Entrevista

Howard Jacobson "O humor para os judeus é sobrevivência"

por Luís Leal Miranda, Publicado em 29 de Março de 2011   
O vencedor do Booker reflecte sobre ser judeu, ser engraçado e ser capaz de gastar milhares de libras numa mala de senhora
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"Está um dia lindo, o sol brilha e parece que passámos do Inverno directamente para o Verão. Estão 20 graus lá fora, imagine só". Seguem-se descrições da fauna e flora que por estes dias aparece a desabrochar ou a pipilar pelo terraço de Howard Jacobson. Ao telefone a partir da sua casa em Londres, o escritor inglês, 68 anos, está bem disposto apesar de ligeiramente ressacado - "bebi uns copos ontem depois de uma palestra sobre censura". Goza ainda do estado de graça concedido pelo Man Booker Prize, distinção que recebeu em Outubro do ano passado à custa de "A Questão Finkler", livro que saiu na quinta-feira em Portugal. "O prémio fez de mim uma pessoa melhor mas calculo que por pouco tempo. Assim que os efeitos desta vitória se dissiparem vai voltar a amargura". É aproveitar.

Como é que o Booker mudou a sua vida?

Em termos muito práticos, vendo muito mais livros agora do que alguma vez vendi. Por exemplo: a cópia em inglês de "A Questão Finkler" vendeu mais de 400.000 exemplares, um número colossal e que significa que eu em breve terei vendido mais exemplares deste livro do que todos os meus outros 11 romances juntos. É óptimo ter leitores, não tenho de lhe dizer isso a si, certo? E é maravilhoso perceber que há gente a lê-lo no Paquistão e será traduzido para mais de 23 línguas.

Também lhe deve ter aumentado a confiança, certo?

Um alívio enorme. A partir de agora não tenho de me preocupar com ter ou não ter leitores e se posso viver da literatura. Em tempos angustiava-me ter um livro novo, ir a uma livraria e não o encontrar em lado nenhum. Isso agora já não volta a acontecer tão depressa - em Londres vi paredes inteiras forradas a livros meus.

É uma libertação.

E também é uma espécie de ressurreição dos meus livros anteriores. Estão de volta, têm capas novas, estão a ser publicados em mercados onde nunca chegaram, vão ser traduzidos. É como se toda a minha carreira como escritor fosse rejuvenescida. O que também é perigoso.

Perigoso porquê?

Porque me sinto mais jovem do que realmente sou. Esqueço-me de que vou morrer em breve ou de me comportar com a dignidade que se espera de uma pessoa com a minha idade.

E a sua escrita será afectada?

Sou um escritor pessimista. Os meus livros e a minha carreira estão assentes na ideia de que a minha vida é um fracasso, faço a minha arte a partir daí. De agora em diante tenho de fazer o mesmo a partir da sensação de que a minha vida é um sucesso. Se será um problema? Veremos.

A vitória no Booker foi uma surpresa.

Eu também fiquei surpreendido. Naquela noite não achei que fosse ganhar [era a terceira nomeação]. Mas o que mais me surpreendeu foi o "bruaá" de apreço que veio da audiência. Parece que, além de mim, havia mais gente satisfeita.

O "Daily Telegraph" dizia que o Howard era "demasiado divertido para o Booker"?

Muita gente disse isso - eu próprio o disse. Passei anos a ver livros sérios ganhar esse prémio e a achar que aquilo não era para mim. Não percebo esta aversão ao humor na grande literatura, esse afastamento da seriedade. Acho que todos os romances devem ser cómicos.

Como assim?

É para isso que os romances servem. Repare: temos a poesia, temos a tragédia, temos outros géneros para lidar com coisas muito específicas. O romance trata do dia-a-dia, trata da vida. E a nossa vida é bela, feia e absurda. Um romance deve reflectir isso - e deve ter humor.

Acha que o humor é subvalorizado junto da alta cultura?

Sem dúvida. A literatura começou a tornar-se uma coisa tão séria e respeitada que acaba por ser vista quase como uma religião. Inglaterra é um lugar onde a religião organizada está a desaparecer e parece que a arte tomou esse lugar. A literatura deve ser uma coisa solene, silenciosa e a cheirar a igreja - velas, incenso, gente a ler em altares, essas coisas. As pessoas têm medo que, ao abrir um livro com piada, este se lhes rebente nas mãos. E isso é terrível porque em toda a história da literatura há grandes romances que nos fazem rir: "Gargantua e Pantagruel", de Rabelais, "D. Quixote", de Cervantes, são tudo novelas que fazem troça do estado ou da religião. Era para isso que os romances serviam. Mas de há 50 ou 100 anos para cá tudo mudou.

Tem medo de não ser levado a sério?

Não sei como é em Portugal, mas cá os heróis da nossa cultura são comediantes. Adoramo-los. Mas estamos à vontade quando eles estão no seu território - fazem umas piadas e já está. Quando o humor passa para outras áreas aí começam os problemas. As pessoas ficam confusas, não sabem o que pensar, ficam ofendidas. Eu gosto de escrever frases que deixam o leitor na dúvida se é comédia ou tragédia. Gosto de brincar com os leitores: acham que vão rir e eu faço-os chorar, sentem que vem aí uma cena trágica e eu faço-os rir. É uma leitura acrobática.

O humor é considerado por todos uma demonstração de inteligência, porque é que não acontece o mesmo quando chegamos à literatura?

Porque o meio literário está cheio de gente que veio das faculdades e não gosta de ver a inteligência exibida ou desperdiçada no humor. É demasiado rápido para eles. Estão habituados a escrever frases longas e aborrecidas para descrever uma ideia. Eu escrevo para aborrecer e ofender essas pessoas.

Esta vitória é, por isso, uma vingança?

Oh, sim. A reacção normal de quando se é distinguido é erguer o punho e começar a dizer "isto é para ti, isto é para o outro tipo, etc.". Eu por acaso tenho sido muito generoso e simpático para toda a gente. Dêem-me tempo.

E o que acha dos seus romances virem sempre descritos na badana como humorísticos?

Se isso ajudar as pessoas a saber que, "OK eu vou pegar nisto e, se tiver algum sentido de humor, vou rir", não tenho problemas com isso. O problema com essa definição é que te pode levar a achar que é uma cena light e sem consequências, com pessoas a escorregar numa banana e cair. Não há, infelizmente, nenhuma palavra que defina aquilo que eu faço para além de "comédia séria". O que deveria vir na badana é: este é um sério-trágico-cuidado-filosófico- e-no-entanto-divertido-romance. Mas não cabe. E ninguém ia comprar uma coisa dessas.

Pode o Howard ser descrito como um autor judeu?

Essa é uma pergunta difícil. Acho que sim, um pouco. Não porque os temas de que escrevo sejam unicamente judeus, mas porque têm muitas características judias. Estudei literatura em Cambridge e sou fascinado pelos autores ingleses. Quando comecei a escrever quis fazer uma espécie de romance muito inglês, respeitando essas raízes. Mas entretanto, depois de muito trabalho, descobri que não conseguia ser como Dickens ou Jane Austen, os meus autores preferidos. Foi então que o meu lado judeu começou a vir ao de cima e a influenciar a minha escrita.

Como se manifesta esse lado judeu?

Na comédia. Essa tentativa desesperada de encontrar humor em tudo à nossa volta. É como houvesse um 11º mandamento: "Tereis de encontrar piada em tudo".

O que tem de particular o humor judeu?

Cheira a sangue. As piadas podem ser muito diferentes entre si, mas no fundo são sempre sobre o desastre. É uma maneira de lidar com a desgraça antes mesmo de ela acontecer.

A comparação com Philip Roth, começa a ser maçadora?

Só é maçadora porque é repetitiva. Como elogio é fantástico. Roth é um dos maiores escritores vivos e é uma desgraça que nunca tenha ganho o Nobel. No entanto, sinto às vezes que as pessoas fazem essa comparação por preguiça.

É mais fácil ser-se um escritor judeu americano do que um escritor judeu inglês?

É mais fácil porque não há fricção. A cultura literária americana é judia. Se, por exemplo, lhe pedir para nomear seis grandes escritores americanos não-judeus em trinta segundos você não consegue. Mesmo os grandes escritores norte-americanos que não são judeus adorariam ser judeus. Leio o John Updike e penso, "oh, como ele adoraria ser judeu". O povo judeu esteve na criação da cultura americana, na sua origem, porque é uma cultura recente. Em Inglaterra não é assim. Eu sou o primeiro homem judeu inglês a ganhar este prémio, não apenas o primeiro escritor cómico, já pensou nisso? Na América seria a regra e não a excepção.

Alguma vez recebeu críticas negativas da comunidade judia?

No início os judeus ingleses fizeram uma coisa muito judia. Disseram "chiu, por que razão estás a dar nas vistas, por que razão queres que se saiba que há judeus aqui." Hoje já não é assim.

Vai à sinagoga?

Não gosto de rituais. Como disse Sigmund Freud, "ritual é só uma palavra diferente para neurose". E eu tenho neuroses que chegue. Preocupo-me se deixei as torneiras abertas, se fui embora e o gás ficou ligado. De cada vez que saio de casa volto atrás para confirmar se a porta está trancada. Já chega. De cada vez que vou a uma sinagoga faço um esforço e penso: "É desta, vou-me concentrar, vou ouvir e vou ler, vou pensar em tudo o que se passa". Mas vinte minutos depois estou aborrecido de morte porque o que toda a gente está ali a dizer que adora deus e deus é o maior. Sinto-me intensamente judeu, mas não de uma maneira religiosa.

Existe um sentido de humor britânico e um sentido de humor inglês. Por que razão nunca se fala de um sentido de humor católico ou português, por exemplo?

O humor para os judeus é uma técnica de sobrevivência. É o que se faz quando se passa a vida acossado, expulso daqui e ali. Como nos mantemos sãos apesar de tudo? A rir. Outras religiões também foram perseguidas mas não têm isto. Porquê? Não sei explicar. Mas fico muito contente por ter não só o sentido de humor judeu como também o britânico.

Uma pergunta de algibeira: quando decidiu tornar-se escritor?

Não decidi, nasci assim. Nunca valorizei outras actividades para além desta. Quando era miúdo, e enquanto outros rapazes tinham posters de jogadores de futebol e estrelas rock, eu tinha retratos de escritores - só escritores mortos. Os meus pais preocupavam-se muito, naturalmente. O meu argumento é de que só queres ser escritor se achas que o mundo não está certo. E porque é que aconteceu isto? Eu era uma criança feliz. Vinha de uma família pobre, ok, mas nunca me faltou nada. Nasci durante a guerra e o meu pai estava fora, no exército. No entanto tinha as minhas tias e a minha mãe só para mim, era o centro das atenções. Até ao dia em que o meu pai volta para casa e, pouco tempo depois, o meu irmão nasce. De repente senti que fui expulso do paraíso. A partir daí passei a vida a querer refazer esse mundo perfeito que perdi.

No discurso de vitória disse que ia comprar uma mala para a sua mulher com o dinheiro do prémio. Já cumpriu a promessa?

Sim e ela está satisfeitíssima com ela. Sobrou algum dinheiro, felizmente - mas já reparou como aquelas coisas estão caríssimas? Ela está muito feliz com a prenda e vai gostar muito de saber que você perguntou por ela.


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