Carrilho: "PS fala como se Soares tivesse traído país ao recorrer ao FMI"
por Luís Claro, Publicado em 06 de Abril de 2011
Ex-deputado do PS ainda não decidiu se vai ao congresso. Carrilho queria novo líder já e não é o único. Mas críticos de Sócrates não vão subir ao púlpito da reunião magna.
Os maiores críticos de José Sócrates não subirão ao palanque do congresso do PS para discursar, no próximo fim-de-semana, já que não estão entre os mais de 1800 delegados que participam na reunião magna. Nomes como Manuel Maria Carrilho, Henrique Neto ou Ana Benavente - que já pediram a substituição da actual liderança - estão radicalmente contra a estratégia com que o PS se vai apresentar às legislativas e colocam em causa a utilidade da reunião magna dos socialistas.
"Temo que seja um congresso inútil em que se vão adiar os problemas", diz ao i Manuel Maria Carrilho, que opta por deixar a dúvida sobre se vai marcar presença em Matosinhos. "Veremos. É uma questão que está em aberto", diz.
O antigo deputado socialista, implacável nas críticas que lança a Sócrates, defende que qualquer solução deve passar pela substituição do actual líder e lamenta que da parte do secretário-geral não exista "nenhum sinal de desprendimento".
"Sócrates está agarrado ao poder. É uma situação inédita no PS", diz o ex-ministro de António Guterres, defendendo que "o congresso devia ser adiado" para criar condições para uma "renovação no partido e na liderança".
Traição de Soares? Carrilho defende que o partido deve fazer uma reflexão sobre os últimos seis anos que esteve no poder e as soluções que tem para a crise. "Como é que o PS pode ajudar o país a sair da crise para a qual contribuiu? Essa reflexão não está a ser feita e o partido está perdido nesta demagogia barata", afirma o ex-ministro da Cultura, criticando a forma como a direcção do PS tem encarado um eventual pedido de ajuda externa "Será com esta campanha completamente demagógica de diabolização do FMI que o PS vai ajudar o país? Mário Soares não defendeu Portugal com o FMI? Fala-se como se Mário Soares tivesse traído Portugal. É uma coisa que me escandaliza".
O ex-deputado diz ainda que não entende a posição do partido, quando José Sócrates foi um dos líderes europeus a aprovar a criação do Fundo de Estabilização Europeu como "uma boa solução para situações de crise". "É uma boa solução para os outros e não é para nós?", questiona.
Novo líder já Carrilho insiste na necessidade de substituir José Sócrates à frente do PS, sustentando que a actual liderança muito dificilmente conseguirá gerar "os consensos que vão ser necessários" a seguir às eleições. "O PS tem várias personalidades políticas que podem proporcionar ao partido uma liderança capaz de contribuir para os consensos que vão ser necessários".
A mesma posição tem o ex-dirigente do PS, Henrique Neto, que considera a estratégia do actual primeiro-ministro para as eleições antecipadas um erro, que "vai condenar o partido à derrota".
"José Sócrates vai sair do congresso com uma grande vitória e tentar convencer os portugueses de que a culpa da situação a que chegamos é da oposição, porque chumbou o PEC. Vai conseguir o apoio do partido para esta versão, mas os portugueses já perceberam que não é assim e o partido vai cometer um erro de grandes proporções ao apresentar-se a eleições com esta estratégia", diz.
"Foram cometidos muitos erros e este congresso vai branquear esses erros. Não vai servir para grande coisa", continua Henrique Neto, que foi dirigente e deputado socialista nos tempos de António Guterres e acusa José Sócrates de "estar agarrado a um projecto de poder pessoal". "Para salvar o PS a ruptura é o único caminho", remata.
O empresário, que está ligado à corrente de opinião esquerda socialista, pensa que é cada vez mais "evidente que a ideia de uma coligação torna-se praticamente impossível com José Sócrates à frente do partido".
José Medeiros Ferreira, que em entrevista ao i defendeu que o PS deveria procurar outra solução para se apresentar às legislativas, não vai marcar presença no congresso, tal como a ex-dirigente do PS Ana Benavente.
"Quem lá for criticar vai para ser apupado e apelidado de traidor. Vai ser um ritual triste", diz ao i a ex-governante e membro do secretariado de Ferro Rodrigues, que acusa a actual direcção socialista de "estar fechada no seu círculo de poder".
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