta que "espera para ver o que vai sair daquela reunião", numa referência ao encontro entre PCP e BE, uma iniciativa dos comunistas a que o Bloco prontamente acedeu.
Por outro lado, Francisco Assis, membro da actual direcção socialista, desvaloriza a reunião de sexta-feira entre comunistas e bloquistas, considerando que se trata "da conjugação de dois arcaísmos diferentes" que "nada traz de novo ou de positivo". Assis lamenta ainda que nem PCP nem Bloco se tenham mostrado disponíveis para governar com o PS. "Esse enclausuramento das forças da extrema-esquerda em posições completamente ultrapassadas tornam-nas inúteis do ponto de vista de um contributo sério para a afirmação vitoriosa da esquerda em Portugal."
Edite Estrela, também da actual direcção, considera difícil conseguir entendimentos à esquerda. "O PS quando teve coligações e entendimentos nunca foi com a extrema-esquerda, nem com o PCP. Já se fizeram coligações com PSD e CDS. Portanto o importante é colocar o interesse nacional acima de tudo e reconhecer que, neste contexto, é fundamental haver estabilidade." No entanto, uma coligação à direita a seguir às eleições legislativas, com o PSD ou o CDS, é admitida pela eurodeputada socialista, em nome do interesse nacional. Portugal, diz, "precisa de estabilidade e precisa de um governo maioritário", já que ficou clara para "toda a gente a dificuldade de governar em minoria". As soluções dependem dos "resultados eleitorais", sustenta ainda.
Manuel Alegre contrapõe e diz que devem existir "pontes", sim, mas entre as forças de esquerda, cujo exemplo mais recente, para além da candidatura apoiada por PS e BE a Belém em Janeiro, aconteceu em 2008. Recorde-se que nesse ano Alegre participou numa festa-comício no Teatro da Trindade, em Lisboa, e no Fórum das Esquerdas, que juntou vários rostos da esquerda, como Francisco Louçã, Luís Fazenda, Carvalho da Silva, Carlos Brito ou Helena Roseta.
Quem também aplaude a reunião entre PCP e Bloco é o antigo ministro socialista Manuel Maria Carrilho. Em declarações ao i, reconhece que "esta é uma boa iniciativa. Acho óptimo que se converse. Faz falta uma cultura de negociação, diálogo, compromisso e abertura". Carrilho sente que este diálogo devia ser "uma prática para todos os partidos", visto que "em Portugal há uma cultura de agressão". Já em relação ao que o PS deverá fazer em relação a esta eventual convergência entre comunistas e bloquistas, o ex-ministro da Cultura de António Guterres concorda com Manuel Alegre e sustenta que "é preciso esperar para ver".
António Arnaut, fundador dos socialistas, não tem dúvidas que PCP e BE se deviam unir. "É positivo para o país um entendimento à esquerda naquilo que é essencial, que é a defesa do Estado social", afirma ao i o "pai" do Serviço Nacional de Saúde. E acrescenta: "Se PCP e BE, com diferenças tão profundas, se podem entender, muito mais facilmente o PS pode entrar. Até porque os votantes do BE são votantes desiludidos com o PS."
Ana Gomes é outra das figuras do PS que vêem com bons olhos uma convergência à esquerda. A eurodeputada socialista considera os entendimentos entre PCP e BE "desejáveis", mas gostaria que fossem mais longe. "Que possam também ter pontos de convergência com o sentimento de outras forças políticas. Penso que há aspectos de convergência que têm de ir para além da própria esquerda e que são questões de interesse nacional", sustenta Ana Gomes.
Sónia Fertuzinhos, vice-presidente da bancada parlamentar do PS, considera que PCP e BE têm toda a legitimidade para se entenderem, mas que "não há uma esquerda unida sem PS. Uma esquerda sem PS é uma esquerda falhada!"
Para Vital Moreira, a questão de uma convergência entre os dois partidos à esquerda do PS nem se coloca. No seu blogue, o antigo militante comunista e actual eurodeputado do PS dedica apenas um título ao assunto: "Antologia do anedotário político."
Com Luís Claro e Liliana Valente
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