Carlos e Camilla. Despedida à portuguesa em Monserrate

por Sara Sanz Pinto, Publicado em 30 de Março de 2011   
O casal real britânico cumpriu programa distinto no último dia da visita, só se juntando em Sintra - c/ fotogaleria
Opções
a- / a+
Há dois dias a correr atrás da realeza chegámos a uma conclusão: o príncipe Carlos fala com as pessoas como se de plantas se tratassem. As observações do filho da rainha Isabel II de Inglaterra têm tanto de óbvio como de inesperado e surpreendem--nos tal como a natureza. O dia de ontem foi uma correria entre horários apertados e o i dividiu-se entre Camilla e Carlos, que andaram um para cada lado, reencontrando-se à tarde no palácio de Monserrate. Eram 11h05 quando a duquesa da Cornualha chegou à Sociedade Hípica Portuguesa (SHP), no Campo Grande. Mais uma vez, crianças de colégios ingleses estavam prontas a recebê-la e Sua Alteza foi simpática com elas. Quem também aguardava o momento era Filipe Graciosa - presidente da SHP e cujos bigodes compridos e enrolados nos extremos se tornaram imagem de marca - e a mulher Isabel.

De início o ambiente era cerimonioso. Camilla trazia uma saia branco pérola com bolas castanhas e amarelo-mostarda e um casaco a condizer com o último tom. As cores pastel escolhidas pela duquesa contrastavam com o traje eleito pela socialite Paula Bobone, também presente no evento. "You are very british", ironizou a duquesa enquanto cumprimentava a habitué das revistas cor-de-rosa, vestida com tecido escocês da cabeça aos pés. O verniz começou a estalar e os comentários descambaram. Um grupo de tratadores que ali foi cuscar decidiu ficar para ver o que se passava. Estavam bem-dispostos e não queriam saber da atmosfera contida. "Havia ali um cavalo ruço que estava meio apalpado [coxo]", solta um deles, António Joaquim da Silva, conhecido por ser meio desbocado. "Mas a Camilla esteve bem no espectáculo, só não fez bem em não vir falar comigo", acrescentou. Uma no cravo, outra na ferradura, e por ele assim continuava a tarde inteira. Preocupado em apurar a verdade dos factos, o i questionou os homens sobre os dotes equestres do casal nas caçadas e, tanto Manuel Trancoso, de 68 anos, como João Maroto, de 69, garantiram que ambos montam bem. Vitorino de Sousa Lima, 50 anos, estava mais preocupado com questões amorosas e trouxe a princesa Diana à baila. "Se era o amor da vida dele, acho que nunca a devia ter deixado", opinou, referindo-se a Camilla e às traições. António da Silva, sôfrego para falar, diz que vira uma reportagem na TV no dia anterior e que "o acidente de Diana foi provocado", o que foi "uma estupidez". Enquanto um grupo de cavaleiros de equitação de trabalho, trajados a rigor e montados em cavalos lusitanos, entretinha a audiência, o i voltou-se para outro público. António Lourenço, com 50 anos e a montar a cavalo há 40, afirmou que a recepção da SHP "esteve à altura", lamentando apenas a "pouca divulgação".

Terminado o "pas de deux" ribatejano multiplicado por cinco, rumámos à Casa de Protecção e Amparo de Santo António, em Lisboa. Devido à agenda real apertada e às dificuldades de quem infelizmente não é escoltado, o i deparou-se com as portas da instituição fechadas e a duquesa lá dentro. Depois de várias tentativas à campainha, não tivemos alternativa senão gritar ao portão e esperar pela sorte. As nossas preces foram atendidas e duas das responsáveis pela casa receberam-nos. Lá dentro o ambiente era acolhedor e o cheiro agradável. Mafalda da Cunha Simões, de 46 anos, e Maria da Assunção Noronha de Andrade, de 59, são primas e netas do fundador da instituição para mães adolescentes, que já conta com 80 anos. Com capacidade para 20 jovens com filhos, a instituição dá neste momento abrigo a 18 que, para além de frequentarem obrigatoriamente a escola, também têm de ajudar nas tarefas domésticas dentro da instituição. Uma cozinha industrial foi recentemente construída, o serviço de catering que aí funciona serve para pagar as despesas. As jovens mães também têm um berçário na casa, onde podem deixar os bebés sempre que necessitam. "Gosto muito de cá estar. É como se estivesse em casa", contou Joana Sofia, com Santiago, de cinco meses, ao colo. Segundo as responsáveis, a jovem de 19 anos, natural de Queluz e a viver na instituição há quase um ano, "adora o filho" que, consta, anda sempre "muito bem arranjadinho".

À tarde, Monserrate mais podia chamar--se "a cereja no topo do bolo". Nos jardins há várias personalidades conhecidas e toilettes para todos gostos. Milu, um jack--russel-terrier adoptado pelo monumento e a quem fomos apresentados à entrada, cheira os pés dos convidados como quem absorve uma overdose de novidade. O estilo clássico com pormenores engraçados dos britânicos contrasta com a bipolaridade portuguesa que oscila entre vestimentas sem graça nenhuma e trajes espampanantes de deixar a rainha de olho em bico. Em nome da nação, ainda bem que aquela não estava presente. O ambiente é de festa e há senhores ingleses de pele rosada com chapéus de fazer inveja a qualquer fashion victim. Com o estômago colado às costas, pois os tempos da realeza não deixam a plebe almoçar, salgados e bolinhos foram a nossa salvação. Aqui fica uma nota de agradecimento a Miguel Jesus, de 42 anos, que, sensível à nossa condição, nos inseriu fielmente na rota do seu tabuleiro. E as viagens de reabastecimento foram muitas. "Queres mais, queres mais?", perguntava, no meio da azáfama de receber o casal real. "Se quiseres alguma coisa, já sabes", acrescentou. Carlos e Camilla cumprimentaram várias pessoas que lá estavam presentes e ficaram surpreendidos com a quantidade de ingleses. O príncipe quis saber "onde moram", "a quantos quilómetros fica" e comentou que Sintra deve ser um óptimo escape para quem vive em Lisboa. "Aqui é mais fresco", disse, como se tranquilizasse uma buganvília. Vestido de fato cinzento, com uma gravata bordeaux com cornucópias azuis, uma camisa azul às riscas brancas (tal como a de segunda-feira) e um lenço verde-água no bolso do casaco, Carlos parece gostar de cor e comentou com as senhoras que lá estavam o bonito vermelho das suas fardas. Perguntou-lhes se eram seguranças e recebeu a resposta de que eram funcionárias.

Um dos motoristas vai comentando "só fui aldrabão até aos dez anos", enquanto vai deixando o saco de presentes oferecidos ao príncipe no porta-bagagens do carro. "A partir daí nunca mais. Mas há outros que são aldrabões a vida inteira", acrescentou em tom moralista. Ao fechar o porta-bagagens, esqueceu-se das chaves lá dentro. O Mercedes, alemão como é, fechou--se automaticamente passados segundos e o motorista ficou tenso. "Diz que há uma avaria! Que o carro não anda!", gritou aos colegas, todos de óculos escuros e com aspecto de porteiros de discoteca, à medida que Carlos e Camilla se aproximavam. Pela boca morre o peixe, os convidados aperceberam-se da situação. Um outro carro apareceu de imediato, o príncipe entrou com a duquesa, mas descontente por aquele não ter as almofadas. Desfecho à portuguesa. Ponto final.


Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close